An Rong Xu/The New York Times
An Rong Xu/The New York Times

Madeline Miller faz releitura da mitologia grega em 'Circe'

'Se todas são contadas por homens, as mulheres não fazem parte da história', diz a autora, que reconta mitos pela perspectiva de Circe, a bruxa da Odisseia

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2019 | 16h00

Perspectiva é a palavra-chave para se compreender a obra da escritora americana Madeline Miller. Em A Canção de Aquiles, ela reconstitui a Ilíada, de Homero, sob a ótica do amor entre Aquiles e Pátroclo, relação apontada até por Platão. No seu novo romance, Circe, a autora promove uma releitura da feiticeira da Odisseia, tomando como base não só o épico de Homero, mas obras de Ovídio, Virgílio e histórias espalhadas pela mitologia grega. 

Circe, filha de Hélio, o Sol, é renegada por sua família por ser uma divindade menor. Ainda jovem, ao conversar com Prometeu – às vésperas de sua punição por ceder o fogo à humanidade –, Circe sente-se inexplicavelmente atraída pelos mortais. Rejeitada pelos deuses, apaixona-se por um humano, Glauco, e o torna imortal. Ele, porém, trai sua confiança ao se casar com a ninfa Cila, que Circe, por vingança, transforma em um monstro – episódio retirado das Metamorfoses de Ovídio. Aos poucos, Ela vai descobrindo seus feitiços, um novo tipo de poder temido por titãs e olimpianos, e é banida para uma ilha deserta, onde seria procurada em diferentes momentos por personages mitológicos como o zombeteiro Hermes, o inventivo Dédalo e o heroico Ulisses/Odisseu.

Miller seleciona alguns mitos em detrimento de outros e costura-os em uma narrativa coesa de modo a construir uma personalidade consistente para Circe, justificando alguns de seus atos mais cruéis, como seu péssimo hábito de transformar marinheiros em porcos, bem descrito no 10º canto da Odisseia. É interessante comparar ambas as versões de como Ulisses conheceu Circe, notando as diferenças entre os pontos de vista dos personagens: “Muitos, muitos anos depois eu ouviria uma canção sobre nosso primeiro encontro (...) Eu não fiquei surpresa com o retrato que a canção pintava de mim: a bruxa orgulhosa desfeita diante da espada do herói, ajoelhando-se e pedindo misericórdia. Humilhar mulheres parece ser um dos passatempos preferidos dos poetas.”

O livro, indicado ao Women’s Prize for Fiction 2019, confere profundidade a Circe, desmistificando sua tirania – tão arraigada na cultura ocidental que a bruxa é uma das vilãs da Mulher Maravilha. O esforço de Miller assemelha-se à Penelopíade, em que Margaret Atwood relata a Odisseia do ponto de vista da esposa de Ulisses, que também se torna uma figura central em Circe, quando a autora revisita a Telegonia, épico perdido que completaria a trilogia homérica, narrando a vida do filho de Ulisses com Circe. Leia abaixo trechos selecionados da entrevista de Madeline Miller ao Aliás:

Por que escolher Circe entre tantas personagens?

Eu sempre fui fascinada por Circe, porque ela era essa personagem feminina forte, que podia transformar homens em porcos, mas nós nunca temos acesso à perspectiva dela. Tudo é contado do ponto de vista de Ulisses. No entanto, ela é uma personagem bastante tridimensional, então eu quis colocá-la no foco da história. Quem é essa feiticeira? Qual é a sua motivação? 

Você criou as motivações de Circe do zero ou coletou de outras fontes da mitologia?

Meu objetivo sempre é criar um arco psicológico para os personagens, então eu usei o máximo possível de material original da mitologia grega, como que recolhendo pistas. Há um trecho na Odisseia em que Homero nos diz que Circe é uma deusa, mas sempre fala dela como uma humana. Então eu percebi que poderia explorar seu conflito entre divindade e humanidade, sua empatia pelos mortais. Mas na maior parte do tempo eu tive de pensar psicologicamente: por que uma pessoa como ela faria algo tão extremo?

Várias narrativas com Circe acabaram não sendo contempladas. Como foi o processo de seleção?

Escolhi basicamente as histórias mais relevantes e, de alguma forma, reveladoras. O triângulo amoroso dela com Glauco e Cila, por exemplo. Eu quis incluir esse episódio porque ele me permitiria investir contra um retrato bidimensional de sua personalidade. Em Ovídio, ela basicamente transforma Cila em um monstro por ciúme, não há muita profundidade ali. Eu quis dar a ela mais razões para fazer o que fez, mas também quis fazê-la conviver com o remorso. Há o mito de seu encontro com Medeia. Elas são as duas principais bruxas da literatura clássica, então eu quis relatar essa cena. E, é claro, sua história com Penélope, que teria dado origem ao épico perdido Telegonia. Penélope é outra das personagens femininas mais interessantes da literatura clássica, mas também bastante rasa, então eu quis dar a ela uma personalidade mais complexa. A seleção dependeu dos personagens que eu acreditava que enriqueceriam a jornada de Circe. 

Quais são as maiores dificuldades de trabalhar sobre um texto original tão conhecido?

Há desafios e recompensas. Eu gosto de me manter fiel a Homero, porque gosto de estar em diálogo com sua obra. Isso significa que a essência deve ser mantidas. Mas esse tipo de restrição te obriga a ser ainda mais criativa, buscar os motivos por trás das ações. E a mitologia grega, como qualquer outra, não é consistente, há divergências entre versões, o que abre espaço para criar.

Qual é a importância de trazer esse ponto de vista feminino dos clássicos para o leitor moderno?

Há um romance de Chimamanda Ngozi Adichie no qual ela fala do perigo de se adotar uma perspectiva única e como, se só existe uma narrativa, ela é automaticamente tomada como única verdade. Então se todas são contadas por homens, as mulheres não fazem parte da história. É importante ouvir outras vozes, de homens, de gays, de pessoas das margens da sociedade. 

Por que os dramas da antiguidade continuam tendo apelo para o público atual?

Os antigos tinham um ditado para isso: nada de novo sob o sol. A mitologia grega fala muito sobre a natureza humana e teve grande influência na literatura, porque abordava temas universais: ter saudade de casa, se preocupar com sua reputação, deixar alguém que se ama, lutar uma guerra. Amor, ódio, ganância, desejo de vingança. A literatura contemporânea continua retornando para esses mitos porque eles falam de emoções humanas primitivas de uma maneira poderosa. 

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