'Maldição é ser brasileiro pobre'

Escritor de 'Cidade de Deus' não vê milagres do governo que salvem a favela de sua sina: excluir

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2009 | 03h22

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Ele ainda não decantou o olhar sobre São Paulo. Depois da viagem a Medelín no final de setembro, a volta rápida ao Rio, outra em seguida a Bogotá e mais uma na mira a partir de hoje, rumo ao México, Paulo Lins quer sentar sobre a mala e parar. De preferência com o filho de 4 anos à mão, que foi por isso que ele se mudou do Rio para a capital paulista: para ficar perto do "neném", que mora com a mãe, nativa de São Paulo. Longe da vista para o Cristo, o poeta, professor, roteirista de Cidade de Deus, Quase Dois Irmãos, Era uma Vez..., Cidade dos Homens e Faroeste Caboclo (ainda por filmar), afora um livro sobre samba na agulha, está meio perdido - mas não a ponto de não poder dar esta entrevista ao Aliás. Aceitou conversar sobre o destino das favelas ao saber do incêndio que desalojou 350 famílias da Diogo Reis, no bairro do Jaguaré, no domingo.

 

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Não que o fogo lhe seja fato novo. Cidade de Deus, onde morou dos 7 aos 23 anos, inflou a partir de moradores fugidos de incêndios e enchentes que assolaram o Rio de Janeiro nos anos 60. O próprio conjunto habitacional esteve sob as chamas, sabe-se lá se criminosas ou não. "Não dá para afirmar, mas dá para deduzir", afirma, remetendo a uma concentração de pessoas nem sempre benquista pela especulação imobiliária, mas que veio a calhar à exclusão social. Mordaz nas críticas, Paulo pede uma reforma agrária na cidade, um espalhamento dos negrados pela sociedade. E que se deixe de lado essa coisa de praga dos deuses, como cogitou um desabrigado da Diogo Pires. "Maldição é ser brasileiro pobre, isso é que é maldição."

ESTOPIM INVISÍVEL

"A favela tem um sistema de fiação horrível, não há segurança alguma ali. Depois de um incêndio desses, não se pode dizer que a maldição ronda o lugar. Quem é essa gente? Quem é esse favelado? São os negrados, negros e descendentes de nordestinos. Quando você fala em nordestino, está também falando de índio. Não são europeus, nem árabes, nem asiáticos. É um povo invisível, para o qual a sociedade só dá atenção temporária quando acontece uma desgraça assim ou quando esse povo comete violência. Enquanto está morrendo de fome, de fogo, de frio, ninguém liga.

A NEOFAVELA

"Neofavela é o novo gueto, o gueto oficial. Chamo todos os conjuntos habitacionais de neofavela. Chamo a Cidade de Deus de neofavela. No Rio, mais que abrigar os flagelados de 1966, 1968, essas áreas foram pensadas para "limpar" a zona sul como se fez em São Paulo, onde os indesejáveis foram levados do centro para a periferia. Construíram e constroem apartamentos horríveis bem longe e largam aquele monte de pobre junto. Aí o Estado - a sociedade também, porque tudo o que o Estado faz é porque a sociedade permite - coloca armas e drogas na neofavela. Some-se a elas a corrupção e dá no que dá: violência.

PROMOÇÃO?

"Discordo do presidente quando ele diz que as favelas vão virar bairros, e assim todos os problemas vão se acabar. Primeiro, não adianta trocar de nome. Do dia pra noite, Capão Redondo não é mais favela, é bairro. Isso vai mudar alguma coisa se continuarem confinando os negrados ali? Não. Também acho uma insensatez o Minha Casa, Minha Vida. Por que não distribuir essas pessoas na cidade? É refazer o que já não deu certo. Fui à Santa Marta ontem. Colocaram aquele tanto de policial lá, o tráfico foi embora. E os bandidos? Recuperaram alguém? Deram emprego? Preferiram uma lan house com cem computadores. Isso não é um investimento sério em ensino.

