Marx na nova encíclica do papa

Bento XVI situa seu diálogo sobre a esperança num arco de idéias que vão de Lutero ao pensador alemão

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2007 | 00h50

O céu como dom e como algo além do nosso merecimento não é um dos desafios de compreensão da encíclica Spe Salvi, a Encíclica da Esperança, anunciada por Bento XVI no dia 30 de novembro. Desafio é que o céu tenha sido definido pelo pontífice como "mais-valia", um conceito-chave do marxismo. Não obstante, seu uso não é marxista, pois para Bento XVI o céu é dom acessível e não fruto de expropriação injusta. O conceito, porém, não está aí por acaso. Ele é componente de uma das chaves da encíclica, na medida em que por meio dela o papa propõe um diálogo crítico da Igreja Católica com a sociedade pós-moderna. Bento XVI situa seu diálogo sobre a esperança num arco de idéias que vão de Lutero a Karl Marx, as idéias relativas à esperança e à salvação individuais, no plano religioso, e as relativas à salvação histórica, pela libertação e emancipação, no plano político. Numa nota de primeira página da edição em português do jornal do Vaticano, L?Osservatore Romano, em que a encíclica foi publicada, é indicada como uma das chaves para leitura do documento a "profunda influência da Escola de Frankfurt", além da própria teologia de Ratzinger.Nos diferentes momentos desse arco de extremos, Bento XVI contempla, com erudição, a diversidade religiosa e filosófica da sociedade contemporânea. A invocação de Marx não é gratuita porque o papa compartilha orientações com a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, linha teórica do marxismo surgida na Alemanha nos anos 20 agrupando intelectuais judeus de esquerda.Já no debate do cardeal Ratzinger com Jürgen Habermas, figura eminente de filósofo e sociólogo dessa escola de pensamento, na Academia Católica da Baviera, em 2004, sobre o fundamento moral pré-político de um Estado liberal ou democrático, a questão da legitimidade da diversidade social estava proposta, como diversidade de grupos, de crenças e de idéias. E já aí fica evidente a posição intelectual não dogmática de Ratzinger, apesar do estereótipo que dele se difundiu. Para Habermas, é democrático o Estado que possibilita ou estimula a expressão dos diversos grupos políticos ou religiosos, mediante a livre pactuação na ação comunicativa, no diálogo. A divergência parcial de Ratzinger diz respeito a que, para ele, o fundamento ético da ação comunicativa é externo a ela, enquanto para Habermas surge nela. É aí que se situa a religião e a fé para Bento XVI.Aí começa, propriamente, a sociologia de Ratzinger. Nas encíclicas, suas idéias não são puro pensamento nem pura doutrina, mas também prática, isto é práxis, idéias propostas ao diálogo na ação. É o que parece explicar que Bento XVI tenha escolhido para elas dois temas candentes da sociedade pós-moderna, o amor e a esperança. São dois campos de incidência da diversidade que a pobreza assumiu nas contradições de uma sociedade de riqueza extrema e pobreza material e moral como resíduos perversos da razão, não obstante a relevância e a necessidade da razão. Uma nota de divulgação da Editora Rizzoli diz que em seu livro recente Jesus de Nazaré Ratzinger se refere ao tema da alienação, como exposto e analisado por Karl Marx nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844. Nas duas encíclicas a crítica da alienação, o homem privado da sua condição de sujeito e convertido em mero objeto de coisas e poderes, é referência subjacente de Bento XVI em defesa da fé como esperança. A sociedade da alienação consumada é a sociedade privada de esperança, referência de uma sociologia pós-moderna que a reconhece na negação da história e na apologia do presente, que desconsidera o futuro, a utopia e a esperança, como ficções que não se inserem na crua realidade atual e cotidiana. O que a sociedade se tornou ou está se tornando ganha corpo nesse modo de compreendê-la, como modo de vida comprometido com a negação da história e também da esperança. A essa sociologia e a essa concepção da sociedade atual se opõe justamente a sociologia marxiana, não necessariamente marxista, que dá sentido ao amplo e diversificado pensamento da Escola de Frankfurt, uma escola de pensamento social e político que, no retorno a Marx, o faz segundo o método de Marx, isto é criticamente, não concedendo a Marx a ressalva de um pensamento imune à contínua atualização crítica e dialética. Ratzinger, no âmbito católico, situa-se, pois, no movimento intelectual do retorno crítico às matrizes do pensamento e mesmo da religiosidade do mundo moderno, uma busca do elo perdido da esperança. Tanto o faz em relação a Lutero e Francis Bacon quanto a Marx e aos marxistas de Frankfurt. Em seus escritos ele tem se revelado leitor atento e crítico não só de Marx, mas também de Engels, apreciativamente citado por seu estudo sobre A Situação da Classe Operária na Inglaterra, de Adorno e de Horkheimer. Bento XVI revê criticamente o surgimento da sociedade moderna, a redução da fé a cometimento individual. Ele revê as origens do protestantismo, a difusão da razão como substituta e sucessora de Deus e o surgimento da concepção histórica, marxista e materialista de esperança. A encíclica convida à reflexão sobre essas rupturas interpretativas, tanto no plano teológico quanto no filosófico e sociológico, sobretudo porque propõe que a questão da esperança seja trazida para a vida cotidiana, para desvendá-la como momento e mediação da totalidade. Totalidade que é concepção também enraizada no pensamento marxiano. É expressão do combate de Bento XVI à alienação que reduziu o homem contemporâneo à pobreza do fragmentário. É na totalidade em movimento que os tempos históricos se encontram porque só nela o possível se faz presente e o que vem depois se antecipa como possibilidade e necessidade, como anúncio e evidência. Justamente, na perspectiva dialética de totalidade e na perspectiva católica é que Bento XVI ensina que a esperança é comunitária, no enlaçamento dos tempos que não a confina apenas no que há de vir nem a faz patrimônio dos mortos. *José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP

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