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Aplicativos prometem um selfie ‘impecável’, mas em alguma hora o corpo se fará presente. Aí...

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

15 Agosto 2015 | 16h00

O pau de selfie é o novo cigarro. Gradativamente proibido mundo afora, com mais rigor em espaços turísticos como o Coliseu, Versalhes e a Ópera de Sydney, caiu agora em desgraça na Disneylândia. A alegação de praxe - por questão de segurança - é insuficiente. Impedir a forma mais exibicionista dessa “jubilosa e superficial perversão do autorretrato”, como a definiu o historiador de arte Simon Schama, visa sobretudo a evitar que as pessoas se exponham ao ridículo em público, empunhando uma haste que um bem-humorado psicólogo comportamental americano apelidou de “narcisistick”. 

Se o uso dessa bengala do ego compromete a segurança, postar os selfies compulsivamente no Instagram, Facebook e outras redes sociais denota insegurança, expõe muito mais uma necessidade de ser conhecido, admirado e invejado pelos amigos, parentes e até desconhecidos do que um desvio narcisista puro e simples. Assim pensam alguns estudiosos do fenômeno, perguntando-se um e outro o que Freud e Lacan teriam a dizer de original sobre essa indecorosa maneira de chamar a atenção, ao passo que eu, atraído por outros aspectos da questão, me limito a imaginar como Susan Sontag e Roland Barthes o teriam analisado. 

O fenômeno adquiriu nova dimensão após o lançamento de uma batelada de aplicativos inspirados no photoshop que prometem melhorar a aparência dos selfiemaníacos, torná-los, enfim, mais fotogênicos, menos tronchos, quando não mais esbeltos e sedutores aos olhos dos demais internautas. Cosméticos eletrônicos para disfarçar imperfeições da pele e do corpo, tais aplicativos, potencialmente destinados ao público feminino, são a versão high-tech da velha cinta e do não menos antigo sutiã com enchimento. 

Com mais de 100 milhões de usuários em 218 países, o Photowonder lidera as preferências. Apesar de gratuito, possui quase todas as ferramentas dos concorrentes: faz maquiagem, afina a silhueta, disfarça manchas e ainda tem a função “colagem”, que oferece aos selfies um sortimento de molduras e panos de fundo. O Facetune tira rugas, deixa a cútis lisinha, um botox virtual por módicos US$ 3. O CreamCam faz a mesma coisa a custo zero e ainda promete dar brilho ao semblante, com a ajuda de um filtro especial. O SkinnyCamera diminui a cintura, como se a freguesa tivesse emagrecido uns 5 quilos. O Perfect365 até branqueia os dentes. 

Só funcionam em contatos e encontros virtuais. De corpo presente, não há aplicativo que dê jeito, corrija defeitos, transforme o sapo em príncipe. Quando os corações solitários da internet ainda se relacionavam pelos chats da AOL, pelo Casual Encounters do Craigslist e sites afins, ainda dava para embromar, levar o negócio só na conversa: sem fotos, investindo na lábia, sublimando virtudes inverificáveis e sonhando com um romance igual ao de Meg Ryan e Tom Hanks em Mensagem para Você, de resto patrocinado pela AOL. 

Tente fazer isso no Tinder. Ou no OKCupid, no Happn, no Grouper, no Hinge. Comparado a esses sites modernos de relacionamento, o pioneiro serviço de troca de mensagens da AOL mais parece um vitoriano pombo-correio. Tinder é o preferido da chamada geração do milênio, os millenials, et pour cause conhecida como Generation Tinder. Em linha há três anos e já com 50 milhões de usuários no mundo inteiro, promove encontros e arma novas amizades, para o que der e vier. É, basicamente, um aplicativo de paquera. “Melhor que na vida real”, proclama seu slogan. Depende do que você espera da sua vida real. 

Tem foto, mas nada de perfis elaborados. É jogo rápido: topa ou não topa?, onde? quando? Tão eficiente que não dá para se sentir rejeitado, nem quando você, sem o saber, é descartado - ou porque você é feio ou desenxabido, ou simplesmente não corresponde ao perfil de nenhuma das pessoas em trânsito no site. Experimente identificar-se como gari. Vai mofar no Tinder. 

Virou o passatempo favorito, para não dizer permanente, da rapaziada que cresceu odiando Justin Bieber e cobiçando Taylor Swift e Miley Cyrus. Embora unissex, ganhou fama de delivery sexual preponderantemente masculino. Pior: misógino e machista, o que dá no mesmo. As garotas à la carte, também conhecidas como tinderelas, reclamam de que se sentem reificadas, desvalorizadas, mercadejadas, mas não abandonam o viciante tráfico. 

“É raro encontrar um cara que nos trate como uma prioridade em vez de uma opção”, desabafou uma tinderela, que se sentiu a última das mulheres quando o parceiro com quem passara a noite não a olhou de manhã enquanto ela se vestia para ir embora, nem lhe disse tchau, pois já estava com os olhos pregados no celular, à cata de mais uma parceira no Tinder.

Essa é uma das muitas histórias contadas por Nancy Jo Sales, na edição de setembro da Vanity Fair. Num longo artigo-reportagem em que compara a paquera online do Tinder a um “apocalipse do relacionamento”, Sales faz um retrato implacável do cio móvel facilitado pelas novas tecnologias. 

Sua peregrinação pelo mundo da transa vapt-vupt parte de um dos bares mais frequentados pelos mauricinhos da Bolsa de Nova York, os Gordon Gekkos da satiríase, e pelas patricinhas mais desfrutáveis de Manhattan. Todos imersos nas telas de seus smartphones (Norman Mailer não resistiria à tentação de apelidá-los iFucks), das quais não desgrudam nem para enfatizar alguma observação mais cafajeste sobre alguma tinderela. 

Sales desanca a “cultura da pegação” e da “gratificação instantânea”, sem reconhecer que outras serventias os sites de relacionamento podem ter e têm, notadamente em regimes ditatoriais, como China, Paquistão e Coreia do Norte, sem acesso às mídias sociais corriqueiras. O pessoal do Tinder protestou, no início da semana, contra a Vanity Fair e alguns erros de informação da matéria (apenas 1,7% e não 30% dos usuários do serviço seriam casados), mas o apocalipse afetivo pintado por Sales não é um exagero.

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