E.M. Lilien
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Luís Krausz analisa influência da diáspora na literatura judaica

Livro mostra que a imigração desempenhou grande importância sobre a formação do cânone literário judaico-oriental

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para o Estado

15 de junho de 2019 | 16h00

Novo livro do escritor e ensaísta Luís Krausz, professor de literatura hebraica e judaica da USP, Entre Exílio e Redenção: Aspectos da Literatura de Imigração Judaico-Oriental (Edusp) analisa o mosaico de influências históricas e identitárias, sociais e políticas para a formação de uma literatura judaico-oriental, que se constitui, entre a(s) diáspora(s) e a conquista da terra prometida, sob o signo da polissemia, da expectativa e da tensão.

Logo no início, Krausz desvela a ramificação histórica de dois galhos fundamentais a partir do mesmo tronco judaico: “A diferenciação e a divisão dos judeus em dois grandes grupos – asquenazitas e sefarditas – surgiu, inicialmente, a partir de diferenças concernentes à lei religiosa: aquelas comunidades cuja vida religiosa se orientava de acordo com os princípios e tradições dos sábios ibéricos, estabelecidos durante a Idade Média, foram denominadas sefarditas (do hebraico, Sefarad, Espanha), enquanto as que seguiam os sábios franceses, alemães e poloneses foram chamadas asquenazitas (do hebraico, Ashkenaz, Alemanha)”.

Krausz nos conduz pela miríade de caminhos da diáspora para compreender como a identidade judaica vai se tornando (ainda) mais plural e contraditória do exílio à redenção, isto é, da expulsão dos judeus da península Ibérica pelas monarquias espanhola e portuguesa ao assentamento de tais comunidades no Norte da África, na Europa Meridional, no Leste Europeu e no Oriente Médio; da residência (tensa) em países muçulmanos à expulsão de comunidades judaicas antiquíssimas após a formação do Estado de Israel, em 1948. 

Krausz nos informa que, nas sociedades muçulmanas, “os judeus, que tradicionalmente ocupavam posições secundárias em decorrência das leis religiosas do islã, desempenharam um papel importante no processo de colonização em vários países do Norte da África e do Oriente Médio, sobretudo exercendo o ofício de intermediários entre as potências coloniais e a população árabe local, seja como agentes de companhias estrangeiras, seja como funcionários dos serviços públicos implantados pelas potências coloniais”. Entre o anseio (e a ansiedade) de (não) ser europeu; entre o anseio (e a ansiedade) de, ao participar das engrenagens da colonização, (não) ser colonizado; entre a suspeição e o ressentimento dos muçulmanos em cujos países viviam, os judeus eram vistos (e se viam) como estranhos e estrangeiros, sob cujos pés ainda faltava a redenção do solo pátrio que o exílio jamais lhes pudera trazer.

É nesse contexto de exílio e ímpeto de redenção que Krausz desvela as raízes do movimento sionista: “Fundar uma identidade judaica moderna, impor uma transformação da identidade judaica e forçar o alvorecer de uma nova era na história judaica foram, desde a sua origem, os objetivos do sionismo, um movimento nacionalista que surgiu na Europa no contexto dos nacionalismos do fim do século 19 e que pregava a necessidade de mudança no estatuto social dos judeus por meio de uma recuperação dos elementos heroicos e nacionais, desprezados pelas ideias religiosas características do judaísmo diaspórico. Por meio da negação da diáspora, a narrativa sionista identificava-se com a ‘geração do deserto’, os filhos da geração do Êxodo que, tendo nascido em liberdade, conquistaram a Terra Prometida e se tornaram seus redentores, enquanto que, por meio da suposição de que essa terra era uma terra vazia, a história da presença árabe nela é desconsiderada.”

Tal colocação de Luís Krausz é tão emblemática quanto polissêmica: sabemos que, do bojo dos nacionalismos encarniçados de fins do século 19, surgiria o ímpeto vindouro dos nazistas, perpetradores do holocausto. Ao resgatar a narrativa bíblica e heroica da libertação do povo judeu do cativeiro egípcio, mediada pelo profeta Moisés, o romance utópico Altneuland (algo como Velha/Nova Terra/Pátria), de autoria do jornalista e teórico seminal do sionismo Theodor Herzl (1860-1904), nada em águas convulsas, já que a terra prometida comporta promissórias politeístas: Israel, para os judeus, ocupantes originários; Palestina, para os árabes, ocupantes antiquíssimos. Da dor da diáspora à condição de estrangeiros/cúmplices da colonização; da nostalgia pela velha/nova pátria ao nacionalismo (supostamente) redentor; do sionismo à formação do Estado de Israel – redenção, para muitos judeus; nakba (catástrofe), para muitos palestinos –, Krausz nos revela como exílio e saudade, colonização e cumplicidade, nacionalismo e opressão se imbricam para compor uma identidade cultural judaica intrinsecamente plural e contraditória. 

*É ESCRITOR E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ, AUTOR DE ‘O EVANGELHO SEGUNDO TALIÃO’ (NVERSOS), ‘TIRO DE MISERICÓRDIA’ (NVERSOS), ‘DOSTOIÉVSKI E A DIALÉTICA: FETICHISMO DA FORMA, UTOPIA COMO CONTEÚDO’ (HEDRA) E ‘DIÁRIO DE UM ESCRITOR NA RÚSSIA’ (HEDRA)

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