Máscaras republicanas

O verde-amarelo das pinturas faciais restitui temporariamente a grandeza

JOSÉ DE SOUZA MARTINS,

03 de julho de 2010 | 12h29

 

Multidões de mascarados e maquiados com cores alegóricas das nacionalidades envolvidas nas disputas da Copa do Mundo falam por esse meio uma linguagem que simbolicamente quer dizer muito mais do que pode parecer. Trata-se de um ritual cíclico de renovação de identidades nacionais expressas nos ornamentos e nos paramentos do que é funcionalmente uma nova religião no vazio contemporâneo. Aqui no Brasil as manifestações simbólicas relacionadas com o futebol e seus significados têm tudo a ver com o modo como entre nós se difundiu a modernidade, nas peculiaridades de nossa história social.

Embora não fosse essa a intenção, rapidamente esse esporte assumiu entre nós funções sociais extrafutebolísticas que se prolongam até nossos dias e respondem por sua imensa popularidade. A República, em que todos se tornaram juridicamente brancos, sucedeu a monarquia segmentada em senhores e escravos, brancos e negros, todos acomodados numa dessas duas identidades. A República criou o brasileiro genérico e abstrato. O advento do futebol entre nós coincidiu com a busca de identidades reais para preencher as incertezas dessa ficção jurídica. Clubes futebolísticos de nacionalidades, de empresas, de bairros, de opções subjetivas disfarçaram as diferenças sociais reais e profundas, sobrepuseram-se a elas e tornaram funcionais os conflitos próprios da nova realidade criada pela abolição da escravatura.

Diversamente do que era próprio da escravidão, da inserção rígida na condição de livre ou de escravo, a nova realidade, através do futebol que se difundiu progressivamente, criou polarizações flexíveis, embora, no limite, violentas, como se vê na ação de torcidas organizadas. No futebol há espaço para acomodações e inclusões, até porque sem a diversidade de clubes e sem a competição o futebol não teria sentido. O receituário da modernidade inclui, justamente, esses detalhes de convivência com a diversidade e com a rotatividade dos que triunfam. Nela, a vida recomeça continuamente; depois da vitória é preciso lutar pela vitória seguinte.

O futebol é republicano, não é monárquico nem ditatorial. Essencialmente, massificou e institucionalizou a competição e a concorrência, elevou-as à condição de valores sociais e democratizou as oportunidades de vitória de cada um no rodízio dos vitoriosos. Nele, a derrota nunca é definitiva nem permanente. Por esse meio, o que era mero requisito do funcionamento do mercado e da multiplicação do capital tornou-se expressamente um rito de difusão de seus princípios no modo de vida, na mentalidade e na vida cotidiana das pessoas comuns, fazendo desta uma sociedade de acomodações e superações.

É nesse sentido que o futebol só pode existir em sociedades competitivas e de antagonismos sociais administráveis. Fora delas, não é compreendido. Há alguns anos, um antropólogo, que fora meu aluno e estava fazendo pesquisa com os índios xerentes, de Goiás, narrou-me sua surpresa ao ver que os índios haviam adotado entusiasticamente o futebol. Com uma diferença: os 22 jogadores não atuavam como dois times de 11, mas como um único time jogando contra a bola, perseguida em campo todo o tempo. Interpretaram o futebol como ritual de caça. Algo próprio de uma sociedade tribal e comunitária.

A nós, brasileiros, cada vez mais distanciados da ideia republicana de nação e afundados no sectarismo das identidades parciais e corporativas do populismo político, racial e religioso, o verde-amarelo das pinturas faciais e dos trajes, das alegorias e das máscaras restitui temporariamente a grandeza da nossa identidade nacional, tão sacrificada nas conveniências e nos interesses das minorias.

As máscaras estão historicamente ligadas à necessidade social e política do mascaramento da morte e do medo da morte. Elas dão fisionomia às ausências, ao que está desaparecendo, e proclamam, mais do que a euforia da esperança na vitória, a carência de uma identidade abrangente em que nos vejamos como nós e não como alguns.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DA USP. É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE A APARIÇÃO DO DEMÔNIO NA FÁBRICA (EDITORA 34)

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