Mais canções contra eles virão

Se nada muda na Brasília dos conchavos, nada mau retomar o hábito de fazer música de protesto

Dinho Ouro Preto, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2013 | 19h59

Eu cresci em Brasília. Passei parte da minha infância e adolescência lá. Quando criança, a cidade parecia uma dádiva divina. Estou me referindo ao Plano Piloto, é claro. As cidades-satélites não eram nada idílicas. Mas a parte que o resto do País conhece de cartões postais era uma delícia. Passávamos o dia inteiro na rua. Acho que se alguém me perguntasse eu diria que amava o Niemeyer e o Lúcio Costa. A cidade era um parque, e não havia violência urbana. Eu saia de casa de manhã, acabava almoçando na casa de amigos e só reaparecia em casa para jantar.

A música entrou na minha vida ainda nessa idade. Aos 11 anos conheci o Herbert Vianna, o Bi Ribeiro e também o Dado Villalobos. Crianças, não tínhamos a menor ideia de que o País vivia seus anos de chumbo. Também não nos passava pela cabeça que um dia nos tornaríamos músicos profissionais. Naquele momento só nos interessava jogar bola e andar de skate.Esse paraíso, para nossa surpresa, foi se evaporando na medida em que nos tornávamos adolescentes. Aos 16 conheci outro grupo, que se autodenominava A Turma da Colina. Foi então que conheci o Renato Russo, e o Fê e o Flávio Lemos, que tocam comigo até hoje. A cidade era a mesma, mas de uma hora para outra tudo mudou. Ficamos repentinamente mais sérios. Suponho que a juventude de todos seja assim. Resumindo, nossa vida adquiriu tons mais sombrios. Os livros eram do Aldous Huxley e do George Orwell, os filmes, europeus, e a trilha sonora, punk rock.

A música sempre foi o fio condutor da minha vida. Mas quando conheci os punks do Cerrado passei a ter a sensação, ou talvez a ilusão, de que por meio dela poderíamos contribuir para mudar o País. Éramos de uma pretensão descabida, nos achávamos perigosamente subversivos. As letras das bandas eram como nós, profundamente politizadas. E, embora naquela época eu ainda fosse só espectador, participava dos debates estudantis secundaristas com fervor revolucionário.

Mais tarde, quando entrei para o Capital Inicial, isso se manteve. Escrevemos ao longo dos anos várias músicas que de alguma forma abordam temas sociais ou políticos. No nosso mais recente disco, lançado em dezembro, procuramos resgatar a sonoridade do nosso começo, e fizemos um disco deliberadamente cru. Uma das faixas se chama Saquear Brasília. Ela foi escrita durante o julgamento do mensalão, mas minha intenção não foi dirigi-la ao PT, e sim ao que eu percebo como um dos nossos maiores problemas: o fisiologismo, que transforma o Congresso num balcão de negócios. Lá, selam-se acordos entre "cavalheiros" em nome da estabilidade que acabam sendo um desastre para nosso País. Eles descaracterizaram tanto o governo do Lula e do FHC quanto agora o da Dilma. Evocando princípios republicanos, acabaram gerando governos disfuncionais. O Brasil precisa se livrar desse vício. Entretanto, nós, cidadãos, assistimos de camarote a mais um acerto lavrado entre quatro paredes, com direito a voto secreto, ser levado adiante; mesmo debaixo de fogo cerrado.

Preciso agora fazer uma pequena nota de protesto em nome dos brasilienses. Sempre nos incomodou o fato de que os políticos, na sua maioria eleitos em outros pontos do País, sujem o nome da nossa cidade. Que façam com que ela, para muitos brasileiros, seja automaticamente associada com o que há de pior no Brasil. Esses personagens merecem mais do que uma música: merecem discos e mais discos. Pois eu prometo: mais canções contra eles virão.

E finalmente chego aonde eu queria: o espetáculo humilhante que todos testemunhamos nos últimos dias. Ao longo da semana muito foi dito nos maiores jornais e na blogosfera a respeito da posse dos novos presidentes do Senado e da Câmara. Todos os articulistas que conheço esmiuçaram o assunto com uma clareza que confesso invejar. No entanto, talvez eu tenha algo para contribuir com o debate. Tenho contato com multidões toda semana. É um privilégio do qual procuro me aproveitar. Costumo falar com frequência sobre política, e nos shows faço uma pergunta recorrente. É algo simples, mas me parece esclarecedor. Eu pergunto à plateia se ela se sente representada pelos nossos congressistas. E, invariavelmente, a resposta é uma imensa vaia.

