José Luis da Conceição/AE
José Luis da Conceição/AE

Mais circo do que pão

Centrais sindicais promovem milionárias festas de multidões, o que só se faz quando tudo vai bem

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2009 | 22h45

Na mesma semana em que o Ipea divulga a péssima notícia de que a crise financeira internacional já alcança intensamente o nível de emprego formal no Brasil, as centrais sindicais anunciam milionárias festas de multidões, do tipo que só se faz quando as coisas vão muito bem. De fato, as coisas vão muito mal para os trabalhadores. A perda de emprego foi maior no interior do que nas regiões metropolitanas. Nas últimas décadas, a indústria escapou das regiões operárias densamente politizadas e intensamente reivindicativas e foi se refugiar no interior em busca de mão-de-obra mais barata e mais dócil, tributos menores ou benefícios fiscais compensatórios, preços inferiores dos terrenos e, portanto, menor renda fundiária a ser paga pelas empresas. Recursos de intensificação da taxa de lucro, sem desenvolvimento econômico real e sem nenhum desenvolvimento social.

Há anos, e não só agora na crise, o ganho de muitas empresas é consequência da manipulação lucrativa das anomalias do mercado, da produção e do trabalho. Tais artifícios se manifestaram também nas áreas de permanência geográfica das empresas, com a reestruturação produtiva, a precarização do trabalho e a terceirização, o que, em última instância, acaba transferindo para o próprio trabalhador o ônus da intensificação da acumulação do capital. Em tudo, um cenário de imprevidência e de despreocupação social das empresas mesmo quando há preocupação com as condições de vida de seus próprios empregados. O desemprego resultante da crise de agora deriva muito mais de uma economia cronicamente à beira do abismo, no perigoso limite da racionalidade econômica. Uma economia divorciada da política e uma política que, quando se interessou pela economia, o fez, como neste governo, para referendar, estimular e subsidiar suas irracionalidades.

É desta mesma semana outro estudo sobre o desemprego, o da Fundação Seade-Dieese. A base geográfica de referência é aqui diferente da do Ipea, pois se restringe a seis regiões metropolitanas. Além do que, a concepção de desemprego é igualmente outra. Para o Ipea, emprego é emprego formal com carteira assinada. Para o Dieese-Seade emprego não se restringe à ocupação com vínculo empregatício formal e carteira assinada. Se a crise chegou à economia laboral formal, chegou também à economia informal, sempre tida como válvula de escape daquela. Os dados apontam mais de 3 milhões de desempregados no País e só na região metropolitana de São Paulo, mais de 1,5 milhão de desempregados. Os dados do Ipea indicam que preservaram seu emprego os trabalhadores que ganham entre meio e um salário mínimo e que são jovens, o que é melancólico, pois sequer permite a ilusão de que ao menos uma parte da sociedade está preservada contra a crise e indicaria para ela uma saída possível. A economia de mercado não se robustece em cima de misérias como essa.

O mercado de trabalho brasileiro expressa, nesse quadro, uma característica própria de país subdesenvolvido e, além do mais, sem perspectiva de superação das dificuldades que crescem para os que dependem do trabalho para viver. A economia brasileira hoje é uma economia dependente de lucros do comércio de exportação e sua vantagem comparativa em relação a outras economias depende do baixíssimo nível de remuneração de sua mão-de-obra. Complementarmente, o preço da terra e as formas criminosas de acesso à posse da terra têm assegurado também uma renda fundiária diferencial que torna mais lucrativo que grupos estrangeiros produzam aqui o que produzido em outros países seria muito mais caro.

A órfã massa humana que, no mundo todo, viabilizou a imensa acumulação e concentração de riquezas, a partir dos anos 70, era a única e sólida alternativa para salvar o sistema econômico da ruína decorrente de seus ganhos financeiros escandalosos, sem qualquer contrapartida social e mesmo econômica. O que foi tirado em excesso dos que trabalham, acumulado em excesso e desfrutado irracionalmente reflete-se na pobreza social do mercado constituído por aqueles que poderiam manter o que Keynes definia como nível de renda e emprego e seu efeito multiplicador. A irracional economia do neoliberalismo matou seus salvadores. Pouco ou nada adiantam, agora, políticas de distribuição de esmolas à mão cheia, como nos programas pseudo-sociais do governo brasileiro. Elas não terão o impacto de que a economia precisa. Os dados das pesquisas mencionadas indicam que se salvam os que conseguem trabalhar sem plena inserção econômica e social, os chamados excluídos.

Os países nessa situação encontram-se há anos em busca do chamado trabalho puro, o trabalho sem corpo nem vida, o trabalhador que não come nem grita, nem vive. As reiteradas denúncias da Organização Internacional do Trabalho quanto ao número de trabalhadores vivendo em condições de escravidão em países como a Índia, a China e o Brasil são reveladoras da disseminação dessa insidiosa economia do extermínio, em que o próprio trabalhador é convertido em matéria-prima da produção.

Nesse cenário, o vocabulário do trabalho e do desemprego desdobra-se e complica-se, distanciando-se da linguagem mais precisa dos fins do século 19 e do início do século 20, quando a sociedade de classes ainda era dominada pela polarização de interesses entre o capital e o trabalho. Quando o trabalho era concebido como uma força social com potencial histórico e competência de mudança e era propriamente uma força política antes de ser um instrumento partidário. Dia do Trabalho era o dia de celebrar o martírio do trabalhador numa sociedade que ainda não reconhecia o sujeito social e político gestado pela força laboral dos que trabalhavam. A confusão vocabular de hoje, num emaranhado de tecnicismos que procuram distinguir níveis de emprego e níveis de desemprego, expressam justamente o esfacelamento desse sujeito social, de sua força histórica e de sua competência política. Resta-lhe o circo, mais do que o pão.

*Professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USPe autor, entre outros títulos, de A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto)

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