Los hermanos

AMBULATÓRIO DA NOTÍCIA - Unidade de tratamento para quem sai mal na foto

Tutty Vasques, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2008 | 23h59

Antes que o noticiário flagre o juiz que apitou o jogo do Fluminense ou alguém das Farc levando uma cervejinha para facilitar as coisas, é preciso dizer o seguinte: há muito tempo a América do Sul não vivia dois feitos tão espetaculares no mesmo dia. A vitória do Exército colombiano não chegou a ofuscar a conquista da Libertadores da América pelo futebol equatoriano, mas é claro que a ação cinematográfica de resgate de Ingrid Betancourt tirou da façanha da LDU no Maracanã um bocado de espaço na mídia. Faltou primeira página nos jornais da semana para tantos heróis cucarachos da safra da última quarta-feira, 2 de julho, aí incluídos o jogador da Liga Joffre Guerrón, o presidente francês Nicolas Sarkozy e o personal trainer colombiano que preparou a ex-refém para a liberdade.A se lamentar apenas o fato de que, numa região do mundo tão carente de boas notícias, não vigore um esquema de rodízio para que nunca coincidam duas na mesma edição dos jornais. É muito desperdício! O resultado dessa overdose de imprevistos agradáveis no topete do continente acabou escondendo do resto do mundo boa parte da explosão de alegria que tomou conta de Quito na primeira grande marca internacional do futebol equatoriano. Até hoje o povo de lá parece não acreditar naquilo que os jogadores, o técnico e a torcida do Fluminense jamais acreditaram: que o time carioca pudesse perder para a própria prepotência. Pagaram pela empáfia de não admitir que o inesperado lhes faça surpresas. A vitória da LDU nos pênaltis não quer dizer lá muita coisa em matéria de futebol, mas botou lenha na fogueira da possibilidade de novas alegrias em marcha na América do Sul. Desde a morte de Che Guevara, como se sabe, não acontece nada por essas bandas.Mas isso aqui pode ser diferente. Em que outro lugar do mundo um seqüestro de seis anos na selva termina com aquela mulher saltitante avião afora, apesar de tudo de ruim que cercava sua história: o rosário de doenças fotografado como prova de vida, o desespero do isolamento, o interesse estratégico no caso de potências como a França e os EUA, as loucuras de Hugo Chávez, a solidão? E que família é aquela? Todo mundo saudável, corado, discreto, bem vestido, educado, solidário e, ainda por cima, bilíngüe. A desenvoltura de Ingrid Betancourt nesses últimos dias - não digo nem fazendo tranças, mas no sobe-e-desce de escadas de avião - lembra um pouco a arrancada que Guerrón, símbolo da alegria equatoriana, deu no finalzinho da prorrogação. De sua intermediária até a entrada da grande área adversária, foram 76 metros em menos de 10 segundos, isso aos 119 minutos de jogo no Maracanã. Como dizia o velho Geraldo José de Almeida, "Que que é isso, minha gente?" E, como diria o outro, nunca na história deste continente duas instituições tão pouco associadas a boas notícias fizeram sua parte com tamanha aparente lisura e conseqüente reconhecimento internacional. Em primeiro lugar, disparado, só se fala em Ingrid Betancourt e da Colômbia em todo o mundo. Que mulher fantástica, que filhos adoráveis, que soldados extraordinários, que mobilização internacional admirável, que coragem invejável! E a LDU? Em notinhas de pé de página, o mundo curva-se ao futebol equatoriano. Ainda que não seja bem assim - geralmente as coisas não são da maneira que as vejo -, parece vento a favor. Melhor aproveitar. Depois, caso necessário, se apura se tem alguém levando uma cervejinha na parada. Ou não!Soy contra O escritor colombiano Fernando Vallejo é um chato de galocha. Desses que gasta horas de qualquer entrevista falando mal do papa. A troco de nada. Sua linha de discurso - "contra tudo isso que aí está", como define Sérgio Rodrigues no blog Todoprosa - encontrou na reaparição de Ingrid Betancourt uma possibilidade de se renovar na Festa Literária de Paraty. "É um horror que tenham libertado essa mulher horrível!" Prisioneira na selva, ela seria "menos uma praga para nosso país". As piores, segundo ele, são a Igreja, o governo Álvaro Uribe e as Farc - não necessariamente nessa ordem. Prova de maturidade da Flip, fez muito mais sucesso por lá as provocações do poeta e jornalista Xico Sá sobre o engano de Freud ao sustentar que em algum momento a fase anal acaba. Taí o colombiano Vallejo que não lhe deixa mentir. Poliglota por necessidadeJoel Santana fez pitstop de sua carreira internacional no Rio. Disse, enquanto abastecia na Gávea, que está se comunicando com a seleção da África do Sul em inglês, sem a ajuda de intérprete. O mais incrível, observou, é que alguns dos jogadores acham que conversam com o técnico em zulu. Frase da semana"Muito antes de virar festa literária, Paraty já era uma cachaça"Luis Fernando Verissimo

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