Cido Gonçalves
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Livros menos conhecidos de Albert Camus são reeditados no Brasil

Reedições incluem romances, contos e ensaios do filósofo franco-argelino

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

21 Abril 2018 | 16h00

A reedição (editora Record) das obras Albert Camus, em capas lindas de morrer, é uma mão na roda para o leitor do século 21 se banquetear com um autor universal, numa altura em que a literatura francesa contemporânea anda à míngua de talentos indiscutíveis. Os relançamentos incluem títulos menos conspícuos, como A Morte Feliz e A Inteligência e o Cadafalso. Na medida em que o primeiro foi saudado por Sartre, e no segundo Camus resenha dois livros do crush de Simone de Beauvoir (O Muro e A Náusea), não dá outra: as ficções e fricções deste par ímpar talvez sejam uma das melhores chaves para exegese das respectivas obras. 

Conheceram-se em 1943, numa França ocupada pelos nazistas, e logo rolou um clima de almas gêmeas. Ambos ficcionistas, dramaturgos, críticos de literatura e teatro, pensadores e editores de revistas. Tinham o mesmo editor, e receberam o Nobel: Albert em 1957 e Jean-Paul em 1964. Só Sartre esnobou o prêmio, mas jurando de pé junto que não estava emburrado porque Camus fora contemplado primeiro. 

Rolava outra afinidade: preferiam a companhia das mulheres. Camus resmungou: “Os homens bajulam e julgam.” Sartre confessou que se sentia entediado ao lado de marmanjos, “mas é raro que as mulheres não me entretenham”. Camus era boa pinta: durante uma viagem a Nova York, a Vogue o comparou a Humphrey Bogart. Sartre estava longe de ser um gato: “Talvez minha obsessão pelo sexo feminino seja uma libertação do fardo da minha feiura.”

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Claro que, naquele que Camus descreveu como “o século dos rancores”, o bromance não podia durar. Entronizados como os supremos intelectuais públicos, os maîtres à penser de uma época, o caldo entornou com a publicação de O Homem Revoltado, de Camus. Por que Sartre não dava um pio sobre o Gulag soviético e as atrocidades stalinistas? A resposta é ainda hoje um paradigma: “Caro Camus, também acho os campos de concentração comunistas inadmissíveis, mas reprovo o uso que a imprensa burguesa faz deles.” A tréplica de Camus consumou o divórcio litigioso: “É necessário tomar partido, mas sem se tornar um espírito partidário. Os fins não justificam os meios.”

Quando Camus morreu num acidente de carro em 1960, Sartre carpiu: “Para todos aqueles que o amavam, essa morte é um absurdo insuportável.” Quinze anos depois, um Sartre setentão suspirou: “Ele foi meu último bom amigo.”

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Hoje em dia, as facções continuam se estapeando. Enquanto filósofos, nenhuma das reputações parece inexpugnável. Heidegger, a quintessência do existencialista, deu um passa-fora constrangedor quando Sartre quis visitá-lo: “Não recebo repórteres!” Nos turbulentos anos 1960, o guru foi Sartre. Mais tarde, a apologia deste de ditadores como Fidel Castro e Kim Il-sung, da Revolução Cultural Chinesa e de terroristas como os alemães do Baader-Meinhoff, pareceu menos descolada. 

Por sua vez, Camus, obscurecido pelo charme tempestuoso daquelas décadas, deu postumamente a volta por cima em 1994, com a edição do inédito e inacabado romance O Primeiro Homem. Tornou-se mais uma vez óbvio: Camus é, acima de tudo, um esplêndido ficcionista. Com uma especiaria singular: a Argélia da sua juventude – os perfumes do verão mediterrânico, as praias de areias incandescentes, os poentes rubros como beterrabas. Uma sensualidade telúrica que tempera, sem desarmar, as abstrações e o absurdo – e impede que a ficção de Camus se reduza a uma legenda da sua obra filosófica. Em tempo: Camus adorava dançar e o futebol (pelo menos até agora foi o único goleiro a ganhar o Nobel de literatura). 

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A morte obcecou este escritor tão visceral, no melhor estilo do compatriota Montaigne, segundo o qual “filosofar é aprender a morrer”. Desde a abertura de O Mito de Sísifo: “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia.” 

A Morte Feliz é uma espécie de rascunho de O Estrangeiro: ambos os protagonistas têm nomes quase iguais – Mersault e Meursualt. Embora aquém daquela obra-prima, A Morte Feliz não se esgota no documental – ainda que o próprio autor tenha recusado sua publicação. Aqui, a pergunta é: em que consiste uma morte feliz? Uma que rime essência com existência: “Um homem que procurou a vida onde esta é normalmente colocada (casamento, posição, etc.), ao ler um catálogo de moda de repente se dá conta de quanto ele foi estranho à sua própria vida (a vida como é retratada nos catálogos de moda)”. 

A Inteligência e o Cadafalso é uma admirável compilação de resenhas, que nesses anos todos não ganharam nem um pé de galinha. Como Sartre, Camus era um leitor insaciável e crítico apaixonado e penetrante (só na nossa época encontramos autores que escreveram mais livros do que leram). 

Primeiro, uma terraplenagem conceitual: “Chamamos de mau escritor aquele que se exprime levando em conta um contexto interior que o leitor não pode conhecer. O autor medíocre é levado a dizer tudo o que lhe agrada. A grande regra do artista, ao contrário, é esquecer parte de si mesmo em proveito de uma pressão comunicável. Esta busca de uma linguagem inteligível, que deve recobrir a desmedida de seu destino, leva-o a dizer não aquilo que lhe agrada, mas aquilo que é necessário.” E é assim que o cosmopolita Flaubert consegue, num show transformista, virar a provinciana madame Bovary. A prosa de Camus é enxuta e límpida, e houve quem invocasse Hemingway. Mas Camus é classicista, o proverbial estilo francês. Daí que desconcerte a defesa que o autor faz do Oscar Wilde de De Profundis, uma efusão sentimental gorgolejante. Que Wilde mesmo, antes da sofrência do cárcere, decerto rejeitaria, quando observou: “Toda poesia ruim é sincera.” 

O melhor ensaio é sobre Moby Dick, uma história na qual “perseguidores e perseguidos percorrem um oceano sem margens, em que cada onda é uma alma.” Como lacra Camus, “Melville é o Homero do Pacífico.” Pulsa uma reflexão literária, filosófica e política: “A história do capitão Ahab, que se lança no encalço da baleia branca que lhe cortou a perna, pode ser lida como a paixão funesta de uma personagem enlouquecida pela dor e pela solidão. Mas também podemos pensar nela como um dos mitos mais perturbadores sobre o combate do homem contra o mal e sobre a lógica irresistível que acaba por armar o homem justo primeiramente contra a criação e o criador, depois contra seus semelhantes e contra si mesmo.”

Bingo. Por essas e por outras, Camus cumpriu à risca a epígrafe de O Mito de Sísifo, do poeta grego Píndaro: “Ó minha alma, não aspire à vida imortal/ Mas esgote o campo do possível.” Para Camus, o possível era bem provável, e até o impossível punha as manguinhas de fora. 

*Paulo Nogueira é autor de 'O Amor é um Lugar Comum' (Intermeios) 

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