Caitlin Ochs/The New York Times
Caitlin Ochs/The New York Times

'Madrigal Opera', de Philip Glass, transparente e opaca

Ópera de uma hora do mestre do minimalismo não tem enredo, personagens ou libreto

Corinna da Fonseca-Wolleim, The New York Times

13 Maio 2017 | 16h00

Uma daquelas velhas piadas sobre o Bloco Oriental sobre uma fictícia Radio Yerevan, um ouvinte propunha esta questão: “estou com uma receita de pato com laranja, mas só tenho porco e repolho como ingredientes. Com isto que tenho consigo fazer esse prato?”

“Em princípio sim”, era a resposta. “Só que o gosto será um pouco diferente.”

Madrigal Opera, de Philip Glass, com uma rara performance na National Swadust, no sábado, pode ter nascido de uma dúvida similar. A obra com duração de uma hora não tem enredo, personagens ou libreto, mas reúne seis cantores, um violino e uma viola. Com estes elementos, ainda assim um compositor conseguiria criar uma ópera?

Em princípio sim. Quanto a se no final será uma ópera, é uma questão em aberto.

Que parece ser mais fácil responder. Na leve interpretação do violinista Johnny Gandelsman, do violista William Frampton e do Choral Cameleon, a música se desenvolve numa beleza contemplativa, com a justaposição de cada um dos instrumentos e a descontração das vozes, criando a tensão apenas necessária para reter o interesse.

A música constitui apenas de uma partitura pontilhista de coral sobre arpejos ondulantes tocados pelo violino na primeira parte do concerto, depois pela viola. Uma sucessão de temas repetidos se agitam num torvelinho para depois se aquietarem em novas configurações harmônicas, como o murmúrio de estorninhos. Os cantores entoam os nomes das notas do solfejo, criando um sistema perfeitamente fechado de meio e mensagem. Você poderia dizer que o texto determina a música, ou que cada nota dita a sílaba que a verbalizará, e os dois argumentos são igualmente verdadeiros. Sendo assim, a obra é completamente transparente e não revela nada.

Philip Glass, que escreveu Madrigal Opera em 1979 para o Holland Festival, explica no seu website que gostaria de criar uma obra de teatro musical cujo significado específico emanaria do trabalho de um diretor de palco. No National Swadust esse papel coube a R. B. Schlather, que respondeu pela remoção de um outro elemento tradicionalmente vital da ópera: o proscênio.

Dentro do espaço de performance, os cantores sentavam-se em cadeiras espalhadas em torno e no meio da plateia. Do balcão em que estava sentada somente a leve inclinação rítmica de um torso ou cabeça sugeria um cantor em ação. A estrutura da obra sugeria que, se havia una unidade de som e conteúdo, a divisão entre artista e público também não era clara.

Outra invenção do diretor foi a projeção em uma parede inteira do espaço de uma cena de rua a partir de uma câmera ao vivo, instalada no teto do prédio que capturava os últimos raios de luz do dia. Essa cena ao ar livre era a única fonte de luz da sala, de modo que à medida que a noite avançava o ambiente também escurecia.

Foi uma maneira agradável de eliminar mais uma barreira entre os espaços interno e externo. E reforçou a sensação da peça como um loop perfeitamente fechado, um espetáculo não preocupado en enviar uma mensagem e alheio a qualquer tentativa humana de, apesar de tudo, extrair dali um significado claro como um pôr de sol. Mas embora tenha ficado feliz em dedicar uma hora do meu tempo à sua contemplação, a conclusão lógica após o último acorde, parecia ser conter todos os aplausos. /Tradução de Terezinha Martino 

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