Maniqueísmo de novela

A realidade anda dividida entre a sociedade, sempre virtuosa, e o Estado e a elite, sempre maldosos

Jessé Souza*, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2007 | 21h48

Provavelmente, não existe assunto que melhor exprima a pobreza do debate público brasileiro do que o tema da violência. Os artigos de quem intervém como especialista nesse assunto, invariavelmente, terminam com acusações à inépcia e à corrupção do Estado e de seus agentes ou à perversão de uma suposta "elite maldosa" que ninguém nomeia. A ingenuidade desse tipo de abordagem é facilmente demonstrável. Ela atribui características "subjetivas" a atores sociais coletivos amesquinhando a reflexão ao nível do senso comum e permitindo, como nas novelas, a divisão clara entre bons e maus e a atribuição de toda "culpa" a um "outro". Impossível não pensar aqui no conceito central do debate sociológico brasileiro, ainda hoje dominante entre nós, do "patrimonialismo" que simplifica e subjetiviza uma realidade complexa como o Estado reproduzindo esquemas interpretativos do senso comum. Em ambos os registros, nós, a sociedade, somos sempre solidários, virtuosos e vítimas e o Estado e uma vaga elite são sempre a incorporação da corrupção, da ineficácia e da maldade. O efeito prático e político desse tipo de análise é permitir a perpetuação de uma sociedade auto-indulgente permeada por consensos perversos que jamais são articulados, discutidos e criticados. É apenas esse contexto, de extra-ordinária pobreza reflexiva em múltiplas dimensões, que torna possível reduzir a questão social brasileira contemporânea de curto e médio prazo à luta entre polícia e traficante. É esse mesmo contexto empobrecedor que permite reduzir nossas esperanças de longo prazo de diminuição da desigualdade à palavra de ordem abstrata "escola", esquecendo-se que o sucesso escolar e, conseqüentemente o, sucesso no mercado mais tarde já estão decididos de antemão na herança familiar construída, de modo invisível posto que "privadamente", muito antes da escola. Pensar a política e a dinâmica do poder moderno segundo noções subjetivistas é pensá-la, para usar os termos de Michel Foucault, como uma "teoria da soberania" pré-moderna, com "pessoas" ocupando e incorporando os sinais visíveis de poder e prestígio, como presidente, senador, deputado, etc. Essa é uma "teoria política para os tolos", cuja eficácia é possível pela exposição midiática cotidiana desses signos superficiais de poder, combinado ao processo de encobrimento sistemático dos consensos pré-reflexivos que perpassam a sociedade como um todo e que definem, eles sim, os limites e possibilidades de toda ação política estatal ou não. Pior ainda. A ênfase na política explícita, performática e teatralizada, que tanto serve a forma televisiva fragmentada e esteriotipada, na verdade, esconde a realidade política efetiva e mais importante deixada às sombras. Dito de outro modo, as "políticas públicas explícitas", muitas vezes apenas teatro e aparato simbólico de legitimidade construída, escondem as "políticas públicas implícitas" que são tão mais eficazes quanto menos conscientes e percebidas. Por exemplo, sabemos que a execução de fugitivos desarmados como vimos com regozijo ou choque, na TV, possui altíssimo apoio popular em todas as classes. As cenas chocam porque foram filmadas, mas o extermínio de "bandidos", ou de pessoas pobres que não são bandidos e que habitam as mesmas favelas, é uma "política pública implícita" com alto apoio popular e de prática cotidiana. Mas o mesmo consenso existe, ainda que silencioso e nunca articulado, para outras "políticas públicas implícitas" como a de um sistema de saúde pública que mata aos milhares cotidianamente por descaso e precariedade e nunca vira notícia. Ou ainda uma escola pública cuja má-fé institucional permite incutir, nos próprios pobres, vítimas de abandono secular, que seu fracasso escolar é culpa da própria vítima. A criança pobre, sem estímulos em casa para aprender, passa a se ver como burra, incompetente e preguiçosa cumprindo a promessa que a sociedade lhe legou. A leitura dominante que separa esse consenso de outros semelhantes quebra, por miopia intelectual e política, o vínculo entre a violência explícita contra o bandido pobre da violência simbólica implícita exercida por meios simbólicos e materiais em relação a toda uma "ralé" de desclassificados brasileiros que perfazem cerca de 1/3 da população. Na verdade, o processo de modernização brasileiro excluiu de modo permanente uma "ralé" (termo que uso provocativamente em meus livros num país onde a auto-indulgência é esporte nacional) que só possui o próprio corpo e o vende pelo melhor preço, o qual que é sempre baixo: seja como prostituta ou empregada doméstica para as mulheres, seja como trabalho muscular desqualificado ou como delinqüência aberta para os homens. Essa classe social é "moderna" posto que excluída socialmente pela ausência de incorporação dos capitais impessoais modernos - capital econômico e capital cultural - que materializam os critérios objetivos que divide o mundo entre ricos e reconhecidos e pobres e humilhados. A incorporação diferencial desses capitais decide sobre quem terá acesso à riqueza, prestígio e reconhecimento social tanto no mercado competitivo moderno, que pressupõe uma economia emocional e cognitiva que exclui a "ralé" precarizada, quanto no Estado e na esfera pública moderna pela incapacidade de articulação de seus interesses de longo prazo. A violência dessa exclusão jamais foi percebida adequadamente seja no nosso debate acadêmico, seja no nosso debate público. O delinqüente não é apartado dessa classe. Ele é apenas sua forma rebelde e mais desesperada. Ela é a ponta visível do "iceberg". Perceber isso é também compreender o Brasil e seus problemas de modo novo. É também abandonar o narcisismo infantil que externaliza culpas e responsabilidades e torna impossível uma autocrítica corajosa que é o único caminho para qualquer aprendizado verdadeiro, seja na dimensão individual, seja na dimensão coletiva. Já não é sem tempo. *Jessé Souza é doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg, Alemanha, e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG)

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