CRANE KALMAN GALLERY/THE BRIDGEMAN ART LIBRARYY
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Livros reavaliam importância do filósofo francês Gilles Deleuze

Pensador foi importante, entre outras coisas, por unir para sempre a filosofia e a psicanálise

Rodrigo Petronio*, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2018 | 16h00

O futuro será deleuzeano. Esta afirmação definitiva de Michel Foucault deixou de ser uma frase de efeito. Tornou-se uma profecia que aos poucos vem se realizando. Cada vez mais a obra do filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) ganha desdobramentos e ressonâncias. Cada vez mais ele se afirma como um dos maiores pensadores do século 20. Um limiar para a formulação de uma filosofia do futuro. 

Esse fenômeno em torno de Deleuze começou no Brasil por meio do pioneirismo de alguns de seus primeiros tradutores e estudiosos, tais como Peter Pál Pelbart, Valter Rodrigues, Claudio Ulpiano, Luiz Orlandi, Mario Bruno e Suely Rolnik, dentre outros. E agora uma nova safra de publicações parece corroborar o lugar de destaque desse imenso pensador. 

A primeira delas é a reedição de Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento, de Claudio Ulpiano, um dos mais amplos e verticais estudos sobre Deleuze em termos internacionais. A obra ficou a cargo da Ritornelo, editora ligada ao Acervo Claudio Ulpiano, centro de pesquisa e documentação dedicado à preservação da memória e da obra deste lendário professor e filósofo. 

Outros dois livros essenciais de Deleuze saíram do prelo da editora N-1: Nietzsche e a Filosofia e Cartas e Outros Escritos, este último trazendo material inédito e preparação de David Lapoujade. Por fim, a Editora 34 acaba de reeditar os dois volumes que Deleuze dedicou ao cinema: Cinema 1: A Imagem-Movimento e Cinema 2: A Imagem-Tempo. Estes dois clássicos do pensamento audiovisual estavam há anos desmembrados entre as editoras Brasiliense e Martins Fontes. Isso dificultava a circulação conexa e, por conseguinte, a compreensão de sua complementaridade. 

Deleuze é um pensador central do século 20. Um autor que se encontra no cerne de toda filosofia ocidental. Essa centralidade decorre da ousadia de seu projeto: refundar a ontologia (estudo do ser). Fundar uma ontologia da modernidade. Embora a ontologia tenha sido criticada por Kant e considerada morta por boa parte da filosofia moderna, Deleuze segue a contracorrente. Apoia-se em autores como Henri Bergson (1859-1941), Charles Sanders Peirce (1839-1914) e Alfred North Whitehead (1861-1947) e redefine o conceito de ser. Redimensiona os infinitos estratos da realidade.

Dedica a vida não a reativar anacronicamente ontologias antigas e medievais, mas a fundar uma ontologia a partir das funções e descobertas da ciência moderna. Essa nova ontologia se baseia em uma unidade de três vetores: perceptos, afectos e conceptos. A percepção, a afecção e a conceitualização. A primeira seria ligada aos sentires. A segunda se localiza no campo das paixões e das interações entre os corpos. A terceira diz respeito ao pensamento propriamente dito. 

Para fundamentar esta nova ontologia, paralelamente ao desenvolvimento de uma filosofia autoral, Deleuze perfaz um caminho de extrema humildade intelectual. Dedica-se à tarefa cotidiana de comentar alguns dos principais filósofos ocidentais: Hume, Espinosa, Nietzsche, Bergson, Kant, Leibniz, Foucault. Um livro para cada pensador. 

De maneira complementar, expande de modo vasto o horizonte da filosofia. Passa a concebê-la como atividade geral dos seres, humanos e não humanos. Declina-a em suas dimensões perceptivas, afetivas e abstrativas, e não apenas conceituais. É preciso escrever a geologia do pensamento. É preciso encarnar os conceitos. É preciso descrever o pensamento-mundo. 

Não por acaso essa nova concepção confere um estatuto especial às artes e à literatura. E, por isso, os diversos livros dedicados a escritores e artistas e a importância da arte e da literatura: Proust, Kafka, Sacher-Masoch, Francis Bacon, Artaud. Dezenas de escritores. Dezenas de dramaturgos. Dezenas de artistas. As imagens da arte e da ficção funcionam como linhas de fuga dos conceitos. O pensamento é uma máquina que desfaz, fio a fio, o novelo compacto dos conceitos que a filosofia edificou. 

A filosofia passa a ser entendida também como uma arte: a arte de criar conceitos. E essa arte é a espinha dorsal das obras mais ambiciosas, como Diferença e Repetição, Lógica do Sentido, os dois tomos do projeto Capitalismo e Esquizofrenia (O Anti-Édipo e Mil Platôs) e, finalmente, O que é Filosofia?, estas últimas escritas com Félix Guattari. 

