Lulismo tipo exportação

Presidente Zuma deve seguir política do colega brasileiro na Áfica do Sul, diz amigo de Mandela

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2009 | 09h50

O que há em comum entre África do Sul e Brasil, além das raízes comuns e do fato de sediarem as duas próximas copas do mundo? Na opinião do diário norte-americano Financial Times, ambos podem estar vivendo um momento político semelhante. Essa é a ideia central de um artigo publicado segunda-feira, com o título: "Zuma deveria aprender lições políticas com o defensor brasileiro dos pobres." Assinado pelo editor Richard Lapper, o texto discute as incertezas em torno do mandato de Jacob Zuma, recém-eleito presidente do país pelo Congresso Nacional Africano (CNA). Acusado de corrupção, ignorância em relação à aids e até de estupro, nem o respaldo dado a Zuma pelo ex-presidente e prêmio Nobel da Paz Nelson Mandela - que passou 27 anos preso durante o apartheid antes de chegar ao poder e pôr fim ao regime racista no país - foi suficiente para aplacar a desconfiança da comunidade internacional.

 

Para conseguir isso, aconselha o jornalista do FT, Zuma deve seguir o exemplo de Luiz Inácio Lula da Silva. O artigo compara a atual situação na África do Sul aos "tumultuados meses que antecederam a primeira vitória do presidente brasileiro, em 2002". E mostra como, apesar de tudo, Lula conduziu o Brasil para o "período de relativa prosperidade" que vive hoje. A receita, ensina o FT, é "manter a estabilidade econômica, colocar o compromisso com os pobres no topo da agenda política e expandir os programas de bem-estar social". Zuma irá segui-la?

 

"Ele já está fazendo isso", responde, de Durban, o escritor e ativista sul-africano Mac Maharaj, de 74 anos. Professor do Bennington College de Vermont, nos EUA, Maharaj foi um dos fundadores do Movimento Anti-Apartheid na África do Sul e é amigo de Mandela - com quem dividiu a cela em Robben Island, prisão de segurança máxima ao largo da Cidade do Cabo, por 12 anos. Durante o período, ajudou-o a escrever secretamente sua lendária autobiografia, Longo Caminho para a Liberdade (Campo das Letras, 1995). Maharaj é também autor do livro Mandela: Retrato Autorizado (Alles Trade, 2007).

 

Na entrevista a seguir, o professor assina embaixo do diagnóstico do Financial Times, lista as semelhanças entre Lula e o novo líder sul-africano e sustenta que Zuma "é o homem de que o país precisa".

 

Em determinado momento do artigo no ‘Financial Times’, Richard Lapper lança a questão: ‘Do mesmo modo que os formadores de opinião estavam errados sobre o presidente brasileiro, não estão subestimando o presidente sul-africano?’ Como o senhor a responde?

Lapper coloca uma questão interessante, ao admitir explicitamente que os analistas estavam errados a respeito de Lula em 2002 - quando tudo o que ele já havia feito como dirigente sindical e na fundação do Partido dos Trabalhadores demonstrava qualidades de liderança que se confirmaram na presidência. No que se refere a Zuma, acho que novamente houve uma onda de comentários, alguns levantando questões legítimas, mas também certa indisposição com o resultado das eleições na África do Sul. Agora, a posição da comunidade internacional já evoluiu, na direção de aceitar a realidade da presidência Zuma. O problema maior é interno, eu diria, em certos círculos que se entrincheiraram de tal forma contra Zuma que agora não sabem como sair disso. Quem sabe o artigo não possa ajudá-los?

 

O descrédito que envolveu a eleição de Zuma não se deve ao fato de ele ser alvo de denúncias de corrupção e até de estupro?

Alguns pontos ainda estão em julgamento, e as informações chegam muito vagarosamente. O que não há dúvida é que instituições do Estado foram largamente utilizadas contra Zuma para desacreditá-lo. No caso do estupro, já ficou claro que a denúncia não tinha substância. E na alegação de corrupção, até agora o que parece é que as autoridades responsáveis pela acusação a fizeram por fins políticos (em abril, o promotor público retirou as acusações, diante de evidências de envolvimento político dos denunciantes). Alguém pode sempre dizer que, diante dos olhos do público, Zuma continua culpado. Mas é preciso levar em conta que houve um processo eleitoral democrático, pelo qual ele foi eleito. E agora, o desafio é mobilizar os pontos positivos de sua personalidade - que existem - na direção do interesse nacional. Acredito que ele será um presidente bem-sucedido.

 

Zuma estará preparado, por exemplo, para enfrentar a questão da aids? No passado, ele demonstrou enorme falta de conhecimento da epidemia ao dizer ter transado com uma mulher sem camisinha porque ‘o risco para o homem é mínimo’ e que se protegeu tomando ‘uma ducha’ depois...

A verdade é que Zuma herdou uma visão errônea da epidemia, fruto da política pública extremamente danosa do ex-presidente Thabo Mbeki (que renunciou ao cargo em setembro de 2008, em meio a acusações de que teria conspirado contra seu rival político, Zuma). Foi uma política que permitiu à epidemia crescer no país. Agora, a questão que se coloca é: será que o presidente será capaz de mudá-la e pôr o combate à aids na direção certa? Acho que sim, que o presidente aprendeu com seus erros.

 

Zuma pode, como dizem, escorregar para o populismo?

Esse é um prejulgamento semelhante ao que vitimou o presidente Lula. O termo populismo, aliás, tem sido utilizado de maneira muito leviana, na minha opinião. Veja que a enorme popularidade demonstrada por Lula na reeleição de 2006 se deveu justamente a seu compromisso com a estabilidade. Então, aguardo o momento em que Zuma e Lula se encontrem para um aperto de mão e possam rir da forma como foram retratados por parte da mídia. Acredito muito na parceria entre nossos dois países, que, com o apoio de Índia, China e outros emergentes podem começar a mudar as regras econômicas no mundo - no sentido de beneficiar também as nações pobres e em desenvolvimento.

