Mark Lennihan/AP
Mark Lennihan/AP

Maior tabloide alternativo de NY, 'The Village Voice' encerra circulação

Conteúdo do tabloide será preservado na internet

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2018 | 16h00

Na última sexta-feira de agosto, a voz do Village calou-se para sempre. Às vésperas de completar 63 anos, o tabloide alternativo The Village Voice teve a circulação interrompida por Peter D. Barney, seu publisher havia três anos. Nem mais de graça, como acontecia desde 1985, o jornal será oferecido nas ruas de Manhattan, naquelas caixas de plástico vermelho que há tempos haviam sido incorporadas ao visual urbano da ilha. 

Foi, como o incêndio do nosso Museu Nacional, dois dias depois, uma morte anunciada – ou artificialmente adiada, como queiram. Seu derradeiro editor-chefe, o terceiro nos últimos três anos, demitiu-se em maio e seu cargo permaneceu vago até o fim. Os gatos pingados que sobraram na Redação cuidarão, exclusivamente, de digitalizar a coleção do semanário para mumificá-lo na internet. 

“Foi o mínimo que eu podia fazer por esse patrimônio jornalístico e cultural de Nova York”, explicou-se Barney, herdeiro de uma fortuna montada no comércio varejista, apaixonado pelo semanário desde a adolescência. 

A crise geral da imprensa, intensificada pelo inexorável avanço das mídias eletrônicas e, no caso específico do Voice, pela gentrificação do Greenwich Village e arredores, aceleraram o processo de decadência. Não havia mais lugar para uma publicação sui generis como o Voice, o mais bem-sucedido nanico da imprensa mundial, lido até no exterior. Fui assinante de 1967 ao final da década seguinte, já então com a ajuda de Paulo Francis, que todas as quartas-feiras encaixava meu exemplar no malote do Pasquim. 

Era, no seu apogeu, um tabloide robusto, com muita coisa para ler, farto em serviço, cobertura cultural, publicidade varejista e classificados para quem queria alugar apartamentos mais baratos em Nova York, preferencialmente no Village, quando aquele pedaço de Manhattan ainda parecia um feudo de boêmios, gays, hippies, artistas e escritores que se orgulhavam de viver à margem do establishment e na pindaíba. 

Depois que os hippies foram “expulsos” pelos yuppies e os preços dos aluguéis ficaram impagáveis, o espírito original do Voice volatilizou-se. Suas grandes estrelas e revelações ou morreram ou foram cantar em outra freguesia. Hilton Hals, por exemplo, acabou na New Yorker. Colson Whitehead virou escritor, premiado. Poderia relacionar duas dezenas mais de exemplos. 

Apeguei-me ao Voice por seu crítico de cinema, Andrew Sarris, célebre por ter divulgado na América a Teoria do Autor lançada pela turma da revista francesa Cahiers du Cinéma. Seu padrinho no jornal, Jonas Mekas, cobria o cinema experimental; Sarris, o circuito comercial. Foi Mekas quem promoveu e forçou o lançamento de Shadows, de John Cassavetes, e outros clássicos do cinema underground nova-iorquino. Sarris, por sua vez, abriu espaço para as feministas Molly Haskell e Karen Durbin e o modernista J. Hoberman.

Não peguei a fugaz coluna de Norman Mailer, por sinal um dos fundadores do Voice, em 1955, com Dan Wolf e Edwin Fancher (o único ainda vivo, 95 anos), em parte reproduzida em Advertisements For Myself. Fancher arrumava a grana e notabilizou-se pela criação do prêmio Obie de teatro, o Tony das peças Off-Broadway, patrocinado pelo jornal a partir de 1956. 

Wolf cuidava da edição. Dava total liberdade aos colaboradores, deixando atônitos os leitores com a multiplicidade de pontos de vistas veiculados pelo jornal. Mailer chegou a espinafrá-lo em sua coluna. Nada aconteceu. Como não invejar uma publicação assim?

No início era feioso, amadorístico. Wolf abriu as páginas para a prole de seus amigos jornalistas (Sally e Mike Kempton, filhos do grande repórter e analista político Murray Kempton) e Mike Macdonald (filho de Dwight), que trabalhavam de graça. Durante oito anos, Nat Hentoff escreveu sua excelente coluna de jazz a leite de pato. Por ser uma das estrelas da Redação, passou a ganhar US$ 10 por semana – e, finalmente, US$ 90, quando Wolf vendeu o jornal, em 1970. 

Àquela altura, o Voice já se consolidara como a voz de toda a ilha, cobrindo-a exaustivamente, revelando-lhe os podres e as singularidades (Wayne Barrett, 40 anos repórter investigativo do jornal, foi o primeiro a questionar o “empreendedorismo” imobiliário de Donald Trump), lançando críticos de arte atentos a todas as vanguardas e à contracultura. Richard Goldstein tornou-se o primeiro crítico de rock na imprensa mundial em 1966, um ano antes de a revista Rolling Stone chegar às bancas. Em seu rastro surgiram colunas e reportagens sobre punk, rap, hip-hop e o que mais fosse novidade na cena musical e comportamental da cidade.

Também foi por meio de suas páginas que a maioria dos americanos tomou conhecimento do descarado stand up Lenny Bruce, de Andy Warhol, dos direitos civis, do movimento feminista, do orgulho gay, dos Panteras Negras, do genial cartunista, chargista e dramaturgo Jules Feiffer (premiado com o Pulitzer em 1986), do crítico de jazz Gary Giddins, dos críticos de teatro Michael Feingold e Erika Munk, do crítico de imprensa e falcatruas políticas Alexander Cockburn, cuja coluna Press Clips eu devorava salivando e tentei emular na página 3 do Pasquim

O Voice teve vários donos entre Wolf-Fancher e Peter Barney, inclusive o ogro australiano Rupert Murdoch, que arcou com as despesas durante nove anos, mas manteve prudente distância do jornal após um levante da redação contra a demissão da editora Marianne Partridge. 

Com Clay Felker, que se apossou do semanário em 1974, o Voice ganhou um banho de loja. Totalmente rediagramado por Milton Glaser, tornou-se também, a meu ver, o jornal mais bonito do mundo.

R.I.P., Village Voice.

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