Mãos de bisturi

Renato Viera, o médico gaúcho que deu à ministra da Casa Civil um novo visual: o de candidata

Elder Ogliari, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2009 | 01h10

Assim, só de bater o olho, o gaúcho Renato Viera (sem o "i" mesmo) não costuma pensar na transformação que poderia fazer, com suas técnicas de cirurgião plástico, em um anônimo, um amigo ou alguém famoso que apareça na televisão. A não ser diante de "algo muito chamativo"- entenda-se, rostos deformados ou precocemente envelhecidos... Nesses casos, suas mãos querem se transformar em bisturis. Mas alto lá! Não foi isso, em absoluto, garante ele, o que aconteceu com a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. A possível candidata à sucessão do presidente Lula, sublinha Viera, nem de longe se enquadraria nas situações que o fazem pensar espontaneamente em cirurgia. "A ministra fez ritidoplastia e blefaroplastia", revela em plastiquês o responsável pelo makeover de Dilma, que reapareceu publicamente na segunda-feira e provocou uma onda de elogios e comentários nas rodas políticas - e fotos nos jornais. A versão de Viera desautoriza as publicadas ao longo da semana, que falaram em bioplastia e implante de material para preenchimento dos sulcos verticais do rosto. O cirurgião, por motivos éticos, não gosta de entrar em detalhes, mas a intervenção que fez, também conhecida como lifting facial, é das mais comuns da cirurgia plástica e consiste em cortes no couro cabeludo, seguidos de descolamento e reposicionamento da pele, com remoção de excessos. Associada ao lifting, a blefaroplastia ameniza as linhas de expressão dos olhos e retira bolsas de gordura das pálpebras. Traduzindo: um rosto mais jovem e suave.Médico reconhecido, porém discreto - daqueles que dizem que a melhor luz é a da sala de operações -, Viera se viu pressionado a explicar a cirurgia mais comentada deste verão pelos 40 telefonemas diários que passou a receber da imprensa. E só rompeu o silêncio depois de autorizado por sua cliente famosa. Ele foi apresentado a Dilma nos anos 90 por amigos comuns e, desde então, ambos se tratam como conhecidos. Foi nesta condição que a ministra procurou o médico. A cirurgia durou uma hora e meia e foi feita na tarde de 20 de dezembro, um sábado, na Moinhos Plastic Center, que tem como sócios o próprio Viera e o também cirurgião plástico Sérgio Panizzon. A clínica está localizada no bairro Independência, em Porto Alegre, a poucas quadras das avenidas e prédios elegantes do bairro Moinhos de Vento. Um horário no fim de semana não foi exclusividade da ministra. "Eventualmente trabalhamos aos sábados", diz o médico. O custo da cirurgia para Dilma é assunto proibido. Viera prefere falar em tese, sobre o que se cobra normalmente. O preço médio de mercado, com cirurgia, anestesista, auxiliar e hospital varia de R$ 5 mil a R$ 12 mil, segundo o médico, dependendo da região e dos recursos da clínica. Quando a conversa muda de rumo, Viera deixa de tergiversar e passa aos comentários longos, às vezes descontraídos, para falar de sua vida e suas origens. Ele conta que passou pela efervescência dos anos 70 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) sem aderir ao comunismo, o que, para a época, era quase uma heresia. Revela também que não ajudou a eleger Lula, mas faz comentários elogiosos ao presidente de República, "um homem que está mantendo o País sob equilíbrio e, sem esquecer os pobres, distribuindo renda". Viera também promete votar em Dilma se a ministra for confirmada como candidata em 2010. "Ela é uma mulher admirável, corajosa, com profunda dimensão humana, extremamente competente, com o perfil da mulher contemporânea brasileira", derrama-se. Cioso da privacidade de seus clientes, o cirurgião critica médicos que expõem intervenções em celebridades. "Isso é antiético", acusa. "Sou das antigas, da velha UFRGS, dos velhos mestres", proclama. Apesar do sigilo, sabe-se em Porto Alegre que Viera operou, por exemplo, a cantora e atriz espanhola Sarita Montiel, protagonista do filme La Violetera, em 1978, por depoimento que ela própria deu à imprensa gaúcha na época. "Ela é minha amiga desde o período que morei em Barcelona (em 1976)", limita-se a comentar o médico, que trabalhou como assistente na Clínica Planas, do mestre catalão Jaime Planas. Ele até admite que tenha entre seus clientes políticos e mulheres de políticos gaúchos, pessoas nascidas no Estado que vivem no exterior e também uruguaios, mas não cita nomes e recusa-se a ser chamado de cirurgião plástico de celebridades ou mesmo a se considerar destacado entre seus pares. "Não existem mais feudos na medicina", sustenta. "Hoje temos centenas de profissionais com o mesmo nível, com a mesma formação, e a gurizada vem a mil."A postura de Viera é reforçada pela percepção de que a cirurgia plástica está democratizada. "De 80% a 90% dos pacientes de qualquer médico da área são pessoas de classe média e classe média baixa", afirma. A ampliação dos serviços, a divulgação dos avanços técnicos e a sensibilidade dos cirurgiões, que aceitam flexibilizar seus preços quando percebem que o cliente precisa de desconto, contribuem