É claro que um dado como esse não tem nenhum valor estatístico real. Fora, possivelmente, que os fãs da nossa banda não gostam de políticos. Entretanto, pesquisas reais e confiáveis apontam para a mesma direção. Entre as instituições brasileiras, a percebida pelos cidadãos como a mais confiável é o Corpo de Bombeiros. No extremo oposto, o Congresso. Confrontado com esse resultado, não consigo evitar uma dose de perplexidade - afinal, aquelas pessoas foram eleitas. Ora, se a vontade popular as colocou onde estão, por que tamanha rejeição?

A primeira resposta que me vem à cabeça é que existe uma espécie de metamorfose entre o sujeito candidato e o sujeito empossado. Logo, a resposta seria que os brasileiros não enxergam em Brasília as pessoas nas quais votaram. Por exemplo, a ética à qual o Renan Calheiros apaixonadamente se declarou diz respeito ao rigoroso e confiável cumprimento de acordos e conchavos de seu partido. Só isso. Mas suspeito que essa resposta seja superficial, ou no mínimo incompleta.

Há um fosso entre nós e o Congresso. E não é só no sentido figurado. Parece piada, mas há um fosso real em Brasília. Ele é eufemisticamente chamado de "espelho d'água" e foi construído durante a gestão do ACM na presidência do Senado. Mas pontes talvez pudessem ser construídas para que não deixássemos nossos nobres colegas com a sensação de estarem ilhados, longe do resto do País. Aliás, essa sensação de isolamento alimenta a indiferença com a qual os excelentíssimos nos tratam. É a isso que me refiro quando canto "Vamos saquear Brasília!". Precisamos colar nas excelências, tirar delas essa confortável sensação de isolamento.

Todos nós vimos mais esse constrangimento (a posse da dupla dinâmica) a caminho. Foi um acidente ou acinte esperando acontecer, fartamente noticiado. O estrago que a posse dessas duas figuras causaria à já quase irreparável imagem do Congresso foi analisado e debatido até por membros da coalizão que sustenta o governo. E, no entanto, nada. Foi-se em frente - e que o País engula mais esse sapo.

Logo, a pergunta que realmente passa a ser relevante é: como evitar que nos tratem assim? Sim, há a Ficha Limpa. Mas como esses senhores estão lá, apesar dessa lei? Suponho, de boa fé, que seja por não terem sido condenados ainda. Só pode ser. Ambos são políticos profissionais e são congressistas há décadas; por isso teriam o privilégio de serem julgados pelo Supremo Tribunal. Mas até a eleição passada, aparentemente, não havia nada que os impedisse de concorrer, e todos nós somos inocentes até provados culpados. Ok, ilustríssimos, mas isso não quer dizer que não pairem nuvens carregadas de suspeitas sobre a dupla dinâmica, e é sempre bom lembrar da mulher de César. Checar a ficha corrida dos dois seria diversão garantida se não se tratasse da terceira e quarta pessoa na linha sucessória. É bom rezarmos pela saúde da Dilma e do Temer.

Então não há saída? Fatos como esse seriam inerentes à democracia representativa, o pior sistema já inventado? Acho que não. Não sou sociólogo nem cientista político, mas acredito que o sistema possa ser aperfeiçoado, para se tornar mais representativo de fato. Digo "de fato" porque a maioria das pessoas nem sequer se lembra de quem votou nas últimas eleições. É claro que nada se resolve num passe de mágica, e continua sendo um mistério como certas figuras, como Maluf e Tiririca, entre outros, conseguem se eleger. Mas, caso o congressista eleito representasse determinado bairro ou região de uma cidade, os eleitores saberiam quem ele é, o que fez, onde mora, o que prometeu fazer e, se insatisfeitos com o resultado, votariam em outro na eleição seguinte.

Os efeitos seriam imensos, já que as satisfações teriam que ser dadas a um grupo menor e, portanto, mais mobilizado e consciente de eleitores. Assim não haveria palácio, fosso ou conchavo que os separasse da opinião pública, essa pequena marola para a qual Renan, Alves e seus amigos estão se lixando.

* Cantor, compositor e autor da música "Saquear Brasília", faixa do novo álbum da banda Capital Inicial.

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