Miguel Vidal/Reuters
Miguel Vidal/Reuters

Maremoto negro

Começa nesta terça o julgamento dos responsáveis pelo naufrágio do petroleiro Prestige, que há 10 anos derramou 77 mil t de óleo na costa de vários países europeus, atingindo especialmente a Espanha e a província espanhola da Galícia

MARINA ESTARQUE E VITOR HUGO BRANDALISE - ESPECIAL PARA O ESTADO, LA CORUÑA, ESPANHA , O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2012 | 03h10

As primeiras ondas negras invadiram Muxía de madrugada, despertando o vilarejo com um forte cheiro de alcatrão. Era petróleo misturado a algas e areia, piche pestilento que arremetia contra os muros da orla, manchava as pedras do santuário peregrino da Virgem da Barca, alcançava a praça do povoado pesqueiro. Naquele 14 de novembro de 2002, o mar, antes azul-transparente, amanheceu coberto por uma capa de asfalto pastoso. Peixes e aves se debatiam sufocados na lama negra, cuja profundidade chegaria a um metro e meio. Carregado pelo vento marítimo, ou grudado na sola dos sapatos, o petróleo, cru e tóxico, invadiu também as casas daquela gente.

Muxía foi o primeiro povoado atingido pelas sucessivas marés negras desencadeadas pelo naufrágio do petroleiro Prestige, a 130 milhas do litoral espanhol, em um local de nome sugestivo: Costa da Morte (diz-se que é o ponto do globo em que mais naufrágios houve na história, 454, contados desde a Idade Média). O derrame em mar aberto de 77 mil toneladas de piche, tido como o maior desastre ambiental marítimo da história do país, alterou por anos a paisagem e o ecossistema de 1.200 quilômetros do litoral ibérico. E marcou um antes e um depois na vida de milhares de pessoas.

Nesta terça-feira, quase uma década mais tarde, começará o julgamento dos responsáveis pela tragédia ambiental - ou, pelo menos, das quatro pessoas que a acusação conseguiu indiciar. Marcado por influências políticas e interpretações intrincadas de direito marítimo, o processo será um dos mais complexos da história do Judiciário espanhol, com 133 testemunhas, 51 advogados, 98 peritos e 2.128 partes cobrando indenização.

Um dos principais pontos de discussão será a gestão da catástrofe por parte do governo. A lentidão e a falta de transparência das autoridades, que tentaram minimizar o desastre, revoltou a população desde o início. Na época, surgiu na Galícia, comunidade espanhola mais prejudicada pelo naufrágio, um movimento civil batizado Nunca Mais. O lema indicava a amplitude da revolta: é idêntico ao utilizado em manifestações contra o Holocausto e os crimes de ditaduras.

Quando ainda não se tinha consciência da quantidade do vertido, moradores lutaram contra a maré negra com os meios que tinham. Na urgência de proteger seus modos de vida, recolheram o material tóxico sem máscaras nem luvas. Instrumentos agrícolas como tridentes e forquilhas foram levados ao mar para levantar camadas de piche. O petróleo cru, carregado em sacolas de supermercado, transbordava dos contêineres de lixo na beira das estradas. Mas a tarefa superava as possibilidades dos povoados, e foi então que a ajuda começou a chegar.

Nas semanas seguintes, a Costa da Morte recebeu uma "onda de solidariedade", como o fenômeno foi descrito na época. Do dia para a noite, vilarejos de menos de 2 mil habitantes viam sua população duplicar. Entre novembro de 2002 e maio de 2003, 330 mil voluntários de todo o mundo acudiram espontaneamente para combater a tragédia. Houve quem dissesse que a "maré branca", em referência à cor dos macacões usados pelos voluntários, foi "o maior ato de solidariedade conjunta da história".

A vontade de ajudar era tanta que, em alguns casos, jamais foi embora. Dias depois do naufrágio, o alemão Sven Shwebsch estacionou seu trailer na Praia de Lira buscando refúgio de um temporal - e ali ficou. Vendeu sua loja de esportes náuticos e, por três anos, dedicou-se a retirar petróleo do mar. Uma década depois, Sven vive na mesma praia, no mesmo trailer. E continua limpando a orla. "Organizamos mutirões semanais, é a isso que me dedico", conta.

Nesse período, o alemão tornou-se dedicado conhecedor da costa galega. Indica pedras brancas e redondas unidas por uma capa negra, como se fosse asfalto no meio da praia. "Aqui não é área turística, então não há interesse em limpar." Sven avança alguns metros, remove pedras e, embaixo, encontra piche ainda mole. Ele leva a pasta ao nariz: "O cheiro enjoativo continua o mesmo".

Especialmente após tempestades, ainda se encontram pedaços de piche endurecido na areia - chamados "bolachas" ou "queijos", dependendo do tamanho. Dizem os pesquisadores que o impacto desse material nas praias, hoje, é praticamente nulo. Permanece como marca do episódio, assim como os penhascos manchados de negro. "Foi triste, mas o que fica é a relação entre os voluntários. Apesar do mau cheiro e do trabalho duro, não esqueço o sorriso daquela gente."

A alegria era partilhada pelos moradores, que receberam os desconhecidos em casa. "Os que vinham estavam perdidos, e nós também. Não podíamos deixá-los na rua", conta a comerciante Socorro Lemus, de Muxía. Sua família abriu as portas para Antanes Viscontas, lituano que se tornaria grande amigo. Os laços se estreitaram tanto que planejaram abrir uma oficina mecânica juntos.