Estes lançamentos recentes são um panorama abrangente para que o leitor acesse essas diversas faces de sua obra. O volume de cartas traz um aspecto mais intimista e ainda pouco conhecido. Destacam-se as cartas endereçadas ao filósofo Clément Rosset e ao poeta Ghérasim Luca. Por meio dessa correspondência apreendemos a descoberta de alguns pensadores matriciais para Deleuze, como a filosofia organicista e processual de Whitehead. O volume traz também algo pouco documentado: alguns desenhos de Deleuze. 

Os escritos são de juventude. Curiosamente são dedicados a alguns pensadores metafísicos que não costumam figurar no seu cânone, tais como Bréhier, Lavelle, Le Senne. A revelação de autores ignorados pela história da filosofia também é uma tônica da contribuição de Deleuze à filosofia. Aqui temos seu escrito sobre a conceito de matese (saber supremo) na fisiologia de Malfatti di Montereggio (1775-1859). Também conseguimos captar a gênese de alguns interesses ulteriores que vão atravessar toda sua obra. Por exemplo, os cursos e escritos sobre Hume. De modo geral, as cartas e escritos de juventude ajudam a efetuar uma genealogia de seu pensamento. 

Falando em genealogia, o livro sobre Nietzsche explora o aspecto de Deleuze comentador. E nem por isso é menos controverso. Como todo grande filósofo, Deleuze se apropria dos conceitos. Interpreta-os com o intuito de criar novos conceitos. O ressentimento, a má consciência, a vontade de potência, os niilismos passivo e ativo. Nenhum conceito é analisado de modo imparcial. É o pensamento mesmo em seu eterno devir que os convoca. O objetivo é criar uma filosofia autoral que se engaje em cada aspecto depreendido da obra alheia. Uma dramatização de figuras. Uma usina de personagens conceituais. 

Nesse plano de imanência, as formas da sensibilidade são estruturas pensantes. E as paixões são racionais. Por isso, a unidade entre percepções, afecções e conceitos encontra seu ponto alto nas duas obras-primas sobre cinema. São centenas de filmes e centenas de cineastas analisados. O objetivo é criar uma grande tipologia das imagens, tanto do cinema clássico (imagem-movimento) quanto do cinema moderno (imagem-tempo). O plano de imanência (universo) se transforma em plano infinito de signos flutuantes: o filme. 

A Imagem-Movimento se funda nos princípios sensório-motores. O cinema está nascendo, como indústria e como entretenimento. Por isso o seu eixo é a imagem-ação. Em torno dela, organizam-se as imagens-percepção, as imagens-afecção, as imagens-pulsão e as imagens mentais. Desde os irmãos Lumière, Chaplin e Keaton a Eisenstein, Griffith, Lang e Hitchcock, esse mecanismo das imagens conectadas e acionadas pelo drama se mantém funcionando. 

A partir de meados do século 20, sobretudo por conta da produção dos clichês, por meio dos autômatos espirituais e da indústria de massa, ocorre uma inflexão. Não será mais a motricidade a condutora da imagem do cinema. Será a dilatação e a hesitação. A experiência de um tempo-espaço qualitativo, escandido na duração, concebida por Bergson. Os signos óticos e sonoros puros assumem a cena. Essa nova dimensão de espaço-tempo emerge do Aberto. Surge da fenda que se abre no plano de imanência do universo e no plano do filme. Conduz o espectador cada vez mais às dimensões virtuais do extracampo, da latência, do não manifesto. 

Nasce um novo o mundo: o cristal do tempo. A simultaneidade do tempo-espaço encarna imagens-lembrança, imagens-devaneio, imagens-delírio. Traz à tona camadas dos lençóis freáticos da memória. Abre clareiras em direção ao futuro. A atualidade e a virtualidade dos seres se embaralham. A indiscernibilidade real-imaginário é um imperativo. Esse novo olhar-cristal escava as imagens adormecidas sob a opacidade dos clichês. É a era de Antonioni, Godard, Pasolini, Visconti, Tarkovski, Bergman, Resnais.

Por fim, como diria Deleuze, não podemos falar sobre as coisas. Falamos apenas com as coisas. Por isso, não se deve produzir um discurso explicativo do real e do pensamento. Deve-se atravessar o pensamento-mundo. É isso que Ulpiano realiza em sua brilhante abordagem. Parte de linhas, conceitos, séries, campos de força, linhas de intensidade, imagens e singularidades. Cria assim um mapa das regiões, declives tectônicos e principais planos de consistência dessa obra singular.

A sensibilidade e a erudição de Ulpiano lhe possibilitam não apenas uma fina hermenêutica do texto de Deleuze. Promove uma articulação entre todos os campos e vetores desse pensamento. Mais: convoca os autores e artistas agenciados no texto para essa grande arena de signos. Desse modo, Ulpiano não se restringe a compreender Deleuze. Vive e recria sua filosofia. Cria conceitos a partir de um criador de conceitos. E demonstra que a tarefa do pensamento sempre foi e sempre será a de criar novas realidades, novos mundos e novas figuras de luz. Inclusive e sobretudo quando estamos na escuridão. 

*Rodrigo Petronio é escritor e filósofo. Professor titular da Faap, desenvolve pós-doutorado no centro de tecnologias da inteligência e design digital (TIDD/PUC-SP)

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