Mais que perfeito

É o futuro que se materializou. Ele transformou em quinquilharias os inventos previstos pelo cinema

Gustavo Chacra, NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2010 | 00h16

O futuro hoje, diria um pretérito astro do pop nacional, não é mais como era antigamente. Agora sabemos, ele se tornou mais avançado do que o imaginamos no passado - e num passado recente, que está bem ali, menos de 30 anos atrás, em filmes como os da saga De Volta para o Futuro. Ok, não existem carros e skates voadores circulando pelas ruas ou ares de Nova York e São Paulo. Mas a modernidade de hoje superou as previsões feitas ontem. Veja George Jetson, do desenho animado da Hanna-Barbera situado em um longínquo 2062. Ele não tinha (ou seria "terá" o tempo verbal correto?) um Blackberry, um iPhone ou o Nexus One, lançado essa semana com o objetivo de ser o mais moderno celular já fabricado. E, agora, qualquer pessoa que botar as mãos num aparelho desses, ou em qualquer um de seus concorrentes, acessará mais informações do que agentes da CIA ou o presidente americano Ronald Reagan sonhariam ter nos anos 80. Mesmo Bill Gates, o homem mais rico do mundo e um dos pioneiros da internet, na virada do século, não tinha um celular tão moderno como os hoje.

Quando Michael J. Fox saiu de 1985 para viajar para os dias atuais - na verdade, para 2015 - em filme lançado há 25 anos no Brasil, ele usava um relógio com calculadora, que era uma das sensações daqueles anos da Guerra Fria. Hoje passaria completamente despercebido. Pior, seria ridicularizado pelos amigos no colégio.

No Brasil de 25 anos atrás, pais da classe média compravam para seus filhos um Atari ou um Odissey, que podem parecer videogames da Idade da Pedra para um adolescente dono de um Xbox. Os roteiristas previram esse avanço em De Volta para o Futuro. Em uma cena em um bar do futuro que teria como tema os anos 80, Marty McFly - o personagem de Fox - tenta exibir seus dotes em um fliperama, mas acaba se tornando motivo de gozação para dois meninos futuristas acostumados a games de realidade virtual, no qual não precisam usar as mãos. Porém, ao contrário do que imaginaram os roteiristas, videogames como o Wii, um dos mais modernos atualmente, utilizam não apenas as mãos, mas o corpo inteiro. Pois é, o conceito de modernidade mudou um bocado.

Em 1985, quando é ambientado o primeiro filme da série, gravado no fim da mesma década, as pessoas ainda utilizavam os telefones fixos. Os pais atendiam as ligações dos namorados das filhas. Os filhos precisavam ligar de orelhões, com as extintas fichas da Telesp, para pedir que os pais os buscassem no clube ou no shopping. Brasileiros expatriados se comunicavam com a família por carta ou pelo telefonema semanal - com a voz ao fundo pedindo para desligar logo "porque vai ficar caro". Vivendo nesse ambiente, Robert Zemeckis e Steven Spielberg, responsáveis por De Volta para o Futuro, não imaginaram que os telefones se tornassem artigos individuais, com um celular para cada pessoa da família. Era uma época em que se usava a extensão, com o irmão escutando a conversa da irmã. Em países como o Brasil, uma linha telefônica custava milhares (ou milhões?) de cruzeiros ou cruzados na bolsa do telefone.

Mas Zemeckis e Spielberg acertaram em algumas coisas. Embora na casa dos McFlys no futuro a filha atenda o telefone e diga que é para o pai - isto é, eles ainda dividem o aparelho da casa, sem a existência do celular -, o interlocutor aparece em monitor de tela plana, com seu nome e dados familiares abaixo. O que é isso senão o bom e "novo" Skype? Em outra ligação, o chefe de McFly anuncia sua demissão por fax e vários papéis são espalhados pela casa, em receptores distintos, como as extensões dos telefones. Não havia nos anos 80, a não ser em meios científicos mais avançados, a noção de que algo como o e-mail invadiria nossas vidas.

No futuro real, em que vivemos, os celulares estão espalhados por todas as classes sociais. Nos EUA, são raros os jovens com menos de 30 anos que adquirem telefones fixos. Recentemente, a Newsweek questionou em reportagem a necessidade de se ter um aparelho em casa. Alguns dormitórios de universidade aboliram as linhas telefônicas fixas, já que ninguém as usava. Conforme escreveu o cronista Antonio Prata no caderno Metrópole, do Estado, citando seu pai e também escritor Mario Prata, "o telefone fixo foi uma invenção que não deu certo". Os mais novos, que vivem com os pais, ainda têm linha fixa da família em casa. Mas trocam com os amigos apenas os números de celulares. Aí os pais simplesmente perderam o controle (e talvez não o encontrem nunca mais) sobre quem conversa com os filhos. Todos enviam mensagens de texto ou até mesmo falam enquanto estão em seus quartos, durante a madrugada. Estudo do JP Morgan feito com adolescentes demonstrou que muitos nem sequer usam o telefone para se comunicar. O contato com os amigos se dá diretamente por meio do Playstation 3. As mudanças são tão velozes nas comunicações que em pouquíssimos anos até novidades como Hotmail, Yahoo! e Orkut se tornaram retrô diante de Gmail, Google e Facebook.

Comparando o festival de Woodstock, nos anos 60, com o concerto Lollapalooza, em Chicago, no ano passado, a colunista Gail Collins, do New York Times, que esteve em ambos, afirmou que a atual geração não conseguirá se desconectar completamente do mundo externo, como na década de 60. "Para qualquer ponto que eu olhava, 50% das pessoas estavam lendo ou digitando textos", escreveu, sobre o evento em Chicago. Essa imagem não foi prevista por nenhum futurista das décadas de 70 e 80.