 

Fala-se também da poligamia do presidente eleito. Para alguns, ela revela o desrespeito de Zuma pelos direitos das mulheres.

Acho que isso oculta uma questão profunda. Como podemos, em um mundo multicultural - e a África do Sul é um país multicultural, com a democracia garantindo não só a existência, mas o desenvolvimento de nossas diferentes culturas, religiões e costumes -, fazer com que nosso povo avance no respeito aos direitos humanos e à liberdade individual? Nesse sentido, há gente que diz que a poligamia per se é errada. Essa é uma visão eurocêntrica. Veja que esses mesmos eurocentristas estão prontos a se sentar com outros líderes que são polígamos, mas eles não os chamam assim... Ou dispostos a conviver com mórmons dentro de sua própria sociedade sem chamá-los de polígamos. Aí, são dois pesos e duas medidas. O fundamental é que os direitos universais, que pertencem a todo ser humano, estejam garantidos - inclusive os relativos à igualdade entre homens e mulheres. Isso significa que é preciso pôr fim à poligamia? Bem, em Gana, quando o presidente (Kwame) Nkrumah chegou ao poder, decidiu banir a prática no país. E foi uma multidão de mulheres, carregando faixas e cartazes em enormes manifestações, que o forçou a rever a decisão. Porque a função da poligamia na sociedade ganesa daquele tempo representava uma segurança para a vida cotidiana. Então, é preciso olhar essa questão de maneira mais aprofundada, não estreita, fugindo de percepções pessoais sobre o que nós fazemos e o que nós reconhecemos como práticas adequadas para o resto do mundo.

 

O senhor conhece Jacob Zuma desde Robben Island. Mantém interlocução com o presidente eleito? Que impressões tem dele?

Eu o conhecia antes mesmo da prisão. Depois que foi eleito, ainda não o encontrei. Mas, se o fizer, não terei nenhum conselho a lhe dar. Zuma já deu provas de sua persistência e da firmeza de seu caráter. Sabe que não pode frustrar as enormes esperanças depositadas nele. Pessoalmente, acho que é um homem do povo, exatamente como Lula. É também um ouvinte muito bom, que respeita a opinião dos outros. Mesmo os que discordam dele, quando o conhecem passam a respeitá-lo. E acho que entende tanto os anseios por continuidade quanto os por mudança na África do Sul. É o homem de que o país precisa.

 

Voltando ao artigo do ‘FT’, o autor acha que Zuma deveria apostar na estabilidade econômica e ‘colocar os pobres no topo da agenda política’, como Lula fez. Está certo?

Se você olhar para as decisões da conferência do CNA ainda em 2007, vai ver que a plataforma era exatamente essa. E Zuma já está fazendo isso: expandindo programas sociais, colocando a questão da pobreza no topo da agenda e reiterando que "precisamos de estabilidade". E, com a crise financeira mundial, não há alternativa senão perseguir a estabilidade, mesmo à custa do sofrimento dos trabalhadores.

 

O jornal acha que o maior desafio na África do Sul é de governança.

De fato. Não é só uma questão de corrupção, mas de competência, de capacidade de "entregar" políticas públicas eficazes. Mas a discussão também esteve presente nos debates do CNA em 2007. O que temos que ver agora é se o forte, porém diversificado, gabinete de Zuma será capaz de funcionar como um time.

 

E o time foi bem escalado?

Zuma escolheu gente intelectualmente preparada e com pontos de vista diversos. É um gabinete inclusivo: tem à mesa representantes dos trabalhadores e homens de negócio. E pessoas de todas as cores. Há nomes fracos também, como em todo gabinete. A performance vai depender do capitão Zuma.

 

Com o país em recessão, qual o maior desafio do novo gabinete?

A África do Sul tem praticado o rigor fiscal há 15 anos. Portanto, há espaço para uma maior folga no orçamento. E, nos últimos dois anos, temos o enorme programa de infraestrutura ligado à Copa de 2010. Os benefícios dessas iniciativas estão aparecendo aos poucos e contrabalançando a perda de postos de trabalho por conta da crise. Analistas dizem que podemos sair da recessão já no terceiro trimestre.

 

O apoio de Mandela a Zuma é fruto de uma coincidência de visões de mundo ou do respeito entre dois ex-prisioneiros do apartheid?

Mandela aposentou-se e tem evitado assumir posições públicas. Mas, em conversações privadas, mesmo antes de 2007 vem nos dizendo que apoia totalmente Zuma. A união é importante para que o país prossiga nos avanços que Mandela nos proporcionou em 1994.

 

O senhor dividiu uma cela com Nelson Mandela durante 12 dos 27 anos que ele passou preso - uma experiência que levaria muita gente à loucura. Ele sobreviveu, elegeu-se presidente, pacificou o país e tornou-se um dos maiores estadistas do século 20. De onde vem tal poder de superação?

Sei que muitos se admiram pela maneira como Mandela sobreviveu à prisão e às violências que sofreu. Mas a realidade é que a maioria das pessoas têm esse mesmo potencial, ainda que não o saiba. Quando você se vê em uma situação-limite como aquela, as alternativas são simples: ou você mergulha na depressão ou se levanta e luta. Se sucumbir, vai viver com essa humilhação pelo resto da vida. Se lutar, vai sofrer até mais, mas manterá sua dignidade e autoestima. O que há de especial em Mandela é que ele representa aquilo que todos nós podemos nos tornar, quando nos comprometemos com a causa dos mais pobres e a ideia de um mundo melhor. Há um pouco de Mandela em todos nós.

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