Mão de Deus

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O big-bang não exigiu nenhuma intervenção divina, afirma filósofo, contrariando o papa

Paolo Flores d’Arcais, O Estado de S. Paulo

01 Novembro 2014 | 16h00


Sem se dar conta, o papa Francisco demonstrou mais uma vez que ciência e religião são incompatíveis. Falando aos membros da Pontifícia Academia de Ciências reunidos em sessão plenária, Francisco declarou que “o big-bang, hoje entendido como a origem do mundo, não contradiz a intervenção do divino criador, mas a exige”.

A afirmação é falsa, talvez até duplamente falsa. A teoria do big-bang não exige absolutamente a intervenção divina. Nenhuma teoria e lei científica, aliás, jamais exigiu que se recorresse a Deus como hipótese. O grande Laplace, respondendo a Napoleão Bonaparte (na época, Primeiro Cônsul), que o recriminava por “não ter deixado espaço para a ação do criador” em suas análises matemáticas e astronômicas, respondeu: “Cidadão Primeiro Cônsul, não precisei de tal hipótese”.

A ciência é autossuficiente. Até o presente momento, ela reconstituiu o que aconteceu a partir da infinitesimal fração de segundo após o big-bang (1 elevado a menos 37, uma dimensão temporal tão ínfima que é difícil até imaginá-la). Ela não sabe ainda o que aconteceu “antes”, ou se aconteceu algo, mesmo porque “antes” já implica a existência da dimensão temporal. Mesmo outro universo. Mas o fato de que, do 1-37 de segundo após o big-bang até agora a ciência seja obrigada a calar-se, não implica minimamente que Deus se torne necessário. Se é admissível nos perguntarmos quem é o criador do big-bang, torna-se ineludível nos perguntarmos também quem é o criador do criador. Se, entretanto, pode-se pensar que uma realidade não tenha sido criada (por exemplo, que Deus, por sua vez, não tenha sido criado), pode-se pensar a mesma coisa em relação ao universo, ao big-bang, à sucessão de universos - em suma, à “Natureza” em sua totalidade. Para a ciência, Deus permanece supérfluo.

Francisco deveria, aliás, ter se lembrado da “navalha de Ockham”, o princípio metodológico segundo o qual quando já se conhece a explicação é proibido fazer hipóteses sobre uma causa adicional. Guilherme de Ockham formulou esse princípio há cerca de sete séculos. Ele não era jesuíta (jesuítas nem sequer existiam naquela época), mas era profundamente cristão e monge franciscano.

O papa Bergoglio, portanto, afirmou algo falso. A teoria do big-bang não exige absolutamente Deus. E acaso o contesta? Se levarmos a sério a navalha de Ockham, sim, porque Deus seria uma explicação complementar e, portanto, proibida do ponto de vista metodológico. Mas, principalmente, Deus e a alma imortal são contestados pela ciência atual em seu conjunto, particularmente pelo darwinismo. A teoria da evolução (que não é mais “teoria”, mas descoberta científica comprovada e certificada por todas as evidências empíricas biológicas e paleontológicas acumuladas neste século e meio que passou desde a Origem das Espécies, 1859, e Origem do homem, 1871), na realidade diz que somos todos “macacos modificados”. Todas as funções que reunimos sob o termo “consciência” dependem do “neocórtex”, a parte do cérebro filogeneticamente mais recente, que, entretanto, nasceu pela evolução do cérebro de nossos antepassados não humanos. Ocorre que o neocórtex é constituído por células que morrem exatamente como as do cérebro dos macacos. E, com a morte do cérebro, morrem todas as funções da matéria cinzenta. Portanto, nossa individualidade, nossa “consciência”, nossa “alma”. “Alma” (ou seja, funções neuronais) que, como a ciência garante, NÃO pode ser imortal.

Em suma, a ciência (darwinismo ou big-bang) não só não exige Deus como o exclui (juntamente com a alma imortal e, portanto com a vida após a morte).

Evidentemente, cada um de nós tem toda a liberdade de continuar tendo sua fé religiosa, de continuar acreditando em um Deus (a propósito, se ele é onipotente, porque permitiu o terremoto de Lisboa ou as pestes? Se é onipotente, não pode ser infinitamente bom, e vice-versa), ou na própria imortalidade após a morte (no paraíso ou no inferno). Mas sempre na consciência de que essa fé é incompatível com a ciência, com a razão (a não ser que inventemos uma razão que vai contra a ciência e, portanto, coincide apenas com nossas opiniões totalmente subjetivas). Aliás, é essa a fé de São Paulo, que reivindica a “insensatez” da cruz. A palavra “insensatez” (São Paulo usou o termo grego moria), opondo-se a razão, aparece nada menos que cinco vezes em poucas linhas na Primeira Epístola aos Coríntios, 1, 17-25.

A fé católica, da qual Bergoglio é o supremo administrador, só poderá pois ser compatível com a ciência se, de acordo com São Paulo, ela declarar explicitamente o próprio caráter de insensatez, de irracionalidade, o salto no absurdo teorizado por outro pensador profundamente cristão, Kierkegaard. O papa Francisco, ao contrário, exatamente como seus predecessores (não apenas Ratzinger e Wojtyla, mas remontando até Pio XII), pretende que o “cientista” seja “movido pela convicção de que, em seus mecanismos evolutivos, a natureza esconde potencialidades que cabe à inteligência e à liberdade descobrir e realizar para chegar ao desenvolvimento que está no plano do criador”. Ele pretende que a ciência possa ser uma serva da fé, exatamente como seus predecessores medievais pretendiam que a filosofia fosse a serva da teologia. Uma verdadeira insensatez. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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Paolo Flores D'Arcais, filósofo e jornalista italiano, é editor da revista Micromega e autor, entre outros livros, de Ética Senza Fede (EINAUDI) 

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