Mais uma onda de sem-teto, a pior

Nova York e outras cidades esperam, no verão, o maior número de desabrigados de todos os tempos

Julie Bosman, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2009 | 23h43

No fim do ano letivo, no mês passado, Arielle Figueras subiu de beca e chapéu de formatura no palco da sua escola para receber orgulhosa o diploma da 5ª série. No dia seguinte, não tinha mais casa para morar.

Arielle, de 11 anos, e seus pais, irmão e irmã empacotaram seus pertences e dirigiram-se ao centro de acolhida para famílias sem teto no South Bronx. Embora brigassem com o senhorio havia meses e o fornecimento de gás e luz tivesse sido desligado, eles se recusaram a sair do apartamento antes do fim das aulas. "Ela estava se formando, por isso tivemos de esperar", disse a mãe de Arielle, Marilyn Maldonado.

Para muitos nova-iorquinos, o verão é uma época de férias, campings e dias de ócio na praia. Mas a prefeitura se prepara para um ritual de verão muito diferente, em razão do grande aumento das famílias sem teto. As autoridades o chamam de "o surto de verão" e afirmam que este ano poderá ser o pior já registrado.

Como nesta primavera a população sem teto aumentou mais de 20% em relação ao mesmo período do ano passado, talvez por causa do aumento do desemprego, a prefeitura deve atender nos abrigos ao maior número de famílias de todos os tempos, prevendo a entrada de cerca de 10 mil. O número já está em torno dos 9.400.

Outras cidades observam tendência semelhante. Em Toledo, Ohio, um abrigo superlotado manda de volta à rua dezenas de pessoas, todas as noites. Em Charlotte, Carolina do Norte, outro abrigo que costuma abrir somente no inverno manteve as portas abertas no verão para atender à demanda, que cresceu 20% em relação ao verão passado. Do outro lado da cidade, um abrigo do Exército de Salvação está tão lotado que precisou colocar colchões no chão dos quartos.

Os motivos são vários, mas simples. Os senhorios que relutam em despejar as pessoas no inverno hesitam menos no verão, quando o clima é mais ameno. Pais como os Maldonado, que suportaram viver numa habitação sem conforto para poupar aos filhos a agitação e a humilhação na escola, finalmente ajeitaram suas coisas e partiram. Além disso, parentes que hospedam famílias em apartamentos apinhados perdem a paciência quando, de repente, encontram crianças correndo pela casa o dia inteiro.

Nos últimos três anos, em Nova York, o número de famílias sem teto que se inscreveram para ter lugar em um abrigo no verão cresceu 28% em relação ao restante do ano. Sua primeira parada é no centro de acolhida, um edifício de tijolos imenso, localizado no Bronx, com 6.130 mil metros quadrados e aberto 24 horas por dia. Elas precisam passar por detectores de metal e responder a uma série de perguntas feitas pelo pessoal do serviço social. Depois de esperar horas, são levadas de ônibus para um quarto ou um apartamento de hotel, onde permanecerão temporariamente.

O serviço social começou a arrumar espaço para as centenas de novas famílias que estão sendo esperadas no centro neste verão. No segundo andar, foram desmantelados todos os cubículos para dar lugar a uma sala de espera única, com fileiras de cadeiras de plástico para até 114 pessoas. Instalou-se ainda uma série de armários de metal cinza claro - suficientemente espaçosos para conter várias malas. Os funcionários do centro só podem tirar uma semana de férias durante julho e agosto.

No verão, poucas horas depois do encerramento do ano letivo nas escolas públicas, as famílias começam a chegar ao centro, os rostos tensos por causa do stress. Uma mulher entra agitada com o filho jovem, ainda com uma mochila azul vibrante nas costas, segurando uma braçada de livros.

Outra mulher, que não quis se identificar, espera fora com a filha, que acaba de finalizar o 2º grau. "Minha irmã disse que não poderíamos mais ficar morando com ela", conta, abanando-se por causa do calor úmido.

O pai de Arielle, Douglas Maldonado, afirma que seu senhorio parou de fazer consertos na casa e alterou a conta de luz do prédio para que a família Maldonado pagasse a conta de outros apartamentos, conta essa que chegou a US$ 8 mil por mês. Mas ele continuou no seu até que Arielle se formasse e o filho, Sabino Figueras, terminasse a 8ª série, na semana anterior.

O prefeito Michael Bloomberg já enfrentou outras vezes esses problemas com a chegada das famílias sem teto no verão. Em 2002, as autoridades permitiram que pais e filhos dormissem no chão do escritório de acolhida. Outras famílias foram instaladas em uma cadeia masculina vazia, no Bronx, que posteriormente se soube estava contaminada com tinta à base de chumbo.

Neste verão, a prefeitura acolherá os sem-teto em abrigos já existentes, não muito lotados, e em edifícios de apartamentos vazios que foram reformados para essas famílias, disse Robert V. Hess, o comissário do serviço para os sem-teto.

Uma parte essencial do plano da prefeitura é colocar as famílias temporariamente em hotéis, alguns dos quais são usados tanto para pessoas necessitadas quanto para clientes pagantes. Hess não quis dar o nome desses hotéis, mas disse que num deles, no Queens, o seu departamento reservará 120 quartos para as famílias. Durante o inverno, o departamento costuma reservar ali de 20 a 30 quartos. A família Maldonado passou as primeiras noites em um hotel da Rua 145, no Bronx. Um dos colchões do quarto, segundo Maldonado, fedia e estava manchado de urina.

No dia 28 de junho, Tarshima Dixon, mãe de quatro filhos, foi para o centro de acolhida com seu filho Jason, de 14 anos. Outros dois filhos, Craig Dixon, de 13, e Nahjee Johnson, de 8, esperavam do lado de fora com a avó, brincando com uma bola de basquete na calçada enquanto a música Billie Jean, de Michael Jackson, tocava no rádio da sua minivan.

A família foi despejada em abril, e a avó não tinha lugar para todos. Portanto, a sra. Dixon com Craig, Nahjee e outro filho de 16 anos, Gregory, mudaram-se para um abrigo no Brooklyn. Jason morava com o pai em Camden, Nova Jersey, mas a mãe queria que ele voltasse para morar com os irmãos. Tiveram de ir para o centro de acolhida. A prefeitura precisava saber, enfim, que haveria mais uma pessoa sem teto precisando de uma cama.

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