para isso. Há também certas mudanças de costumes. Os homens ainda são minoria, mas procuram cada vez mais correções faciais e abdominais. E alguns desses casos comovem o médico gaúcho, como os pacientes de mais de 40 anos que não tiravam a camisa na praia, por causa do crescimento das mamas provocado por alterações hormonais ou acúmulo de gordura, e que abandonam o constrangimento depois de uma lipoaspiração. "A gratificação deles é indescritível", comenta.Com o discurso usual dos profissionais da área, o médico rejeita a ideia de que cirurgia plástica esteja vinculada à futilidade. Ele faz questão de lembrar que a intervenção pode ser recomendada a uma criança com orelhas em abano, alvo de chacotas de colegas na escola, ou a um vendedor de mais idade, preocupado com a aparência e a necessidade de permanecer ativo entre os jovens concorrentes. "A cirurgia te deixa mais coerente com o que tu estás sentindo, não para ficar mais moço, mas para te deixar mais harmônico com o teu interior", filosofa.Guindado repentinamente a personagem da República, Viera não demonstra disposição para os holofotes. Seus hábitos simples podem ser percebidos tanto nas instalações funcionais do consultório quanto no trajar esportivo, que só admite gravata em situações excepcionais. Da vida pessoal, conta que se casou, ainda estudante, com a estilista espanhola Maria del Carmem Ferrer, que lhe deu dois filhos: Thaís (30 anos, também estilista) e Thomaz (24 anos, prestando vestibular para a mesma profissão do pai). O primeiro matrimônio terminou depois de três décadas - mas, há alguns anos, Viera fez uma cirurgia na ex-mulher. Ele agora está casado com a terapeuta familiar Silvana Goss. Sua rotina é dividida meio a meio entre o consultório e a sala cirúrgica: o médico passa em média de quatro a cinco horas por dia em cada. Entre julho e setembro, quando a demanda é maior por causa do verão que se aproxima, Viera faz três ou quatro cirurgias por dia. Enquanto maneja o bisturi, é concentração absoluta. Uma de suas clientes, Laila Pinheiro, 72 anos, mulher do deputado federal Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), conta que tentou estabelecer uma conversa com o cirurgião durante um procedimento sem anestesia geral. "Ele pediu que eu ficasse quieta para não atrapalhar", recorda, acrescentando que o médico costuma surpreender seus pacientes com visitas em casa no período pós-operatório. A escritora Lya Luft também está entre as clientes de Viera. Ela se submeteu a um lifting leve, há 20 anos, quando passava por uma fase pessoal difícil, e conta que a cirurgia trocou "um ar abatido e envelhecido por um descansado". O próprio Viera já se submeteu ao bisturi de seu colega João Eschiletti para a retirada de excesso de pele nas pálpebras e mostra-se disposto a novas operações, "se achar necessário".O cirurgião da ministra nasceu em Sant'Ana do Livramento, em 1947, que fica a 500 quilômetros da capital, e fez-se adolescente na cultura fronteiriça entre Brasil e Uruguai. Tem tanto orgulho de suas origens que, estando onde estiver, e desde que o ambiente permita, levanta-se e faz uma reverência sempre que cita ou ouve citarem sua terra natal. Curiosamente, este gaúcho não gosta de tomar chimarrão - prefere um peixe ao churrasco. Adora declamar poesia em espanhol e as tertúlias musicais, de preferência com algum tango e bossa nova.Foi por desejo do pai, o funcionário de ferragem Alfredo Viera, que Renato e seu irmão, Dácio, se tornaram médicos, uma irmã professora e outra bioquímica. Desde cedo, Viera concordou com o destino traçado pelo pai, no entanto surpreendeu a família ao definir, "lá pelos 12 ou 13 anos", que tomaria o rumo da cirurgia plástica. O menino lia esporadicamente sobre a técnica em notas no jornal A Plateia, de Livramento, e ouvia notícias do assunto nas rádios uruguaias. A percepção de que havia uma técnica nova, capaz de modificar e embelezar as pessoas, fascinava o garoto, era "uma ideia meio mágica". Para sacramentar a decisão, ficou sabendo do episódio do incêndio do Gran Circus Norte-Americano em Niterói, em 1961, no qual o pioneiro da cirurgia plástica no Brasil, Ivo Pitanguy, ajudou em operações reparadoras das vítimas. Estava decidido.Depois de cursar o ginásio em sua terra, Viera seguiu para Porto Alegre, onde se formou médico em 1973. Daquela época, faz questão de declarar a gratidão aos mestres Antônio Costa Estima e Ernesto Marques da Silveira Neto, pioneiros da especialidade na capital gaúcha. Concluído o curso na UFRGS, Viera tratou de buscar residências e estágios no exterior - Espanha, Escócia e Estados Unidos. Rodou o mundo, mas fez questão de voltar à capital gaúcha, em 1978, e de realizar, pelo menos parcialmente, o sonho do pai. Não foi ser "médico operador" em Sant'Ana do Livramento, como queria Alfredo. Mas passava de quatro a cinco dias por mês, por dez anos, fazendo cirurgias reparadoras e estéticas, para brasileiros e uruguaios, na cidade natal. Depois, já sem o pai, levou a mãe para morar em Porto Alegre e reduziu as viagens. Mas jura que não está distante: "Quem nasce na fronteira nunca se afasta".

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