Marguerita de abobrinha

Nosso desejo de tomate não tem preço, mas o orçamento tem prioridades e sempre dá para substituir

CARLOS ALBERTO DÓRIA, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h06

Há poucos meses ninguém poderia imaginar que a mão invisível do mercado iria surrupiar do seu prato a deliciosa bruschetta que você pensava comer naquele barzinho da moda; nem que a tradicional macarronada da mamma estivesse adiada sine die. Também, pudera, pagar R$ 10 por um reles quilo de tomate parece algo além do razoável. Nosso desejo não tem preço, mas o orçamento tem limites e prioridades.

O preço do tomate subiu 122% nos últimos 12 meses, metade desse índice só em 2013. A safra do ano passado foi muito boa. A oferta cresceu e os preços despencaram. Tomate a "preço de banana" fez muitos produtores mudarem de cultivo, resultando numa redução dramática da área plantada. Não valia a pena. Agora falta tomate, os preços disparam e a choradeira é geral. Essa é a economia da livre concorrência, o "mercado liberal" do tomate.

E para garantir o mínimo, assegurar que as máquinas não parem, não há remédio senão se socorrer na economia de planejamento estatal centralizado: o tomate abunda na China, e é de lá que tem vindo para a indústria brasileira, concentrada especialmente em Goiás.

Ainda que o tomate de mesa desapareça, e esse possa ser um incômodo insuportável, é preciso garantir o ketchup, e a China planta o tomate irrigado, na região desértica de Xinjiang, sendo o terceiro maior produtor mundial, só suplantada pelos EUA e pela Itália inteira. São 500 mil toneladas anuais, processadas por 137 fábricas. Entre janeiro e fevereiro deste ano, as importações brasileiras de tomate aumentaram 232% em relação ao mesmo período do ano passado, atingindo US$ 14 milhões. As fábricas brasileiras de molhos de tomate, que já vêm importando o produto chinês há quatro anos, chegam a utilizar até 70% de polpa chinesa.

Na base do cataclismo, uma pergunta não pode silenciar: conseguiríamos viver sem tomates? Natural de um vale peruano entre o Pacífico e a Cordilheira dos Andes, ignorado pelos ancestrais dos incas, o tomate se dissemina no período pré-colombiano, chegando ao México, onde é cultivado pelos astecas e Hernán Cortez o encontra, em 1519, na região de Vera Cruz. As inúmeras variedades de tomatl, apresentando formas, cores e sabores diversos, logo chegam à Europa e passam por um longo período de assimilação.

Os primeiros cultivos se estabelecem em Sevilha, espalhando-se para Nápoles, Gênova e Nice, ainda no século 16. É visto inicialmente com desconfiança, associado à bruxaria, considerado maléfico para a saúde; os puritanos consideram o consumo do pomodoro um pecado, atribuindo a ele a causa de uma doença nervosa específica. Assim, só em meados do século 18 ele passa a ser considerado um produto verdadeiramente "comestível". Mas no início do século 20 o tomate já havia conquistado toda a Europa, o norte da África (Magreb) e a China, tornando-se um dos principais componentes da alimentação humana. Sua própria diversidade de formas, cores e sabores é, hoje, objeto de cuidados e atenção, como no Conservatoire de la Tomate de la Bourdaisière, no Loire, França.

Porém, a quase totalidade de nossa civilização alimentar depende de pouco mais de três dezenas de espécies vegetais, disseminadas pelo mundo. Embora cultuemos a diversidade como ideal moderno, nos entregamos a uma vivência pobre e especializada. Entre esses produtos, destacam-se o milho, o arroz, o trigo, a mandioca, a batata e o tomate. A quase totalidade do receituário ocidental inclui pelo menos um desses vegetais. Assim, a crise momentânea de produção do tomate nos mostra quanto esse mundo comestível é frágil. A civilização de base industrial também insufla uma grande fantasia em nossas vidas: somos imunes e indiferentes aos ciclos naturais. Coisas que nossos avós conheceram como produtos "de temporada" - como mangas, maçãs ou tomates maduros - hoje parecem descoladas das estações, graças às modernas técnicas genéticas, processos de manejo e estocagem a frio. E quando isso falha, por falta de planejamento, o mundo parece vir abaixo.

A boa notícia para os paulistanos, brasileiros angustiados pela falta de tomate, é que os preços na Ceagesp já caíram 43% no mês de abril. As coisas logo voltarão ao normal, especialmente com o fim da estação das chuvas. A pizza de domingo, o macarrão da mamma, as bruschettas, irão, aos poucos, reconquistando seus lugares tradicionais. Mas, até que a tempestade passe por completo, talvez seja hora de, deixando de lado a marguerita, experimentar uma saborosa pizza de abobrinha, percebendo que o mundo não vem abaixo quando nos faltam os estimados tomates.

CARLOS ALBERTO DÓRIA É DOUTOR EM SOCIOLOGIA PELA UNICAMP,  DIRETOR DO CENTRO DE CULTURA CULINÁRIA CAMARA CASCUDO - C5, AUTOR DE A CULINÁRIA MATERIALISTA, A FORMAÇÃO DA CULINÁRIA BRASILEIRA. MANTÉM O BLOG ESPECIALIZADO E-BOCALIVRE

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