Mão dupla no Estreito da Flórida

Novas gerações nos EUA e em Cuba já não cultuam o maniqueísmo e são propensas a relações pragmáticas

Daniel P. Erickson*, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2009 | 00h25

Após décadas de hostilidade e desconfiança, os Estados Unidos e Cuba estão começando a trocar mensagens conciliatórias de que já é hora de desenvolver uma relação mais pragmática e baseada em interesses. O sinal mais recente de um degelo na relação EUA-Cuba surgiu quando o Departamento de Estado americano anunciou que uma diplomata americana, Bisa Williams, que havia viajado a Cuba para negociar um serviço postal direto com o país, permaneceu discretamente na ilha por mais cinco dias para manter uma série de conversações sobre vários assuntos com autoridades cubanas. Williams, que é subsecretária adjunta para assuntos do Hemisfério Ocidental, já chefiou o escritório de Cuba no Departamento de Estado e é funcionária de carreira do serviço diplomático. Mas o significado desse intercâmbio não deve ser exagerado. Ele surge semanas após o presidente Barack Obama ter renovado a base legal do duro embargo comercial a Cuba que é autorizado pela Lei de Comércio com o Inimigo. Essa decisão de rotina, mas simbolicamente importante, indica que os EUA ainda não estão prontos para abandonar as sanções que continuam sendo a peça central de sua política para Cuba.

Quando candidato presidencial, Barack Obama defendeu vigorosamente a posição de que os EUA deviam se entender diretamente com seus adversários, incluindo países como Irã, Coreia do Norte e Cuba. No caso de Cuba, porém, Obama sabia que qualquer mudança política seria escrutinada de perto pelos exilados cubanos que jogam um papel decisivo na política da Flórida e continuam ferozmente críticos de Fidel Castro. Ao mesmo tempo, porém, a comunidade cubano-americana na Flórida está sofrendo uma mudança geracional e os eleitores mais jovens apoiaram uma abertura para Cuba, apesar de a comunidade como um todo não estar pronta para ver o embargo ser levantado completamente. Assim, Obama tentou equilibrar sua política para Cuba entre o engajamento direto defendido por muitos especialistas em política externa e a preferência por isolamento e sanções que tem sido historicamente respaldada pelos principais exilados cubanos.

Obama é o 11º presidente americano a enfrentar o regime castrista no comando de Cuba, e sua administração continua dividida entre impulsos conflitantes em termos de moldar sua política para a ilha. No correr dos anos a política americana para Cuba evoluiu para uma política complexa, e amiúde contraditória, que aponta para muitas direções. O objetivo do embargo americano é privar o governo cubano de recursos, mas as isenções do Congresso para o comércio agrícola transformaram os EUA no quinto maior parceiro comercial de Cuba, enquanto cubano-americanos remetem centenas de milhões de dólares a suas famílias na ilha todos os anos. Sucessivos governos americanos reservaram milhões de dólares para construir grupos de oposição domésticos dentro de Cuba, mas as leis de imigração vigentes asseguram direito de residência a qualquer cubano que chegar a solo americano, o que permitiu ao governo de Fidel exportar sistematicamente os que sem isso seriam sua mais provável oposição. Dezenas de milhões de dólares foram gastos em transmissões da Rádio e TV Martí para penetrar no "bloqueio de informação" do regime castrista, mas o cidadão americano médio é proibido de viajar para a ilha, a despeito do fato de os contatos diretos entre pessoas terem o potencial de proporcionar uma fonte importante de informação sobre o mundo exterior. Em abril, a administração Obama reafirmou a decisão da administração de George W. Bush de que Cuba é um "Estado patrocinador do terrorismo", apesar de o relatório anexo do Departamento de Estado haver descrito Cuba como um país que "não apoia mais ativamente a luta armada na América Latina e outras partes do mundo", documentado não haver "nenhuma evidência de lavagem de dinheiro associada ao terrorismo ou atividades de financiamento a terroristas" e determinado que Cuba "não deu guarida a nenhum novo fugitivo americano procurado por terrorismo". Ademais, a administração Obama, que deu ênfase especial à diplomacia multilateral, tem se defrontado repetidamente com o fato de que virtualmente nenhum de nossos aliados apoia a continuação do embargo americano a Cuba.

O caminho a seguir não será fácil, mas Obama já reequacionou substancialmente a política EUA-Cuba na adoção de pequenas, mas importantes medidas, como permitir viagens a Cuba e um maior contato de cubano-americanos com membros de suas famílias que ainda vivem na ilha. A administração Obama apoiou uma resolução respaldada por países latino-americanos para levantar a suspensão de Cuba da Organização dos Estados Americanos, o organismo multilateral formado por todas as democracias do Hemisfério Ocidental. Agora, os dois países reiniciaram as conversações semestrais sobre migração rompidas durante a administração Bush, que podem aplainar o caminho para um processo de diálogo mais amplo que inclua as principais questões políticas e econômicas que os dividem. As conversações sobre correio direto ainda não renderam frutos. Sob Obama, o conflito com Cuba parece estar avançando para algum tipo de détente, mas o progresso até agora é frágil e de maneira alguma irreversível.

Aliás, é uma questão em aberto se Raúl Castro e Barack Obama conseguirão traçar um novo caminho na tortuosa relação entre seus dois países. Até certo ponto, isso dependerá de os dois líderes terem a habilidade e a ambição de encontrar um terreno comum enquanto navegam por suas traiçoeiras políticas domésticas em meio a um terreno global em transformação. Mas existe um processo inevitável de mudança geracional que está se desenrolando nos dois lados do Estreito da Flórida. Barack Obama é o primeiro presidente americano mais jovem que a Revolução Cubana de 1959 e ainda não havia nascido quando os EUA romperam relações diplomáticas com Cuba em janeiro de 1961. A comunidade cubano-americana em Miami está evoluindo de maneira importante e começando a adotar posições mais nuançadas sobre como abordar os problemas com sua pátria. Além disso, quase três quartos dos cubanos que permanecem na ilha nasceram após Fidel Castro chegar ao poder, e sua eventual ascensão ao governo poderá trazer a "próxima revolução" de Cuba, um distanciamento decisivo da geração revolucionária que Raúl Castro continua a representar. Somente isso oferece alguma esperança de que o futuro parecerá distinto do presente.

*Membro sênior para assuntos de política americana do Inter-American Dialogue e autor de The Cuba Wars: Fidel Castro, the United States and the Next Generation

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