Francisco Alves
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Maior intérprete lírica brasileira, Bidu Sayão ganha biografia

Livro detalha vida da mulher descoberta por Toscanini, que gravou Villa-Lobos e foi homenageada pela Beija-Flor

João Marcos Coelho*, Especial para o Estado

23 de novembro de 2019 | 16h00

A soprano carioca Bidu Sayão (1902-1999), descoberta pelo maestro Arturo Toscanini na Itália quando ainda dirigia o Scala de Milão e depois por ele introduzida no Metropolitan Opera House de Nova York, onde reinou soberana em 242 performances líricas em doze papéis entre 1937 e 1952, tinha três paixões: a música, as joias e os casacos de pele. Não necessariamente nesta ordem. As duas últimas lhe proporcionaram os maiores prazeres mas também sérios embaraços. No aeroporto de Istambul, quando embarcava para Paris na década de 1920, a então promissora e jovem soprano coloratura candidata a diva foi acusada de contrabando devido à espantosa quantidade de joias e casacos de pele em sua bagagem. A saída à brasileira foi cantar para eles a cappella, ou seja, sem acompanhamento. Foi imediatamente ovacionada e absolvida. 

Em seu período de diva do Met nova-iorquino ao lado do tenor sueco Jussi Bjorling (1911-1960), Bidu chegou a rivalizar em popularidade com as estrelas de Hollywood. Ditava moda. “Um grampo ou broche de diamantes fica muito chamativo em um vestido esportivo”, ensinava, “mas seu brilho realça um vestido de noite. O exato oposto é verdade para bijuterias”. Mantinha sua coleção de joias num cofre de banco em Manhattan. Usou sua joia máxima, um colar de diamantes avaliado em 200 mil dólares, em foto ao lado de Judy Garland. Quanto aos casacos de pele, então na moda e hoje justificadamente execrados, corria nas colunas de fofocas que Bidú e a princesa de Windsor eram duas felizardas possuidoras de um dos únicos doze casacos de pele de raposa de cor platina do planeta. Um jornalista de Washington a descreveu assim: “É uma pessoa encantadora, morena, pequena e coberta de diamantes, mas há joias em sua voz que se equiparam às que ela usa; é leve, brilhante, pura e luminosa”.

Tudo isso é contado com detalhes no recém-lançado livro Bidu: Paixão e Determinação, de Denis Allan Daniel. Fã confesso, Daniel esclarece vários pontos obscuros relacionados com Bidu. Seu nascimento, por exemplo, que ela dizia ser 1904, é agora definitivamente fixado: Balduína de Oliveira Sayão detestava seu nome de batismo e adotou seu apelido de família, virou Bidu Sayão. E nasceu em 11 de maio de 1902, na Praça Tiradentes, número 36, Rio de Janeiro. 

Daniel reclama muito que o governo e a opinião pública brasileiros sempre a acusaram de antipatriótica, “quando dava tantos sinais óbvios de que amava ser brasileira”. Destaca que ela jamais teve qualquer ajuda financeira do governo brasileiro. Numa badalada apresentação na Casa Branca, em 1938, para os Roosevelt, o presidente ofereceu-lhe a cidadania norte-americana, que ela recusou dizendo “no Brasil eu nasci e no Brasil morrerei”. E se confessa “surpreso ao descobrir que Bidu havia se naturalizado norte-americana”. A notícia só veio à tona, em 1979, por causa de uma altercação dela com “um funcionário do Consulado brasileiro em Nova York, quando cuidava de seus documentos para viajar ao Brasil. O funcionário ignorou sua cidadania americana e insistira em que ela obtivesse um passaporte brasileiro para a viagem ao Brasil”. Detalhe: ela morreu em 13 de março de 1999, em sua casa no Maine, nos EUA.

Em todo caso, nada mais brasileiro do que sua gravação mais famosa, das Bachianas Brasileiras no. 5, de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), com o compositor na regência. Ela, no esplendor de seus 45 anos, Villa com 60. Além da música, rolou um tórrido romance entre eles. Compreensível. Bidu casou-se duas vezes, aparentemente de olho na recheada carteira deles: em 1927 com o empresário picareta Walter Mocchi, 34 anos mais velho, então dominando a vida lírica carioca e paulistana; e em 1947 com o barítono Giuseppe “Peppino” Danise, 21 anos sênior. Natural, portanto, que numa foto autografada Villa a chame de “meu violino humano”. Segundo Daniel, “o disco conseguiu ser o mais vendido nos EUA por dois anos consecutivos”. Tornou-se tão popular “que existe uma foto de Bidu usando um chapéu [sua fabulosa coleção de chapéus rivalizava com a de Carmen Miranda] muito original, feito com um disco de vinil, tendo sobre o mesmo um belo arranjo de flores”, que “ela usou num desfile de Páscoa na Quinta Avenida”. Além das Bachianas 5, você pode ouvir no YouTube um registro do poema sinfônico A Floresta do Amazonas, de temática bem atual, em que Bidu brilha como nunca, ao lado de Villa. 

Desde os estudos e as primeiras apresentações, ainda no Rio de Janeiro, a crítica torceu o nariz para sua “voz pequena”, um bullying que a acompanhou a vida inteira. Ora, as sopranos coloraturas ligeiras são ideais para o repertório do “bel canto” lotado com mil e um ornamentos, que Bidu chamava em português mesmo de “belo canto”. Ou seja, sua voz tinha incrível agilidade afinação precisa e agudos miraculosos. Ideal para papéis como a Gilda do Rigoletto (impressionante sua performance de Caro Nome, de 1938) e a Violetta de La Traviata, de Verdi, além dos cavalos de batalha dos campeões do bel canto Bellini e Donizetti. Mas foi na ópera francesa que ela mais brilhou (em sua casa, no Rio, falava-se francês no dia a dia), como Julieta em Romeu e Julieta de Gounod e Mélisande em Pélleas et Mélisande, de Claude Debussy. Na seletíssima série histórica dos melhores registros do Met, Bidu comparece no papel-título da Manon de Massenet, ao lado de Bjorling. 

O pontapé inicial de sua carreira internacional aconteceu na Itália, por obra e graça de Il Duce. Sim, Mussolini. Ele ordenou que Bidu encarnasse Norina, papel principal de Don Pasquale de Donizetti. “Os organizadores”, diz Daniel, “se recusaram a aceitar, pois havia sido acordado que apenas artistas italianos poderiam participar da ópera (...) Mussolini emitiu um ultimato afirmando que o evento seria cancelado caso sua ordem não fosse acatada”. Grazie, Duce.

No auge, seu apelido era “rouxinol”. Aos 92 anos, na coletiva de imprensa logo depois de desfilar na Marquês de Sapucaí como homenageada da Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis, interrompeu Wilson Cunha que pedia silêncio para a “Senhora Bidu” poder falar: “Eu não sou ‘a senhora Bidu’, eu sou um beija-flor”. Foi o único e muito significativo tributo que recebeu em vida no Brasil.

*JOÃO MARCOS COELHO É CRÍTICO MUSICAL E AUTOR DE ‘PENSANDO AS MÚSICAS NO SÉCULO 21’ (PERSPECTIVA)

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