Fort Greene Focus
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Luto de Abraham Lincoln é abordado em livro de George Saunders

Estreia do contista no romance venceu o Man Booker Prize em 2017 e chega ao Brasil

Paulo Nogueira*, Especial para O Estado de S. Paulo

24 Março 2018 | 16h00

Este era um dos lançamentos mais aguardados do ano, suscitando copiosa salivação: a estreia no romance de um dos autores mais tietados da língua inglesa. Até agora, o americano George Saunders deitara e rolara em volumes de contos, com uma inconfundível infusão de verve, emoção e filigranas narrativas. Num piscar de olhos, entesourou mais prêmios que Messi e CR7 juntos: bolsa MacArthur “genius”, Gugghenheim fellowship, Folio Prize. Passou o rodo e mudou de pedigree: de ilustre desconhecido para VIP disputado a pescoção por editoras globais.

Sim, Lincoln no Limbo embolsou o Booker 2017, mas antes disso Sounders já era um colunável: o audiobook da antologia 10 de Dezembro leva 6 minutos só para enunciar a lista de 166 intérpretes, entre os quais o escritor David Sedaris, o comediante Nick Offerman e atores como Susan Sarandon e Julianne Moore. Quanto a Lincoln no Limbo, se empoleirou rapidinho no top do New York Times, enquanto empilhava elogios de puros-sangues como Thomas Pynchon, Jonathan Franzen e Zadie Smith. Os direitos cinematográficos do livro já foram adquiridos por uma soma que daria para comprar um principado europeu. 

O romance se ocupa de um dos vultos mais icônicos da história dos EUA: Abraham Lincoln, que presidiu o país na mais fraturante crise nacional (a Guerra Civil) e aboliu a escravidão. Foi também o primeiro presidente dos EUA a ser assassinado. Só que isto não é, nem que a vaca tussa, um romance histórico, por vezes chatos em seu fetiche documental (como o próprio Lincoln de Gore Vidal). No estadista que aqui assoma não transparece um porte prometeico, mas uma vulnerabilidade desamparada, alquebrada. 

A história se desenrola em 25 de fevereiro de 1862, no cemitério de Washington. Lincoln habita a Casa Branca há menos de um ano, a União está se desmilinguindo e a Guerra da Secessão mandando bala (literalmente). É um mundo de cabeça para baixo: os velhos sobrevivem aos jovens. Willie, o filho de 11 anos de Lincoln, morreu de tifo e acabou de ser enterrado, para dor cósmica do pai, que de noite se esgueira à sepultura para embalar o corpo da criança. Este momento privado de saudade e ternura é testemunhado não pelos vivos, mas por um elenco de fantasmas boquirrotos. O romance enreda uma teia de solilóquios e citações, artigos da imprensa e monografias – algumas autênticas, outras fajutas e inventadas pelo autor. O clamor balbuciante das vozes espectrais lembra Cré Na Cille (The Dirty Dust), o aclamadíssimo romance do irlandês Máirtín Ó Cadhain, escrito em gaélico em 1949 e traduzido para inglês só em 2016.

Há duas vozes solistas, que borboleteiam junto ao túmulo do garoto. Uma é hans vollman (os nomes vêm sempre em minúsculas no fim de cada solilóquio), que morreu esmagado por uma viga do teto antes de consumar seu casamento com uma mulher bem mais jovem (e que por isso leva para o Além uma terna e eterna ereção). A segunda é roger bevis III, que se matou depois que seu amante o abandonou para “viver com correção” – e se arrependeu segundos depois de cortar os pulsos com uma faca de açougueiro, arrebatado pela “beleza do mundo”. Ambos esticaram as canelas há 20 anos, mas acham que estão apenas indispostos, e que o cemitério é um pátio de hospital, assim como seus caixão apenas “caixas de doentes”.

O título original (Lincoln in the Bardo) não alude a figura do bardo poeta. Palavra nunca pronunciada no romance, trata-se do “bardo” do budismo tibetano (Saunders é budista praticante), um estado transitório entre a morte e o renascimento na vida seguinte. Ou seja: Willie é “o Lincoln no limbo” – mas seu pai também se debate num purgatório secular, sofrendo pelo filho e liderando o país numa guerra civil impopular. 

Hoje Lincoln é considerado quase a ideia platônica de um grande presidente, mas seus contemporâneos (citados por Saunders) não tinham o benefício da perspectiva e não o viam assim. A mesma ótica estreita turva as vozes fantasmagóricas, que estão mortas mas não encaram a realidade. O que bagunça o coreto desta ilusão (de ilusão também se vive, e se morre), é a chegada de Lincoln para ninar o cadáver do filho. Observar um deles ser tocado e amado por uma pessoa viva tem um impacto sísmico na comunidade dos mortos: “Talvez não fôssemos tão indignos de amor quanto imaginávamos.” 

Esta sinceridade singela é tocante, sobretudo porque o autor contrasta sua doçura com outros registros: o burlesco do desbocado Barons, ou a patética candura de Elise Traynor, cujo anseio por uma afeição que “se tornaria Amor, e Amor que geraria um bebê, e isto é tudo o que peço”, culmina num estupro coletivo. Todos os espectros estão famintos de empatia. E, nesse caso, qualquer semelhança com os vivos – com a condição humana – não será mera coincidência. Quem não quer ser compreendido e consolado?

A grande artimanha técnica deste romance, uma possível obra-prima, é seu topete estrutural, especialmente os “três tenores” ectoplásmicos (o terceiro é o próprio Willie) – que nunca constitui um coro, como nas tragédias gregas, mas tampouco alinhava um diálogo convencional. Em vez disso, resmungam e se lamuriam como numa peça de Beckett. O único capaz de captar todas as vozes e formatar um sentido é o próprio leitor, que assim opera como uma espécie de “ponto” no teatro. Quanto aos mosaicos de citações, também elas espelham a relatividade de pontos de vista, o impressionismo idiossincrático que – para o bem ou para o mal - é o monograma do ser humano. Na página 26, por exemplo, desfilam 11 citações discrepantes sobre a aparência da lua naquela noite...

A imagem de Lincoln cingindo o corpo de Willie, como a Pietà de Michelangelo, acossou Saunders durante 20 anos, mas ele sempre tirou o bumbum da seringa. Até que em 2012 arregaçou as mangas até às clavículas, e consumiu 4 anos escrevendo o livro. Mas seria isto um romance? Mário de Andrade definiu o conto como “aquilo que seu autor chama de conto”. Hoje, o mesmo vale para o romance. 

Saunders planta sua história na terra de ninguém – fora do tempo e do espaço - que é um cemitério. O que não implica que, como manda o figurino, Lincoln não tenha uma meta. Bevins e Vollman tentam convencer o presidente (que não pode vê-los nem ouvi-los) a voltar para Willie antes que este esteja irremediavelmente perdido. Sem nem uma migalhinha de pieguice, eis o paradoxo de amar num mundo em que nossos entes queridos também devem morrer. O filósofo sul-africano David Benatar, com seu “antinatalismo”, propõe o fim total da reprodução humana para evitar que mais pessoas nasçam – e sofram. Mas Saunders não vai por aí, seguindo o seu colega britânico Julian Barnes (Nada a Temer): não é porque uma pessoa morreu que ela deixa de existir para nós. 

Ao sair da cripta, Abe Lincoln é um homem diferente – e um presidente diferente – daquele que lá entrou. Mas sem quimeras apaziguadoras. Reeleito em 1864, profere seu segundo discurso de posse com uma tarja negra no chapéu – ainda o luto por Willie.

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