Mas um câncer de rim frustrou as expectativas. Os médicos deram a Antanes apenas três meses de vida. "Ele era muito forte, trabalhou feito um escravo contra o petróleo", conta Socorro. Da mesma forma, enfrentou a doença e viveu mais um ano, tempo que escolheu passar em Muxía. "Ele se sentia feliz aqui e não quis voltar ao seu país. Ficou na nossa casa até o fim."

Para quem viveu a ingrata tarefa de limpar dia após dia praias inteiras, apenas para vê-las manchadas de novo ao subir a maré, pode ser difícil pensar em justiça. "Tínhamos muita raiva. A gente via o petróleo sujando tudo, e o governo na TV dizendo que nada acontecia", contou o ceramista Nacho Porto, morador da Praia de Carnota. "As mentiras continuaram. Esse julgamento é uma farsa."

Para entender o que será discutido em juízo, é preciso conhecer o trajeto errático do Prestige. O monocasco japonês com bandeira das Bahamas enfrentava uma tormenta a 28 milhas do cabo de Finisterra, área de difícil navegação, quando recebeu o golpe de mar que o avariou, em 13 de novembro de 2002. Nas primeiras 13 horas, enquanto armadora e governo discutiam quem seria responsável pelo resgate, o navio se aproximou da costa, sem nunca deixar de verter petróleo - ficou a apenas três quilômetros de Muxía, levando ao povoado a primeira maré negra.

A partir dali, o naufrágio era esperado. A ordem da Marinha espanhola foi afastá-lo da costa o máximo possível. "Isso, assim chegará à Groenlândia", comemorou o diretor-geral da marinha mercante, José Luis López-Sors, ao saber que o rebocador conseguira atar cabos ao petroleiro - uma piada que colaborou para seu indiciamento. López-Sors será o único representante do governo espanhol no banco dos réus, respondendo por danos ao meio ambiente.

A Espanha negou acesso a seus portos ao petroleiro avariado, encarado como uma bomba-relógio. Essa postura será o principal questionamento da acusação civil, representada pelo coletivo Nunca Mais. Impedido de se aproximar da costa espanhola, barrado também por Reino Unido e França ao norte e Portugal ao sul, o Prestige seguiu para mar aberto. Em 19 de novembro, seis dias depois da avaria inicial, partiu-se em dois e despejou no mar o petróleo que restava em seus tanques. A mancha atingiu vários países europeus, e a Espanha, em particular a Galícia, foi a maior prejudicada.

A acusação sustenta que o governo deveria ter oferecido refúgio ao navio e removido o combustível em um porto seguro. Dessa forma, os danos atingiriam um único ponto, e não a costa inteira da Galícia. O governo se posicionará como vítima e acusará o capitão, o grego Apostolos Mangouras, e dois de seus subordinados de dificultar o reboque do navio, além de aceitarem conduzir um petroleiro com falhas estruturais. "Foi uma temeridade, o capitão sabia que não havia condições de navegar", disse o fiscal de meio ambiente da Galícia, Álvaro Ortiz. "Quanto à gestão do Estado espanhol, não entendemos que houve crime. Em um desastre como esse não há decisões boas."

No julgamento, o governo tentará recuperar algo do prejuízo - pedirá 830 milhões à seguradora. É pouco, considerando que gastou 900 milhões em indenizações e estima-se que os danos causados ao meio ambiente e à pesca cheguem a 4 bilhões. Espécies marinhas típicas, como o polvo e o percebe, de grande importância econômica, sofreram uma falha reprodutiva que se prolongou por dois anos. "A população só não diminuiu porque a pesca foi interrompida pelo risco de contaminação", explica Juan Freire, biólogo da Universidad de A Coruña (UDC).

Nos seis meses que se seguiram ao acidente, 23.181 aves foram encontradas cobertas de petróleo ao longo da costa da Espanha, França e Portugal. A grande maioria, mortas. Segundo o ornitólogo Antonio Sandoval, a estimativa mais aceita é de que 200 mil aves marinhas morreram com o desastre. "Bastam 5 mililitros para matar o animal", explica o veterinário Javier Balado, que trabalhou no tratamento da fauna afetada.

Os efeitos da contaminação também foram sentidos pelas pessoas que passaram meses limpando petróleo nas praias. Por cinco anos, pescadores e marisqueiros apresentaram problemas respiratórios persistentes. Também tiveram danos celulares que aumentaram o risco de terem câncer ou alzheimer. "A boa notícia é que os resultados preliminares de um trabalho de acompanhamento indicam que agora, dez anos depois, as células dessas pessoas já não apresentam mais danos", disse a pesquisadora Blanca Laffon, também da UDC.

Se as marcas negativas do Prestige começam a desaparecer, os laços criados naqueles meses permanecem fortes. Povoados como Muxía e Finisterra, cujos trabalhos de limpeza se estenderam por um ano inteiro, serviram de cenário para relações duradouras. É o caso de Socorro e o marido, que ainda choram ao lembrar do lituano Antanes, do grupo assíduo de limpeza de praias do alemão Sven e da guia turística Soledad Méndez, que mantém uma das lembranças mais fortes que pode haver.

Nos últimos dias daquele novembro, Soledad carregou de Extremadura, a 750 quilômetros da Galícia, barraca, mochila e frigideira para instalar-se nas praias manchadas de piche. Durante a limpeza, conheceu um voluntário galego, que costumava incentivar os trabalhadores com gritos de ânimo: "Alegria! Alegria!" Meses depois, Sole recebeu a melhor notícia que o naufrágio do Prestige lhe poderia trazer. A filha, batizada Alegría Fisterra, completa 9 anos em dezembro e já ajuda a mãe a recolher restos de petróleo das praias. Cada vez mais entende o que foi aquele desastre todo.

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