NA TERRA DE JAMELÃO

"As favelas são muito parecidas no mundo todo, mas as do Rio têm um diferencial cultural: morar na Mangueira, por exemplo, é morar na Mangueira. É terra de grandes compositores, adorados por toda a sociedade, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, Carlos Cachaça, Jamelão, e agora Ivo Meirelles. O mesmo acontece com quem mora no Salgueiro, em Madureira, em Padre Miguel. Em São Paulo tem a cultura do rap, ainda sem aquela tradição. Os artistas das favelas paulistanas estão aparecendo agora, mas são muito discriminados. A discriminação racial em São Paulo, por sinal, é muito maior que no Rio. Aqui há muitos seguranças, e se a sociedade é racista, os seguranças também são. Além disso, as ruas de rico de São Paulo não são caminho de pobre. No Rio, para subir até a Rocinha tem que andar em São Conrado, para ir ao Pavãozinho tem que andar por Copacabana. Mas, em termos de racismo no País, acho que ninguém bate a Bahia. É uma coisa acirrada, e o preconceito é forte por parte dos próprios negros. O filho de uma amiga, que é branco e vive em Salvador, às vezes diz pra mãe que queria ser negão.

RG DE MORADOR

"Na favela moram os trabalhadores. Tem servidor público, militar de baixa patente, empregada doméstica. É o sujeito que a gente vê todos os dias nas ruas, na portaria do prédio, é aquele que chega para consertar a TV, para cozinhar, para cuidar dos nossos filhos, para entregar uma conta ou uma pizza. Se ele pudesse morar mais perto, seria mais feliz porque não precisaria ficar duas horas num ônibus para bater ponto no trabalho. A cidade comporta. Tem muito lugar vazio dentro dela. Tudo bem, não vai caber todo mundo, não será uma reforma tão democrática e ampla, mas construir casas é uma forma de roubar. Se comprar é muito caro, a longo prazo não vai ser. Caro é botar polícia, matar pessoas, ocupar favela para acabar com a violência porque, se aglomerar gente pobre e muni-la de drogas e armas, vai ter violência e ressentimento. Para o favelado, a classe média é rica. Existe um rancor social. Antigamente, o sujeito assaltava e deixava os documentos para o cara pegar um táxi, um ônibus. Hoje mata com crueldade. E, dentro da favela, o tráfico dá segurança, mas é uma segurança falsa. Há invasão de inimigos, pode sobrar bala perdida. Se os policiais sobem a favela, também. Só está seguro na cidade quem já morreu.

O TRIPÉ DA VIOLÊNCIA

"A polícia brasileira sempre foi corrupta. Não existe poder paralelo, o crime está dentro do poder. Só tem violência porque tem racismo, corrupção e pobreza. É um tripé. Não pode haver crime organizado sem corrupção. Não pode ter tráfico de armas sem corrupção. Dá para plantar maconha na favela? Dá. Dá para produzir cocaína ali? Difícil... Agora, dizer que se pode fabricar armas na favela, isso não. Não pode.

PODER SOLITÁRIO

"Mudou muito o perfil do chefe do tráfico no Rio. Hoje não é mais o negro, mas o nordestino. Em São Paulo, aliás, já é assim há muito tempo. O negro carioca que está no morro há anos já construiu sua rede de solidariedade, saiu da linha da miséria. O nordestino, não. Muito migrante chega sozinho, às vezes fica 15 anos sem ver o pai, 20 sem ver a irmã. Vem para trabalhar, não tem dinheiro para voltar. E felicidade é estar com a família. Então tem muito nordestino envolvido com o tráfico. Houve um upgrade para os negros. Os nordestinos não conseguiram isso ainda, eles estão fora da terra deles.

ACONCHEGO

"Houve um tempo em que o lugar em que eu mais me sentia bem no Brasil era no morro. Ali eu não era discriminado. Neste restaurante, por exemplo, só tem eu de negro. Geralmente é assim nos lugares em que há pessoas de maior poder aquisitivo. Você vê a discriminação racial o tempo todo. O problema não é a cor, o problema é a grana. Mas quem tem a grana? No Brasil não existe ascensão social. A sociedade não lhe permite isso. Só alguns conseguem esse acesso, e por meio do futebol, da música e da arte popular -- e arte popular, não erudita. Então é outro universo, totalmente inalcançável. Quando saí da favela, eu tinha 23 anos. Entrei na universidade, descobri outro mundo. Ainda assim, por muito tempo só me aconchegava lá. Não porque a favela seja boazinha, ela é ruim. Mas eu não era aceito do outro lado".

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