Manual bananeiro do desconforto

Com apenas 7 mandamentos, governo hondurenho consegue infernizar a vida na embaixada brasileira

Roberto Simon*,

25 de outubro de 2009 | 01h14

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A mudança de ânimo dos guardas que vigiam a embaixada brasileira em Tegucigalpa é o primeiro sinal de que o carro da ONU está para chegar. Ficam ouriçados. Com fardas gringas, rosto coberto e máquinas de filmar em riste, avançam as barricadas que cercam missão e de lá de trás vêm farejando tudo. Embica, então, o furgão branco. Tem início a Operación Tortilla Brasileña, momento catártico dos quatro meses de impasse hondurenho.

O primeiro a esticar o pé para fora do carro da ONU é o brasileiro Sérgio Guimarães, chefe do Unicef de Honduras. A Cruz Vermelha abandonou o barco. Sobrou para ele, ex-professor de literatura brasileira em Lyon, devoto de Graciliano Ramos e coautor de um punhado de livros com Paulo Freire, assumir o abastecimento da embaixada brasileira. A operación sai três vezes ao dia desde que o presidente deposto Manuel Zelaya se instalou no sobrado, em 21 de setembro, e leva mantimentos para os quase 50 "hóspedes" entrincheirados na missão. É o único laço real entre eles e o mundo exterior. Seu nome veio do prato mais frequente nas quentinhas entregues aos ocupantes da embaixada.

Religiosamente, os chefões do Exército e da polícia que estão de plantão acolhem Guimarães diante da barricada com um tapinha no ombro. "Sérgio amigo", diz um. Cordiais, os três trocam sorrisos e experimentam jogar conversa fora. O papo dura pouco. ONU e Honduras devem combinar como, quando, por que e por onde entrarão os suprimentos.

As negociações, porém, não correm livres. Todo o ritual de passagem do furgão onusiano está submetido a um estrito e dogmático código de leis, o qual serve de base para o acerto entre as três partes. São Los Siete Mandamientos del Comissionado Pagoaga, em referência à autoridade hondurenha que desenvolveu a técnica do cerco à missão brasileira. "Deus precisou de dez. Pagoaga, só de sete", reconhece Guimarães.

E assim seguem os mandamentos da religião bananeira.

Primeiro: "Comida, só embalada em papel filme". Qualquer alimento in natura está vetado. Guardanapos ou demais materiais tampouco servem. Tem de ser o tal do papel filme. E só.

Segundo: "Embalagens, exclusivamente de plástico transparente, e tapadas". Caixas opacas, portanto, nem pensar.

Terceiro: "Latas e coisas que possam ser novamente fechadas ¡No pasarán!" (note-se o recurso à advertência clássica). Em outras palavras, nenhuma embalagem que eventualmente possa servir para conservar coisas entra.

Quarto: "Frutas, só com prescrição médica". Essa regra ninguém sabe explicar.

Conclui-se, assim, o conjunto de quatro leis fundamentais de Pagoaga que guiam, exclusivamente, o ingresso de comidas no território brasileiro de Tegucigalpa. Nos primeiros dias, cães enfiavam o focinho nas marmitas. Guardas argumentavam que zelaystas "eram como cachorros". Mas, no fim, a ONU conseguiu evitar o acinte canino e os homens da revista gastronômica foram persuadidos a usar, pelo menos às vezes, luvas cirúrgicas.

Os próximos dois mandamentos são de outra ordem, a qual poderia ser etiquetada de "utilidades". Como qualquer código religioso, as sete leis de Pagoaga tiveram de se adaptar à evolução histórica. Os dias de Zelaya na embaixada viraram semanas, que se tornou um mês, e as unhas dos hóspedes ficaram grandes demais. Surpreendido, o oráculo inovou.

Quinto: "Cortadores de unha - entrega hoje, devolve amanhã". O apetrecho só pode permanecer 24 horas dentro da embaixada. A ONU obedece. Dá num dia, recolhe noutro.

Antes de Zelaya tomar conta da missão brasileira, a casa só funcionava de dia e nem todos os soquetes tinham suas respectivas lâmpadas. Contudo, o lugar subitamente passou a ter 300 inquilinos permanentes. Faltou luz. Preocupado, o representante do Itamaraty no sobrado, Lineu Pupo de Paula, decidiu encomendar oito lâmpadas à ONU. Pagoaga não gostou. Chegou a sofismar que "luz não é humanitário", no que foi surpreendido pelo contra-argumento de Guimarães. "E se um médico tiver de tratar alguém no escuro?" Veio então a ordem superior de número seis.

Sexto: "Lâmpada queimada, lâmpada trocada". Explica-se: para ganhar uma luz nova em folha, é precisa apresentar outra cujo filamento esteja visivelmente roto ou rompido. A proporção é de um para um, inexoravelmente.

O sétimo mandamento de Pagoaga fica sozinho na taxonomia das leis fundamentais do cerco ao Brasil. Ele é sui generis e surgiu depois de Zelaya tapar com papel alumínio as janelas do quarto que ocupa na embaixada. O presidente deposto dizia estar sendo vítima de enigmáticos ataques com raios.

Sétimo: "Papel alumínio, zero". Voltou-se ao papel filme.

Mas enganam-se os que pensam que, nessa história toda, Pagoaga encena o Deus da agressão à missão brasileira de Tegucigalpa. Ele é mais uma espécie de Moisés: apenas revela as tábuas da lei. A prova cabal dessa submissão veio de uma norma suplementar, instaurada por um decreto do próprio presidente de facto, Roberto Micheletti. Ex-cupincha de Zelaya no Partido Liberal, Micheletti deve ter se lembrado que o presidente deposto sofre de dores crônicas nas costas. Então, com uma ordem executiva, emergencial, vetou os travesseiros ortopédicos. Por tabela, colchões, colchonetes, sleeping bags, almofadas, encostos de carro e similares também se tornaram ilícitos no enclave brasileiro.

Observado o código de Pagoaga e seus anexos, Guimarães e os chefes da polícia e do Exército de Honduras celebram, a cada vez, um novo acordo. Outro tapinha no ombro, sorrisos, mais papo jogado fora. O pracinha levanta a cancela e o furgão da ONU, devagar, desliza área restrita adentro. Do outro lado das grades, guardas reviram e filmam os mantimentos. Querem ter tudo registrado. Proíbem mais um bocado de coisas de acordo com seu (cada vez pior) humor e, ao final, deixam os funcionários internacionais chegar até o portão da missão. De lá, os zelaystas assumem. A ONU, enfim, pode se retirar do novo altar da teologia bananeira, a embaixada do Brasil.

*Enviado especial do Estado para cobrir a crise em Honduras

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