Carlos Augusto/Prefeitura do Recife
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Mais viva do que nunca, crônica ganha as prateleiras em novos livros

Obras prestam tributo a nomes como Antonio Maria, Rubem Braga e Vinicius de Moraes

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2021 | 15h00

Mais viva do que nunca, a crônica, a literatura jornalística em estado impuro, conta agora até com um portal exclusivo no site do Instituto Moreira Salles, aos cuidados de quem entende à beça do riscado, Humberto Werneck, ele próprio cronista deste jornal.  Instalou-se lá nosso maior viveiro de sabiás da crônica, a começar pelo próprio Rubem Braga (origem da antonomásia ornitológica, inventada por Sérgio Porto), Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Clarice Lispector, Antonio Maria, João do Rio, Lima Barreto, Fernando Sabino, José Carlos Oliveira e alguns outros de igual plumagem. 

Nas livrarias, os “flautistas”—antonomásia que não pegou, mas procede (“crônicas são como flautas de papel”, definiu-as Manuel Bandeira)—também voam ou tocam alto. 

A editora Autêntica acaba de lançar Os Sabiás da Crônica, antologia de 90 trinados de seis croniqueurs  profissional e afetivamente ligados entre si (Rubem, Sérgio. Sabino, Paulo, Carlinhos, mais Vinicius de Moraes), selecionados a partir de um histórico encontro na legendária cobertura do sabiá mor em Ipanema e apresentados, no livro, pelo poeta e crítico Augusto Massi, com invejável competência. 

Pela Cia das Letras saiu há dias Vinicius Por Vinicius, retrato em 150 frases do poeta, compositor e também cronista garimpadas pela jornalista Maria Lucia Rangel em entrevistas, artigos, crônicas, cartas e conversas com amigos e parceiros, além da própria organizadora do volume, amiga do retratado desde a juventude, dela, não dele.  

O livro é um pequeno manual de sabedoria, recheado de espirituosas trouvailles mundanas e profanas. Para o poeta, que se autodefinia como um “homem triste com grande vocação para a alegria”, só o amor era sagrado. Talvez abrisse outra exceção para o uísque, a seu ver, o melhor amigo do homem: “O uísque é cachorro engarrafado”, revelou ao boêmio de truz Paulo Mendes Campos, a quem também confessou nunca ter visto “uma boa amizade nascer em leiteria”. 

Supersticioso, Vinicius tinha pânico de entrar em avião por três motivos: “é mais pesado que o ar, tem motor a explosão e foi inventado por brasileiro”. Embora admitisse gostar das sextas-feiras 13, ponderou: “Quando cai no sábado, então, é perfeito”. Se tivesse alcançado a Era Temer (o poeta morreu em 1980, aos 66 anos), não teria dito que “os poetas servem para não serem presidentes da república”. Mas disse exatamente isso em 1978, para Marta Rodrigues Santamaria, sua oitava e penúltima mulher, numa entrevista à revista Status.

Daqui a uma semana chega às livrarias um dos melhores lançamentos editoriais deste semestre: Vento Vadio, com todas as crônicas de Antonio Maria (1921-1964). Pesquisado, organizado e também impecavelmente introduzido por Guilherme Tauil, é um tributo que as editoras brasileiras há muito deviam ao nosso maior “cronista da noite”, mas só a Todavia decidiu bancar. 

As compilações anteriores, cinco ao todo, creio, não passavam de seletas, que, apesar de expressivas, abrigaram uns 10% do que Maria publicou nos veículos mais importantes da imprensa carioca, e não deram a real dimensão do multitalento do jornalista, humorista, caricaturista, compositor, produtor de TV, que até como locutor de futebol fez carreira—e ao conquistar Danuza Leão, no auge da beleza (só dela) matou um bocado de marmanjo de inveja. 

Obeso, “maltrapilho de nascença” e feio, quando abria a boca era um assombro, um papo encantador. O mulherio despencava a seus pés. “Foi a pessoa mais inteligente e adorável que eu conheci”, revelou-me Ivan Lessa, que chegou a montar com ele um escritório de produção de textos para a televisão e pegou bastante de seu humor. 

“Era inimitável”, escreveu Paulo Francis, que não perdia uma chance de visitá-lo em seu apartamento de Copacabana, sombrio e decorado com móveis “estilo Catete-gótico”, descrição que Francis deve ter ouvido do próprio Maria e sempre me pareceu derivada do “estilo early nothing”, que Gloria Graham imortalizou no filme Os Corruptos

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