The Economist
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Mais feiras e menos obras são as projeções para o mercado de arte

Antiguidades e obras de arte de períodos clássicos ficam cada vez mais raras, enquanto a quantidade de eventos se multiplica

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21 Abril 2018 | 16h00

A maioria das obras de arte importantes estão em museus – “prisões para a arte”, como define um frustrado marchand. Enquanto os artistas contemporâneos reabastecem o mercado, as pinturas antigas, esculturas de bronze, antiguidades, obras medievais, porcelana e joias antigas foram criadas por aqueles que estão mortos. Nem tudo está trancado em museus, é claro, mas à medida que aumenta a expectativa de vida dos colecionadores, também aumenta o tempo que suas aquisições ficam fora do mercado. David Rockefeller, cuja coleção será leiloada pela Christie’s, morreu aos 101 anos.

Ao mesmo tempo, há mais dinheiro em busca de obras arte e antiguidades, como fica evidente pelo crescente número de feiras. A Tefaf, em Maastricht, com 282 expositores, é a melhor e maior. Mas somam-se a ela outros eventos de longa data como o Winter Antiques Show (Nova York), a Bienal de Paris, o Brafa (Bruxelas) e os recém-chegados, como Masterpiece (2011) e Frieze Masters (2012), ambos em Londres, e derivados da Tefaf: Outono (2016) e Primavera (2017), em Nova York. 

Simplesmente não há arte suficiente para abrigar em todas essas feiras. Foram muitas as que mudaram o foco ou se especializaram. Brafa, famosa pela arte medieval, mudou para a contemporânea. A Masterpiece dá ênfase a uma experiência de compra de luxo. Enquanto isso, a Tefaf, líder nesse mercado, chegou a ser acusada de complacência, aparentemente presa a uma rotina de opulência, pela sua fama como fonte de importantes óleos de mestres da antiguidade. Em 2017, a feira pareceu pequena.

Mas a edição de 2018, no mês passado, provou que a Tefaf não é passado. A feira deu a si mesma uma dose de adrenalina estética. Os marchands trabalharam com afinco e tiveram a sorte de encontrar obras notáveis. As vendas refletiram isso. Alan Darr, curador no Instituto de Arte de Detroit, relata que, em viagens anteriores à feira com os patronos do museu, compraram uma única peça, mas este ano escolheram três.

Colecionadores tradicionais concentram-se em um gênero, material, período ou criador. Seu número, no entanto, como a quantidade de arte antiga em circulação, está encolhendo. Para substituí-los são necessárias pessoas “atraídas pelo incomum”, diz Peter Schaffer, proprietário da A la Vielle Russie, especialista em joias antigas e objetos de arte russos que são expostos na Tefaf. “Pode ser um material raro, como a ágata olho de tigre usada em uma bandeja de Fabergé, ou a combinação incomum de ametista e jade em um par de brincos”.

Este ano, Maastricht apresentou tanto os materiais incomuns como as combinações inusitadas. Menos de uma hora após a inauguração, um colecionador comprou um frasco de perfume de marfim cravejado de diamantes, do século 18. No formato de um sábio chinês sentado, estaria em casa no Green Vault de Dresden, a maior coleção ainda existente de tesouros principescos. Um grande e cuidadosamente torneado relevo de madeira de buxo do século 17, Cristo no Jardim do Getsêmani – uma nova atribuição ao Mestre do Martírio de São Sebastião – é uma obra arquetípica de colecionador de estilo antigo – embora um dos interessados tinha acabado de avaliar a possibilidade de adquirir um desenho de Egon Schiele. A galeria Botticelli, de Florença, trouxe uma cabeça de elefante em mármore, esculpida em tamanho natural, do século 17, de um palacete em Palermo. Essa fonte de cabeça de elefante vai jorrar em um jardim cheio de esculturas contemporâneas. 

Caixas de ouro eram um dos tesouros principescos favoritos, e a galeria Adrian Sassoon mostrou como essa ideia poderia ser executada em uma recriação contemporânea, tecnicamente sofisticada. Admiradores fizeram fila para ver Mandala, uma bacia translúcida extremamente leve, tecida a partir de 4 mil metros de fio de ouro. (Giovanni Corvaja, seu criador, conseguiu isso evitando a solda ao trabalhar na câmara de vácuo, onde o ouro poderia se ligar a si mesmo).

O relacionamento de longo prazo com um marchand especializado enfraquece quando os compradores misturam as obras sem a preocupação de combiná-las. Isso, juntamente com a escassez de trabalho de alta qualidade em circulação, representa um risco fatal para alguns comerciantes de arte. Se quiserem sobreviver, terão de repensar, talvez radicalmente, tudo, desde o que estocam até a exibição e o marketing. Alguns estão tomando medidas nessa direção, mas seus esforços são tentativas aleatórias de adicionar obras contemporâneas a portfólios simplesmente porque as cores ou formas estão relacionadas. Talvez os “dealers” venham a descobrir que a colaboração funciona bem. Por exemplo, que sensação teria sido se a Koopman Rare Art tivesse tomado emprestado Mandala de Sassoon e a tivesse exibido junto de suas caixas de ouro: seria o melhor do passado e do presente em um diálogo deslumbrante, atraindo interesse para ambos.

É impossível saber como a Tefaf e as feiras similares serão daqui a uma década, mas parece certo que a diferença entre agora e então será muito maior do que nas décadas anteriores. Mesmo porque para as feiras e negociantes de arte mais célebres, a mensagem é clara: eles devem mudar ou desaparecer. / Tradução de Claudia Bozzo 

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