Madonna, a filantropa

Cantora desembarcou cheia de mistérios no Brasil e faturou US$ 7 milhões de Eike Batista para projeto com crianças carentes

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2009 | 02h59

Madonna segurou na mão de Jesus e foi. Fez sua aparição no Rio de Janeiro na segunda-feira, uma manhã de chuva. Chegou misteriosa, depois de uma turnê que rendeu US$ 10 milhões, duas vezes mais do que o U2 levou para casa em 2006. Desta vez, no entanto, a deusa de hits como "Like a Virgin" veio encarnada na pele de filantropa. Seguindo o caminho de ícones da caridade mundial como Bono, Angelina Jolie, Bob Geldof e Sting, Madonna decidiu estender as bênçãos de seu sucesso à terra do namorado Jesus Luz, um carioca de 21 anos, 1,82 metro, evangélico.

A procissão pop zanzou de lá para cá. Madonna voou no jatinho do empresário Eike Batista, foi salva do apagão de terça-feira pelos geradores do restaurante Fasano, ilustrou-se na Casa do Saber em São Paulo na quarta, jantou com o governador Sérgio Cabral, o prefeito Eduardo Paes e autoridades como Luciano Huck e Angélica na quinta, visitou o morro Santa Marta na sexta. Até o final da semana, no entanto, pairava a pergunta, como um mistério de Fátima: o que, diabos, Madonna veio fazer no Brasil?

Se veio oferecer parte de seu cachê estelar para uma boa causa ou disponibilizar seu prestígio como garota propaganda, ninguém sabia. A hipótese de que viera passar o pires de sua ONG Spirituality/Success for Kids, devotada às crianças do Malauí, entre empresários do país que decola no mundo, segundo a capa da revista britânica The Economist, era igualmente plausível. O fato é que ninguém no bem-informado Terceiro Setor brasileiro sabia ao certo. Nem Eike, o cicerone da cantora, escolhido talvez por ter sido incluído na lista de homens mais ricos do mundo da revista Forbes. "Se as obras assistenciais forem para o Brasil, ótimo. Se não, gentilmente vou agradecer a visita", declarou ele, nos jornais do dia 11. O dono do Grupo EBX, no entanto, terminaria a semana prometendo uma doação de US$ 7 milhões às obras da cantora.

Se milagre não é, o gesto pode ser considerado uma exceção num país que ainda engatinha no caminho da caridade - ou no investimento social privado, para ser mais preciso. Para o economista Luiz Carlos Merege, criador, em 1994, do Centro de Estudos do Terceiro Setor, da Fundação Getúlio Vargas, ainda não há no Brasil uma cultura da filantropia. "Em seu livro Da Democracia na América (1835), Alexis de Tocqueville já mostrava a grande força que essa atividade tinha na sociedade americana", diz o professor. Para se fazer uma breve comparação, o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE) - entidade que reúne 122 organizações filantrópicas nacionais - investiu em 2007 R$ 1,15 bilhão em projetos sociais. Um ano antes, nos EUA, o megainvestidor Warren Buffet pingou sozinho na conta da fundação Bill & Melinda Gates, mantida pelo criador da Microsoft, a miraculosa quantia de US$ 37,1 bi.

Por que tal distância entre o céu e a terra? Seriam os empresários deles mais bonzinhos que os nossos? Nem tanto, levando-se em conta que Deus mora nos detalhes do ambiente jurídico e fiscal dos dois países. Mais especificamente, nas leis de herança.

"Se Bill Gates deixar para o filho toda a sua fortuna, irá pagar quase 50% de imposto de renda. Se abrir uma fundação beneficente, paga zero", explica o secretário-geral da GIFE, o jornalista e cientista social Fernando Rossetti. "No Brasil, paga-se 3%, praticamente o mesmo que se recolhe ao abrir uma fundação beneficente. Compensa menos." E se é claro que as fortunas aplicadas nessas instituições nos EUA só podem ser destinadas a atividades sem fins lucrativos, um "mecenas" americano mantém o prestígio e o privilégio de administrar seu santo dinheirinho.

Outra diferença significativa diz respeito ao destino dos recursos beneficentes. Nossa legislação também é imperfeita nisso, na opinião do sociólogo gaúcho Cândido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e um dos fundadores do Fórum Social Mundial. "Nos EUA, a fundação é obrigada a doar o dinheiro para outros executarem projetos. Aqui, não. E as empresas tendem a criar seus próprios projetos." Um exemplo, diz Cândido, é a Fundação Bradesco, que aplica toda a sua verba em uma rede própria de escolas, entre outros projetos - num total de R$ 200 milhões ao ano, segundo os cálculos do GIFE. Não que isso não seja meritório. Mas o espraiamento desse investimento social acaba sendo menor.

Mais decisiva, porém, é a questão da qualidade dos projetos beneficentes. Em busca da eficácia desse investimento - e do valor que ele agrega em termos de imagem para a empresa ou a personalidade que o faz -, é bastante comum na filantropia a concentração de esforços em projetos mais restritos. Como acrescenta o diretor do Ibase, "uma coisa é Madonna se dedicar a um projeto que influa no sistema de creche e escola do Rio. Outra, é criar uma ilha da fantasia de um projeto apenas para ser mostrado. Pode até ser positivo, mas atende mais ao ego de quem o faz".

Nesses casos, o primeiro mandamento para evitar o pecado da vaidade, é contar com uma boa assessoria local. Quando o cantor Sting veio ao Brasil decidido a ajudar o cacique Raoni e os índios caiapó, em 1989, firmou parceria com especialistas brasileiros, entre eles a antropóloga Betty Mindlin, que ajudou a ONG de Sting, Rain Forest Fondation, a aplicar seu dinheiro. Betty fez desde viagens ao Alto Xingu para pesquisas de campo até reuniões na residência do cantor em Londres. "No final, o papel do Sting foi fundamental para a demarcação das terras dos caiapós. O País deveria agradecer a ele."

Que dádiva Madonna pretende trazer ao Brasil, ainda não se sabe. Durante o jantar, na quinta-feira, ela exibiu um vídeo e falou aos convidados. Trata-se de um projeto educacional, com crianças carentes, focado no reforço de sua auto-estima. O prefeito saiu anunciando que fechou um concerto da diva para o réveillon de 2010. O governador quer garantir sua presença na abertura das Olimpíadas de 2016. A filantropa foi convincente ao menos para Eike Batista, tido como neófito na área da responsabilidade social e ambiental, que garantiu os US$ 7 milhões após a sobremesa. A cantora deu fé e deverá casar mais US$ 1 milhão. Deus abençoe.

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