Editora 34
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Marco da crítica literária, 'Teoria do Romance', de Mikhail Bakhtin, ganha nova edição

Intelectual russo foi um dos principais críticos do século 20 e é incontornável até hoje

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

05 de outubro de 2019 | 16h00

A Editora 34 dá um providencial banho de loja na cultura brasileira lançando três obras de Mikhail Bakhtin de uma tacada só. Com tradução e notas de Paulo Bezerra e sob o título geral de Teoria do Romance, os volumes são designados A Estilística, As Formas do Tempo e do Cronotropo e O Romance como Gênero Literário. São formulações teóricas gerais, ao contrário dos outros dois grandes livros de Bakhtin, apoiados na análise de um autor específico (Rabelais e Dostoievski).

Quem é esse carinha? Bom, poucas estrelas singraram mais vertiginosamente o firmamento crítico no final do século 20 do que Bakhtin. Como observou Tzvetan Todorov em Bakhtin: O Princípio Dialógico, as ideias do teórico russo irrigam todas as ciências humanas, na medida em que ele meteu o bedelho na literatura, linguística, psicologia, antropologia e história social. Mas talvez seja sobretudo um filósofo da linguagem, professando uma “translinguística” que ultrapasse a visão da língua como sistema unívoco.

Bakhtin nasceu em 1895 e morreu em 1975 – ninguém diria que viveria 80 anos, pois a vida judiou dele. Nascido perto de Moscou, se deu com as figurinhas carimbadas do Formalismo russo, que depois meio que renegou, quando sob Stalin a palavra “formalismo” virou opróbrio (um equivalente literário do Trotskismo). Mas o próprio Bakhtin provou a ferocidade do totalitarismo, sendo condenado a cinco anos de trabalhos forçados no Gulag, por seu envolvimento com a Igreja Ortodoxa. Devido à saúde precária (com osteomielite, teve uma perna amputada), a pena foi convertida em exílio no Cazaquistão.

Na primeira (e que eu saiba única) biografia do teórico (Mikhail Bakhtin, de Katerina Clark e Michael Holsquist), vemos o coitado rebolando para sobreviver junto com outros intelectuais, durante as predatórias purgas stalinistas. Bakhtin vegetou em vilarejos jecas, alguns deles pintados por Marc Chagall (em ambos os sentidos: essas casas aparecem em suas telas mais famosas, e Chagall literalmente pintou as paredes delas). Bakhtin era excêntrico e desligadão: deixava discípulos assinarem os seus textos, e mais de uma vez rasgou um de seus manuscritos para fazer um cigarrinho.

Claro que ninguém é perfeito. Um dos maiores enigmas da humanidade é porque por vezes especialistas em escrita... não sabem escrever. Talvez isso explique a lamúria de George Steiner: “Quem seria crítico, se pudesse ser escritor?” Daí talvez a generosa afirmação de Bakhtin, de que vira e mexe os próprios romancistas são os melhores teóricos (Teoria do Romance, III, pág. 73). Nesses três volumes, com suas abstrações às vezes abstrusas, a prosa volta e meia cai num acadamês árido e pedregoso, que parece grafado com uma focinheira na pena.

Felizmente, essa relativa inépcia nunca descamba no hermetismo e muito menos na picaretagem. Bakhtin jamais protagonizaria um episódio como aquele em que Jacques Derrida, debatendo com o filósofo Karl-Otto Apel, pontificou que “a comunicação é impossível”. Quando Apel concordou com ele, Derrida imediatamente fez beicinho: “Opa, então me expressei mal!” Ai, ai, é como disse o bom & velho Jacques Prévert: “Não se deve deixar intelectuais brincar com fósforos”.

Bakhtin cunhou vários conceitos penetrantes e úteis. Um deles é a “carnavalização” (no meu livro preferido do autor: A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento). Não se deve entender a noção no sentido, digamos, Sapucaí – embora a carnavalização pulse em certos aspectos da Semana de 22 e do Tropicalismo. Postula um discurso ambivalente, polifônico, camaleônico, derrisório – uma reconciliação aparentemente impossível entre o velho e o novo, o popular e o erudito, o real e o imaginário, o obsceno e o sublime. Trocando em miúdos, um apolíneo dionisíaco. 

E, claro, a flauta de Pã toca outras marchinhas. Entre eles, o humor, fundamental no gênero romanesco, que, como realça Bakhtin, é paródico, crítico e autocrítico. Bakhtin assinaria embaixo esta opinião de Octávio Paz: “Nem Homero nem Virgílio conheceram o humor – que só toma a sua forma com Cervantes. O humor é a grande invenção do espírito moderno, e uma invenção ligada ao nascimento do romance. O humor não é o riso, a caçoada, mas um tipo especial de comicidade que torna ambíguo tudo que atinge.”

Outra lacrada bakthiana é o dialogismo. Ao contrário da maioria dos linguistas, ele propõe que a unidade fundamental da linguagem não é a sentença, mas outra unidade – o enunciado-em-diálogo, a troca dinâmica entre falantes e ouvintes. Convém assinalar (como Paulo Bezerra o faz no seu Glossário no Volume I), que em russo não existe o verbo “dialogar”. O que Bakhtin quer dizer é que o sujeito, num papo, interage concordando ou discordando, complementando e se construindo ao jogar conversa fora, como num perpétuo e recíproco caleidoscópio. Em suma, somos constituídos pela alteridade – sim, o inferno são os outros, mas o céu também.

Sacadas oportunas nestes nossos tempos tão sectários em que, de novo com George Steiner, “não se discorda mais – odeia-se.”

Enquanto autor e professor de Escrita Criativa, o volume que mais me fez salivar foi o III, fervilhando de formulações pertinentes sobre a identidade do romance. Por exemplo, ao contrário da tragédia e da epopeia, “o romance é o único gênero em formação e ainda inacabado.” Pensavam que James Joyce e sua turma tinham matado a cobra e mostrado o pau? Que nada: o romance é uma obra em obras – talvez por, de novo ao contrário daqueles outros gêneros, não ser mais velho que a escrita e o livro. “O estudo dos outros gêneros é análogo ao estudo de uma língua morta: o estudo do romance é o estudo de uma língua viva.”

As pérolas conceituais de Bakhtin tem a persuasão da evidência irrefutável: “1) “O romance não deve ser ‘poético’ “– na prosa, isso degenera sempre em colesterol verbal cafona 2) “O protagonista do romance não deve ser “heroico”, nem no sentido épico, nem no sentido trágico do termo: deve reunir tanto traços positivos quanto negativos, tanto baixos como elevados, tanto cômicos quanto sérios.” Como costumo ensinar nos meus cursos, o protagonista perfeito (na acepção literária) tem defeitos. 3) “o protagonista não deve ser apresentado como imutável ou acabado, mas em mudança, sendo educado pela vida”. Pois, acrescento eu, se relata não a rotina do mais do mesmo, mas um momento marcante na existência do personagem, em que ele aprende algo sobre os outros, sobre o mundo e sobre si mesmo. 

É por estas e por outras que, pelo menos desde o século 17 a humanidade tem um romance com o romance – e continuam feitos um para o outro, apesar do olho gordo de alguns hermeneutas estrábicos. Valeu, Bakhtin! 

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM (EDITORA INTERMEIOS)

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