Máquina de regurgitar automóveis

Em São Paulo, sobrados cedem lugar a edifícios. Em cada novo apartamento, dois novos carros. Uma conta rápida e temos o caos

Benedito Lima de Toledo*, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 20h52

"O urbanismo é a arte de satisfazer as funções vitais do homem assegurando uma comunicação satisfatória entre essas funções e os próprios homens. Não se trata de preencher os vazios deixados em um projeto uma vez traçadas as vias expressas e avenidas triunfais." Devemos a definição a Bernard Oudin, de seu livro Plaidoyer pour la Ville (1972).O mesmo autor observa que não há necessariamente relação entre largura das vias e largura de visão. É um tributo pago ao deus Circulação.Entre nós prevaleceu o conceito de que grandes administradores são homens que abrem grandes avenidas, ou alargam as existentes com sacrifício das calçadas reservadas aos pedestres (a exemplo do canteiro central da Avenida Rebouças, em São Paulo).São homens tidos como de visão pela simplória iniciativa de tamponar rios, privando a cidade desse valioso patrimônio paisagístico (como a proposta para tamponar o córrego da Água Espraiada e outros que já desapareceram da paisagem paulistana).Locais que "contam o passado ao presente" e marcos arquitetônicos são apresentados como testemunhas do atraso. Um estacionamento certamente representará maior rentabilidade, afinal o carro é súdito do deus Circulação.Algumas empresas chegam a exigir que seus funcionários graduados utilizem carros dos últimos modelos. Manobristas de alguns restaurantes evitam estacionar à porta carros mais antigos ou malconservados de seus clientes.Não é possível assistir a um noticiário de televisão que não seja interrompido, quatro ou cinco vezes, para apresentação dos últimos modelos de carros potentes vistos circulando em velocidade por estradas vazias, deixando para trás folhas secas esvoaçantes de plátanos. Que tal mostrar o mesmo veículo em um desses congestionamentos quilométricos de fim de tarde? Seria, então, possível constatar que toda essa potência a ser utilizada no transporte individual é impotente no trânsito.O fenômeno gera frustração, estresse e comportamento agressivo, na premissa de que o cidadão que se sentou no carro deixou a educação em casa.A música no trânsito foi utilizada por Gershwin em seu Um Americano em Paris, com o som claro de buzinas. Muito diversas são as buzinadas dos neuróticos que imaginam poder, com esse expediente, empurrar o trânsito auxiliados pelo som de um enxame de motoqueiros.As perspectivas nesse quadro são preocupantes. O número de carros que ingressa no trânsito não encontra correspondência nos que são retirados de circulação. Os carros velhos passam a ser utilizados como veículos de carga pelos pedreiros, encanadores, pintores e seus familiares aos domingos. A especulação imobiliária é outro grande agente desse desequilíbrio. Ruas ocupadas por residências unifamiliares vêem seus sobrados ceder lugar a edifícios. Como cada novo apartamento contará com dois carros, é só fazer a conta para verificar por que as ruas ficam sufocadas com edifícios regurgitando veículos.Em ruas onde há comércio (a exemplo da Avenida Padre Antônio José dos Santos, no Brooklin, São Paulo), as calçadas são loteadas pelos comerciantes. Somente a "seus clientes" é permitido estacionar entre as faixas demarcadas no solo. Os pedestres que se danem pelas sarjetas, disputando lugar com os motoqueiros.Como se vê, urge a retomada da cidade por seus legítimos donos: os cidadãos. O grau de civilização de um povo pode ser medido pela liberdade com que as pessoas podem desenvolver suas potencialidades, por tudo que as cidades lhes têm a oferecer. A urbs é o local de convívio, do encontro em lugares públicos onde as crianças podem se beneficiar da boa insolação que não contam em seus apartamentos.Keneth Frampton lembra que a palavra edifício nos remete ao verbo edificar, que não significa apenas construir, mas, igualmente, educar, estabelecer, fortificar, instruir. Da mesma forma, podemos acrescentar, a palavra urbanidade carrega muito mais riqueza do que aparenta.As relações dos veículos motorizados com as cidades referidas como históricas (por acaso há alguma cidade fora da história?) podem ser catastróficas, a exemplo do que vem ocorrendo com aquelas conhecidas como do "ciclo do ouro".São cidades erigidas a partir de riachos onde se bateava ouro, e que foram se expandindo. Não conheceram traçado regulador em sua origem e se desenvolveram escalando morros. As ladeiras são traço marcante em sua estrutura. O visitante perceberia melhor o assentamento urbano, as serras, os riachos, se circulasse como os garimpeiros do século 18, a saber, a pé ou no lombo da mula. É outro ritmo, outra escala. O ruído das ferraduras das mulas no piso empedrado, ou o ruído solitário da água da fonte na noite silenciosa são insubstituíveis.Mas, ao circular de carro com seu ar condicionado ligado, privado de todo contato com o ambiente pela blindagem dos vidros ou pela luz filtrada dos bloqueadores solares, tudo se reduz à preocupação com as manobras em ladeiras sinuosas, fato que está na origem de danos a monumentos como chafarizes e pontes.Em algumas das antigas aldeias de Portugal, proíbe-se a entrada de veículos. Monsaraz e Óbidos são bons exemplos. Há estacionamento fora dos muros à disposição dos visitantes. Desfruta-se de uma tranqüilidade ao se transitar pelas ruas e vielas e ao se sentar ao fim da tarde para um copo de vinho a acompanhar um prato de borrego. *Benedito Lima de Toledo é professor titular da Faculdade de rquitetura e Urbanismo da USP. É autor, entre outros, de São Paulo: Três Cidades em um Século (Cosac Naify)QUINTA, 21 DE FEVEREIROFrota atinge seis milhões Com média de 800 novos veículos emplacados por dia, a cidade de São Paulo atinge, este mês, 6 milhões de unidades em circulação. O aumento da frota coincide com o crescimento dos congestionamentos e o recorde de arrecadação do IPVA.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.