Matem o meteorologista

Pode chegar o dia em que os responsáveis por previsões do tempo respondam pelos erros, como os cientistas italianos dos terremotos

CLYDE HABERMAN - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h09

Uma coisa é certa: nenhum nova-iorquino pode dizer que não foi alertado sobre os efeitos potencialmente devastadoras do furacão Sandy e a necessidade de tomar precauções. Entretanto, alguns se irritaram com a torrente de alertas dos últimos dias. Afinal, esta é Nova York.

Essas pessoas propensas a bravatas inflaram o peito e se recusaram a abandonar áreas ameaçadas de inundação, não dando importância às repetidas advertências do presidente, do governador e do prefeito de que estavam pondo em risco a própria vida e a dos socorristas preparados para se sacrificar numa emergência.

Os temerários - ou, se se preferir, os loucos - poderiam argumentar com a história recente: a experiência do furacão Irene, no ano passado. A previsão então era de que a cidade seria duramente atingida, enquanto outras áreas do Estado seriam relativamente poupadas. Ocorreu o contrário: Nova York sofreu poucos danos, ao passo que outros pontos foram severamente afetados. Para aqueles inclinados a não confiar nas autoridades, aquela foi uma prova de que os cientistas não sabem do que estão falando.

Observamos essa reação em alguns locais quando o Sandy se aproximava. O governador Andrew Cuomo irritou-se ante as opiniões de que o "furacão Irene foi um fiasco".

"Não foi", disse o governador numa das suas aparições públicas na segunda-feira. "O Irene causou tremendos estragos. As projeções sobre onde esses estragos ocorreriam não foram exatas, mas a tempestade levou o caos à vida das pessoas", afirmou ele.

O furacão Sandy chegou com a ferocidade prevista. Fica aqui então a pergunta para o caso de futuras tempestades: quando as projeções não dão certo, os meteorologistas podem ser acusados de perturbar desnecessariamente a vida de alguns ou dar a outros uma falsa sensação de segurança?

Se a Consolidated Edison (empresa de eletricidade) pode ser responsabilizada quando há falta de energia por um longo período, e se o Corpo de Engenheiros do Exército foi levado aos tribunais por seus erros no caso do furacão Katrina, poderiam os meteorologistas ser responsabilizados quando suas previsões não se confirmassem?

Não estamos sugerindo que isso seja bom, mas também não é tão estranho quanto se possa imaginar. Existe um precedente inquietante estabelecido há apenas uma semana. Embora não tenha ocorrido nos Estados Unidos, não deve ser ignorado.

Na Itália, um juiz considerou sete especialistas em previsão de terremoto culpados de homicídio culposo e os condenou a 6 anos de prisão por terem dado alertas inadequados para L'Aquila, na região de Abruzzo, a leste de Roma, quando 309 pessoas morreram e milhares ficaram desabrigadas num terremoto, em abril de 2009. Os acusados, na maioria sismólogos e geólogos, foram ainda condenados a pagar indenizações de mais de US$ 10 milhões.

Haviam ocorrido tremores frequentes nos meses anteriores ao terremoto devastador. Naturalmente, os moradores da localidade estavam inquietos. Mas os cientistas, membros da Comissão Nacional de Previsão e Prevenção de Riscos, reunidos seis dias antes do terremoto, concluíram que os tremores prévios não sinalizavam um grave perigo.

Os promotores argumentaram que a avaliação feita pelos especialistas não refletiu os riscos reais e deixou os moradores de L'Aquila indefesos, sem informações corretas para decidir se abandonavam ou permaneciam em suas casas.

Compreensivelmente, a decisão, da qual os réus prometem recorrer, deixou cientistas em toda parte muito preocupados. Devem eles ser presos por não prever com exatidão o imponderável? Em editorial, a revista científica Nature afirmou que "o veredicto é perverso e a sentença, absurda".

Segundo Luciano Maiani, presidente da comissão italiana de previsão e prevenção de riscos, a decisão vai inibir os especialistas, que, por medo de repercussões legais, hesitarão em dar opiniões profissionais. "Isso não ocorre em nenhum outro lugar do mundo", disse ele.

Ainda não ocorre. Mas existe gente mais chegada a uma polêmica judicial que os americanos, especialmente nesta cidade que tem mais advogados por metro quadrado que qualquer outra do planeta?

No decorrer dos anos, pessoas morreram e foram perdidos bilhões de dólares em danos à propriedade por causa de previsões climáticas imprecisas - e registre-se que a meteorologia é supostamente uma ciência mais precisa que a sismologia.

Tendo como precedente uma decisão como a de L'Aquila, como podemos ter certeza de que um dia meteorologistas daqui não sentarão no banco dos réus pelo crime de não fazer previsões corretas? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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