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'Mank' reflete sobre a figura do roteirista de 'Cidadão Kane'

Filme de David Fincher produzido pela Netflix lança luz sobre Herman Mankiewicz

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2020 | 16h00

Gostei de Mank, mas não o recomendo a qualquer um. A quem nunca viu Cidadão Kane, de jeito nenhum. Aos demais, se pouco íntimos da gênese do filme de estreia de Orson Welles e do Zeitgeist político e cultural da América nas décadas de 1930 e 1940, aconselho cautela e paciência: Mank, embora dirigido (por David Fincher) e fotografado (por Erik Messerschmidt) com um capricho à altura de seu elenco exemplar, pode lhes provocar enfado e até uma certa impaciência.

Diferentemente daquele docudrama sobre o diretor Michael Curtiz e os bastidores de Casablanca, também exibido pela Netflix, Fincher não aborda as filmagens da magnum opus de Welles. Interessava-lhe explorar apenas o que veio antes, os prolegômenos do projeto. 

Seu protagonista, exuberantemente encarnado por Gary Oldman, é Herman Mankiewicz (1897-1953), não Welles (Tom Burke), que aparece pouco, para discutir detalhes do primeiro tratamento de um script que a princípio se intitulava American e sempre suscitou polêmicas a respeito de seu verdadeiro autor. Quem, afinal, o escreveu, Mank ou Welles? 

Fincher não perde tempo com essa controvérsia, reavivada pela crítica Pauline Kael, na revista The New Yorker, na década de 1970, depois em livro (Criando Kane), e desmentida, com igual veemência, por outros estudiosos do cinema de Welles, com destaque para Robert L. Carringer, cujo ensaio The Making of Citizen Kane, editado em 1985, encerrou a questão. Sua maior dívida Welles contraiu com o diretor de fotografia Gregg Toland, não com Herman.

Baseado num argumento que Fincher herdou do pai, Jack Fincher, e parecia reforçar a tendenciosa tese de Kael, favorável ao roteirista, Mank termina antes do início das filmagens de Cidadão Kane, com uma coda alusiva à entrega dos Oscars de 1942, quando a Academia de Hollywood dividiu a premiação de “melhor roteiro original” entre Welles e Mank, o único laurel que o filme, candidato a mais oito estatuetas, arrebatou. 

A dupla não compareceu à entrega dos prêmios. Welles, aliás, estava no Rio de Janeiro na noite do Oscar.

Muito mais do que um escravo do álcool e da jogatina, que lhe abreviaram a carreira de prolífico e exitoso roteirista em alguns estúdios de Hollywood e, por fim, a própria vida, Mank foi, como Welles, uma figura “bigger than life”, uma lenda viva. Suas tiradas irreverentes, não raro cáusticas, deliciavam a intelectualidade e a alta burguesia do eixo Nova York/Los Angeles. 

Para o crítico e frasista Alexander Woollcott, seu confrade na legendária Round Table do Hotel Algonquin, ele era o homem mais engraçado de Manhattan. Ben Hecht, decano e guru da turma, apelidou-o de “o Voltaire do Lado Leste do Central Park”. 

Mank começou jornalista e assessor de imprensa (Isadora Duncan foi sua cliente, em Paris), fez crítica de teatro no New York Times e na New Yorker, até que acumuladas dívidas de jogo o fizeram abandonar tudo para verificar in loco se Hollywood era mesmo aquela ensolarada cornucópia alardeada por Hecht (“dólares a rodo e só idiotas na concorrência”), que foi o primeiro da turma a se mandar para a Califórnia.

A sequência em que Hecht (Jeff Harms) faz breve aparição, no bunker de roteiristas da Paramount, é um desafio ao know-who dos espectadores. Quem souber quem foram e o que deu fama a George Kaufman, S. J. Perelman, Charlie MacArthur e Shelly Metcalf, além do próprio Hecht, vai curtir em dobro. 

O factotum Metcalf nunca existiu, pura invencionice do filme para cumprir determinada função sobre a qual me calo para evitar spoilers. Senti falta, naquele reduto, de Dorothy Parker, outra egressa do Algonquin sob contrato com a Paramount.

Charles Lederer, a quem esses roteiristas e comediógrafos de língua afiada são apresentados por Joe (Joseph) Mankiewski, irmão mais novo de Herman, assinou roteiros para Howard Hawks, chegou a dirigir três filmes, mas seu maior trunfo era ser sobrinho da atriz Marion Davies e comensal de San Simeon, o faraônico castelo que o magnata da imprensa William Randolph Hearst, a derradeira inspiração para Charles Foster (Cidadão) Kane, construiu para Davies, sua eterna amante, na costa californiana. Joseph Cross, Amanda Seyfried e Charles Dance foram escolhas felizes para aqueles papéis. Não erram uma nota.

Foi Lederer quem ligou Mank a Hearst, que se deleitava com a presença e o humor cintilante do roteirista, até que se cansou de suas carraspanas e vitupérios, e o baniu de seus domínios. 

Terá sido a escolha de Hearst como modelo de Kane um ato de vingança? Talvez sim. Mas Welles, que convidara Mank para integrar a equipe do Mercury Theater, transferida para Hollywood sob supervisão de John Houseman (Sam Troughton), também já o tinha em seu rol de opções, encimado pelo magnata do petróleo (e mais tarde dono da RKO) Howard Hughes e o ex-presidente Theodor Roosevelt, que se apossara de Cuba com a ajuda da cadeia de jornais de Hearst.

É possível que alguns espectadores fiquem com a impressão de que Cidadão Kane foi produzido pela Paramount ou na MGM, não na modesta RKO. Louis B. Mayer (Arliss Howard), o poderoso chefão da Metro, era um dos mais assíduos habitués de San Simeon e até por isso aparece mais no filme que Welles e seu fiador na RKO, George Schaefer.

Comparsa ideológico de Hearst, o reacionário Mayer, simpático ao nazismo apesar de judeu, entrou de cabeça no vale-tudo contra a candidatura do democrata progressista Upton Sinclair à governança da Califórnia em 1934, numa eleição difamante, movida a fake news e sórdida propaganda direitista, vencida pelo republicano Frank Merriam. É um dos pontos mais altos do filme. 

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