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Lott, um marechal contra a corrente, tem biografia republicada

Militar desafiou governos e virou paradigma da defesa da legalidade, sendo indefinível tanto para a direita como para a esquerda

Elias Thomé Saliba, Especial para o Estado

21 de setembro de 2019 | 16h00

“No Palácio do Catete, faltava Café e Luz, mas tinha pão de Lott”. Com esta frase, o Barão de Itararé resumia um episódio decisivo na história política brasileira: em novembro de 1955, com Café Filho hospitalizado, o ministro da Guerra, Henrique Lott, recusou-se a deixar o governo de Carlos Luz, presidente em exercício; manteve-se no posto e articulou a defesa da legalidade constitucional, garantindo a posse do presidente eleito, Juscelino Kubitschek. Mais que uma encruzilhada nos muitos e tortuosos caminhos da história brasileira, o famoso contragolpe de Lott transformou-se no episódio decisivo na biografia do controvertido marechal.

Se Lott não tivesse orquestrado o contragolpe, 1964 provavelmente seria antecipado para 1955 e toda a história posterior seria diferente. O “se” não tem nenhum efeito sobre o passado, mas é um tentação natural de todo historiador: imaginar outras possibilidades é, na verdade, um recurso e, até, um caminho lógico para entender melhor a história real - já que é difícil explicar o que aconteceu, sem pensar no que poderia ter acontecido. O contrafactual é parte natural de uma espécie de laboratório de testes: com uma diferença, o laboratório do historiador é a sua imaginação, sempre rigorosamente documentada. Este talvez seja o principal mérito do jornalista Wagner William em O Soldado Absoluto, uma biografia (agora relançada pela Editora Record) detalhadíssima do Marechal Lott. Admirado por políticos de esquerda – sem qualquer afinidade ideológica com ele – e amaldiçoado por aquela fração de militares que articularam o golpe de 1964, Lott acabou um personagem esquecido, quase ausente na memória política brasileira. Indo muito além dos fatos e da biografia do personagem central, Wagner William reconstrói uma história crivada de meandros, equívocos, frustrações e ressentimentos que deixaram marcas perturbadoras na política brasileira.

À margem da geração de “tenentes”, que pregava a participação militar na cena política, Lott sempre buscou a imparcialidade, estampada no perfil de sua personalidade. Em todos os cursos, sem exceção, desde a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, foi sempre o primeiro aluno. Tinha horário fixo para levantar, almoçar, jantar e até para beber água. Para economizar, ia a pé, da sua casa para o quartel, andando quilômetros. No Rio de Janeiro, conta-se que frequentadores da praia acertavam o relógio pela corrida matutina de Lott, que nunca se atrasava. Só começou a assumir cargos importantes quando era necessário alguém para “botar ordem na casa”. E quando isto acontecia, perguntavam: do que o general gosta? “Ele não bebe, não fuma, é caseiro, não gosta de reuniões sociais e não aceita barganhas nem presentes.” Já na campanha presidencial contra seu adversário, Jânio Quadros, da “espada contra a vassoura”, Lott encarnou exatamente o oposto do candidato histriônico, populista. Nas eleições presidenciais de 1960, Lott não desejava ser candidato, mas encarava a disputa contra Jânio segundo dizia, como "um ato de patriotismo para salvar o Brasil desse homem". Mas, Lott também não era o preferido de JK, que, discretamente, articulava sua volta ao poder. 

Despojado e direto, sem habilidade política, Lott não mexia um dedo para agradar. Até seu tipo físico não ajudava – forte, pele avermelhada, olhos azuis penetrantes – parecia mais uma criança robusta, posando em anúncio de leite em pó. Intransigente, irritantemente perfeccionista, sem nenhuma aptidão para ajeitar ou contemporizar, acabou virando paradigma do militar de hábitos rígidos. Assim, quando não entrava como personagem nas famosas “piadas de caserna” (na época, uma seção famosa da revista Seleções) Lott acabou se transformando naquele militar sempre admirado nos quartéis, modelo de honra e caráter, que pregou a neutralidade enquanto pode – como ministro, chegou a ser uma espécie de “poder moderador” - até ser envolvido pela engrenagem e, de certa forma, mergulhar, de corpo inteiro, no jogo das facções patrimonialistas no cenário político brasileiro. Cenário que ele definia, resignado, e já no final da vida, como autentica “piscina de crocodilos”.

Menos alegre e muito mais dolorosa, a história dos familiares e pessoas ligadas a Lott também ocupa lugar importante no livro. Muitas tiveram suas carreiras encerradas depois do golpe de 1964. Sua filha Edna, eleita deputada estadual e cassada em 1969, morreu em 1971, assassinada por seu secretário e motorista. Nelson, filho de Edna, ainda como estudante de História, engajou-se na ALN, envolvendo-se em ações armadas. Quase como resposta documentada à descrença do seu avô - "Meu Exército não faz isso", teria sido a imediata reação do Marechal às denúncias – o autor inclui no livro o testemunho inédito e detalhado da prisão e tortura do neto de Lott nas dependências do exército. 

Herói por sua intransigente defesa da vontade das urnas ou figura controversa por destituir dois presidentes em nome da legalidade? A vantagem de uma biografia detalhada e rigorosamente documentada é que ela ultrapassa a mera superfície dos maniqueísmos fáceis. Decididamente, o “se” não altera o passado. Mas instiga nossa memória.

Elias Thomé Saliba é historiador, professor titular da USP e autor de 'Crocodilos, Satíricos e Humoristas Involuntários: Ensaios de História Cultural do Humor

 

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