No filme também se fala em um papel repelente de poeira. Veja que maravilha: as pessoas não teriam mais que se preocupar com o acúmulo de pó nos seus livros. O problema é que a ciência não está preocupada em criar papéis que não acumulem pó. E sim em abandonar o papel totalmente. Pela primeira vez a Amazon anunciou ter vendido mais livros virtuais do que impressos. Estudantes das principais universidades americanas, como a Colúmbia e a NYU, de Nova York, desfilam pelos campi em Manhattan com seus Kindles e Nooks repletos de livros digitais que usarão nos cursos. A sala do xerox perdeu importância em Princeton, Harvard e Stanford. Este texto será lido por muitos leitores em um meio que não é o papel.

Em De Volta para o Futuro, o cientista Doc Brown carrega um exemplar do dia seguinte do USA Today. Em nenhum momento existe a preocupação em mostrar algum órgão de informação on-line, com atualização automática. Eles não previam esse modelo de imprensa nos anos 80. Não se falava em internet. Àquela altura de nossas vidas, o New York Times costumava chegar com alguns dias de atraso ao Brasil e, mesmo assim, somente a poucas bancas da Avenida Paulista, a um preço cinco vezes maior que na Madison Avenue. Brasileiros no exterior visitavam as filiais da Varig na Champs-Elysées, em Paris, e na Quinta Avenida, em Nova York, para conseguir um exemplar da Veja ou da Manchete - de duas semanas antes e olhe lá. No intercâmbio, adolescentes brasileiros sofriam para saber como andavam o Palmeiras e o Corinthians no Campeonato Paulista. Agora, jornais como o Estado e a Folha podem ser lidos até mesmo na sua forma impressa, com direito a anúncios e folhear de páginas, na internet. Seja em Roma, seja em Damasco, e antes mesmo de os jornais estarem na porta dos prédios residenciais em Higienópolis. O filho de McFly no futuro assiste a uma TV com seis canais ao mesmo tempo. Hoje, jovens nascidos depois dos 80 nem sequer chamam a TV Globo de canal 5 em São Paulo, porque o número da emissora pode variar de acordo com a operadora de TV a cabo contratada - de 200 canais, todos na tela ao mesmo tempo para quem quiser.

O chefe de McFly é um japonês. Uma tentativa de mostrar que o Japão dominaria a economia mundial nos 30 anos seguintes. A China era então somente um lugar distante, muito longe, cheio de comunistas que comiam frango xadrez com pauzinhos. Nos anos 80, os americanos estavam era preocupados com a pujança comercial e industrial do Japão, que depois de quase duas décadas de economia estagnada, deixou, enfim, de ser visto como uma ameaça.

Carros voadores também aparecem no filme. Aliás, mesmo antes dos carros já se pensava em um futuro em que carruagens poderiam voar, conforme mostra o livro Yesterday"s Tomorrows (Os Amanhãs de Ontem), de Joseph J. Corn e Brian Horrigan, 1996, que relata uma série de previsões feitas no passado sobre como seria o futuro em diferentes épocas. Pelo menos por enquanto, a previsão de carros voadores entupindo nossas vias aéreas, como os de De Volta Para o Futuro, está descartada, apesar de a pequena empresa californiana Moller fabricar veículos similares - na verdade, aviõezinhos para quatro pessoas que decolam na vertical. Avançar além disso envolve obstáculos econômicos e de segurança. A tendência da indústria automobilística é construir carros com menor consumo de combustível. E depois do 11 de Setembro o problema da segurança se intensificou. Com milhões de carros voadores circulando pelo mundo não seria muito difícil para um terrorista cometer um atentado lançando o veículo contra um estádio lotado. E seria quase impossível controlar as fronteiras ou parar um criminoso.

Essas previsões de como será o mundo daqui a algumas décadas não são um fenômeno dos anos 80. Júlio Verne talvez tenha sido um dos que mais acertaram sobre como seria o futuro, antecipando até mesmo os submarinos, em obras como Vinte mil Léguas Submarinas ou A Volta ao Mundo em 80 Dias, ambos do século 19. H. G. Wells, em 1895, escreveu A Máquina do Tempo, livro no qual descreve como seria a civilização no ano 802.701. Edward Bellamy, em seu Looking Backward (Olhando para Trás), publicado no fim do século 19, conta a história de um jovem que viaja de 1887 para o ano 2000, no qual encontra uma sociedade igualitária.

Um erro comum dos futurólogos no passado foi prever robôs com formas humanas em casa, com profusão de botões. Nos anos 80, quanto maior a quantidade de botões, mais moderna era considerada a máquina. Essa noção terminou com o lançamento do iPod, da Apple, em que Steve Jobs conseguiu colocar em uma pequena caixa milhares de músicas que podem ser tocadas apenas com o uso de dois botões, optando por uma solução minimalista - algo próximo ao que Coco Chanel fez na moda no século 20. O iPhone levou o mesmo conceito para a telefonia. O Nexus One, da Google, planejava uma nova revolução, mas tem sido visto por analistas como apenas mais um celular inteligente, apesar de alguns novos avanços. De qualquer forma, será mais um aparelho que, em passado recentíssimo - cinco anos, não mais -, poucos poderiam sonhar que fosse existir em 2010. Tirando alguns nerds do Silicon Valley ou do MIT, é claro.

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