Maldição enfadonha

Mein Kampf (Minha Luta), escrito por Adolf Hitler, é um livro maldito. Trata-se, provavelmente, da obra mais execrada da historiografia do século 20, um dos principais símbolos do regime mais odiado desse período, senão de toda a história. Por essa razão, sua reedição, na Alemanha, estava até recentemente cercada de interdições. Temia-se, não sem razão, que a liberação de um livro tão identificado com o pensamento hitleriano pudesse disseminar ainda mais essa ideologia hedionda, alimentando o antissemitismo feroz que dele transborda. No entanto, a obra passará ao domínio público em 2015. Nessa ocasião, o respeitadíssimo Instituto de História Contemporânea de Munique, comissionado pelo governo da Baviera, pretende lançar uma edição comentada de Mein Kampf - e nem todo o provável cuidado que o instituto terá ao lidar com o texto de Hitler é suficiente para afastar o receio de que, uma vez em circulação sem nenhum tipo de censura, o livro se torne imediatamente difusor das ideias nazistas. Em razão disso, muitos defendem que Mein Kampf permaneça proibido. Trata-se de um equívoco.

MARCOS GUTERMAN, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2014 | 02h09

O texto de Hitler é daqueles casos em que o livro é muito mais comentado do que lido. Enfadonha, mal escrita e pretensiosa, a obra chegou a ser distribuída pelo regime nazista a todo casal recém-casado na Alemanha, como um presente do Führer. No entanto, havia gente dentro do próprio regime que não havia lido o livro - Reinhard Heydrich, o executor da Solução Final, nunca ouvira falar de Mein Kampf até pelo menos 1930, quando conheceu sua futura mulher, que, nazista convicta, lhe apresentou a obra.

Tudo o que Hitler tinha a dizer, muitas vezes sem nenhum constrangimento ou desejo de esconder suas verdadeiras intenções, ele o fazia em seus discursos - e não se tem conhecimento de que esses pronunciamentos, carregados de ódio, estejam proibidos. Muito ao contrário: eles constam de qualquer dos livros mais respeitados da historiografia sobre o nazismo e integram antologias documentais, como a clássica obra de Max Domarus The Essential Hitler, que reúne todos os discursos do ditador.

Ademais, há livros e textos muito mais virulentos que Mein Kampf e que não são objeto de censura. Um bom exemplo é o diário de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler. Nele, por exemplo, encontram-se, sem subterfúgios, descrições dos judeus como se fossem animais. A propósito dos judeus que ele viu no gueto de Lódz, na Polônia, Goebbels fala da necessidade urgente de exterminá-los (vernichtet): "É indescritível. Eles não são mais seres humanos. São animais. Assim, não se trata de uma tarefa humanitária, mas cirúrgica. Do contrário, a Europa perecerá graças à peste judaica".

Textos como esse circulam livremente e estão nas melhores livrarias do mundo. Mesmo que não estivessem, mesmo que, por hipótese, todas as diatribes pronunciadas ou escritas por nazistas e seus simpatizantes fossem proibidas de uma hora para outra, o acesso a essas obras estaria garantido: basta ter um computador ligado à internet e entrar nos sites de livrarias virtuais, como iTunes e Amazon, ou em diversos sites neonazistas, inclusive com tradução para o português. Na loja do iTunes, por exemplo, duas versões do Mein Kampf apareciam em 12º e 15º lugar entre os e-books de "política e atualidades" mais vendidos em janeiro.

Por essa razão, até mesmo a Liga Antidifamação (ADL, em sua sigla em inglês), principal entidade judaica dedicada a combater o antissemitismo no mundo e que por décadas defendeu a censura ao Mein Kampf, rendeu-se às evidências de que proibir a circulação, neste caso, é simplesmente inútil. No mês passado, a ADL decidiu publicar um prefácio ao Mein Kampf para ser anexado pelos editores do livro na forma de e-book, de modo a alertar os leitores sobre a natureza do texto e seu papel na disseminação do ódio aos judeus. "Acreditamos que a única forma construtiva de publicar o livro seja com uma introdução que explique seu contexto histórico e o impacto do pensamento por trás das palavras de Hitler", diz o texto da ADL. A edição que o Instituto de História Contemporânea de Munique pretende lançar tem o mesmo objetivo.

A precaução é obviamente necessária. Mein Kampf não é um livro qualquer. É o "livro sagrado" do nazismo, como salientou Victor Klemperer, o linguista judeu que permaneceu na Alemanha durante o nazismo e descreveu em seus diários a destruição da civilização naquele país. A obra de Hitler guarda esse simbolismo e deve, portanto, ser cercada de cuidados especiais. Mas proibi-la seria privar os historiadores e outros interessados na Alemanha nazista de um texto fundamental. Trata-se de um documento de rara importância, pois lá estão delineados os projetos de extermínio dos judeus, na luta racial de vida ou morte que Hitler vislumbrou quase uma década antes de chegar ao poder.

Ademais, manter a obra indefinidamente sob censura é inútil principalmente porque os antissemitas não precisam de Mein Kampf para nutrir seu ódio aos judeus. Não é um livro que guarda o espírito do Mal.

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