Mais respeito, por favor: música de câmara, a prima mais pobre do universo dos concertos

A música de câmara é a prima mais pobre do universo dos concertos. Mas teima em sobreviver porque é impulso vital, necessidade atávica

João Marcos Coelho, Impresso

17 Dezembro 2016 | 16h00

Respeito. É só isso que pedem todos os que gravitam na órbita da música de concerto, ou de invenção, neste momento difícil que atravessa o Brasil. E é o que justamente não vem acontecendo neste malfadado segundo semestre do ano de 2016. Primeiro, os imbróglios no Ministério da Cultura; na sequência, os cortes de orçamento muito acima do razoável em instituições do porte da Osesp e do Teatro São Pedro, comportamento que transforma as organizações sociais, as OS, em verdadeiras “laranjas” usadas para terceirizar a demissão de centenas de músicos.

E agora, como emblemático presente de fim de ano, a cereja no bolo: no início deste mês, o folclórico prefeito eleito de Curitiba Rafael Greca pediu ao atual prefeito Gustavo Fruet que suspenda a realização da 35.ª Oficina de Música de Curitiba, marcada para acontecer entre 7 e 29 de janeiro (o evento existe desde 1983 e atrai à cidade dezenas de professores brasileiros e estrangeiros e centenas de estudantes de música do país todo e da América Latina).

O rotundo alcaide repetiu um sofisma usado pelos políticos quando falam de cultura ao escrever o seguinte no Facebook: “Nossa futura gestão na Prefeitura será prioritariamente compromissada com a mitigação da dor, buscando a eficiente satisfação da Saúde Pública. Isto para que a Música possa harmonizar a vida saudável dos curitibanos e não seja apenas uma triste pavana, lamento de missão não cumprida”.

Greca quis mostrar que ouviu falar de uma certa peça famosa de Ravel, a Pavana para uma princesa morta, mas deixou claro mesmo o modo perverso como a cultura é vista pelos políticos no País. Se não temos dinheiro para a saúde, muito menos para a música. Equação absurda. O que define nossa humanidade é a arte, na frase forte, bela e verdadeira do poeta, jornalista e não por acaso crítico de arte Ferreira Gullar que infelizmente nos deixou há poucos dias: “A arte existe porque a vida não basta”.

Mais do que isso. A arte tem muito a ensinar pelo menos a dois tipos de animais públicos preferenciais: de um lado, os políticos, historicamente acostumados a personificar o personagem de Veríssimo “Queromeu” e que já não conseguem dar de ombros para a plateia. De outro, a selva da web, onde insultos e xingamentos são a regra. Ninguém quer debater assunto algum. Só quer expor suas vísceras (apenas as bonitas, claro) e seus ódios.

A música é exemplo virtuoso crucial porque todo músico vive no dia a dia situações contraditórias: o isolamento quando estuda sua parte; e a necessidade de cooperar quando ensaia em grupo. Num livro espetacular de 2012, Juntos, o sociólogo Richard Sennett, 73 anos, conta um episódio que viveu como violoncelista. “Eu ensaiava o Octeto de Schubert com o clarinetista Alan Rusbridger e a certa altura ele comentou ‘o seu agudo está estridente’. Praticando sozinho, eu esquecera como o agudo poderia soar para ele, e ele me levara a ouvi-lo”.

Na música de câmara, completa Sennett, não se busca a homogeneidade, isso seria monótono. “A força e o temperamento da música manifestam-se através de pequenos dramas de deferência e afirmação: na música de câmara, em especial, precisamos ouvir os indivíduos falando com vozes diferentes que às vezes entram em conflito, como no caso das arcadas ou do timbre das cordas. Entretecer essas diferenças é como manter uma conversação rica”.

Afirmação e diálogo, respeito e cooperação. É disso que precisamos. Mesmo sendo assim tão paradigmática para quem a toca ou curte, a música de câmara é a prima mais pobre deste universo. É a que tradicionalmente recebe verbas menores. Isso em tempos de vacas gordas. Quando estas emagrecem, os músicos ficam sem trabalho. Ainda assim ela teima em sobreviver, porque é impulso vital, necessidade atávica.

Teremos de inverter esta equação, se quisermos revolucionar de fato a prática da música de qualidade no país. Por isso o melhor presente de fim de ano foi o II Festival Internacional de Música de Câmara do SESC. Reuniu 12 grupos de oito países, em 47 concertos em 11 unidades do SESC no Estado de São Paulo por 15 dias, entre o final de novembro e o início deste mês. Foi uma literal “ocupação”. Mais do que promover concertos, é preciso atentar para os repertórios, as propostas. Neste sentido, o festival foi agudo. Fez pensar um grupo com o Pera Ensemble, reunindo músicos turcos e europeus praticando música inclusiva; ou o grupo francês L’Arpeggiata, que literalmente tira Henry Purcell, o grande compositor inglês do século 17, para dançar.

Recorro de novo a meu guru Sennett para falarmos sobre respeito, este gênero de primeiríssima necessidade que faz tanta falta no Brasil. Pois respeito é o que nos ensina a prática musical. Em seu livro Respeito, Sennett deu a melhor tradução verbal da importância da música de invenção em nossas vidas partindo da música de câmara. A propósito de um concerto do violoncelista chinês Yo-Yo Ma com a pianista inglesa Kathryn Stott em que o superstar chinês jamais se sobrepôs a ela, num lindo exemplo de respeito mútuo musical e humano, Sennett escreveu que devemos “tentar tornar a sociedade mais semelhante ao concerto: isto é, explorando as formas de se apresentar como iguais, e demonstrar respeito mútuo (...) muitos músicos têm o impulso cooperativo, mas poucos conseguem traduzi-lo em som. Isto é ainda mais verdadeiro na vida social: existe um enorme abismo entre esperar agir bem em relação aos outros e agir bem de fato”.

Então, políticos investidos de cargos públicos, que tal romper este “enorme abismo” e agir bem de fato com a música de invenção neste nosso país tão maltratado?

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