Medo, fear & paura

Sem ter no que se apoiar, o candidato republicano, John McCain, entrega-se aos búzios da fobolatria

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2008 | 21h19

Ao qualificar o medo como "uma emoção indispensável à sobrevivência", Hannah Arendt não pretendia nos acomodar à idéia de que sem medo é impossível viver. Ainda bem. Pois com medo, sim, é que é impossível viver. O medo é o elemento que mais destruição causa à mente e ao espírito, alimentando a covardia e gerando agressividade, multiplicando vítimas com a potencialidade de um vírus. "Não olhemos para trás com raiva, nem para a frente com medo, mas em torno, com atenção." Sempre tentei seguir este conselho de James Thurber, desconfiado de que, no lugar da atenção, melhor se encaixaria a palavra lucidez. Continuo tentando. Raivas consegui largar no meio do caminho, mas já nem preciso olhar para a frente para ver quanto perto de nós ronda o espectro do medo. Medo de tudo. De uma possível, embora improvável, vitória de John McCain. De que Barack Obama, de tanto derivar para o centro, deslize para a direita. De que nossa inflação ultrapasse o teto de 6,5% estimado pelo governo. De que o ex-bispo Marcelo Crivella consiga sobreviver aos desgastes de suas estripulias eleitoreiras e se eleja prefeito do Rio. De que o futebol da seleção do Dunga tenha acabado de vez. De que o Tribunal Superior Eleitoral ajude a inflacionar ainda mais o porcentual de ladrões com imunidade parlamentar. De que o aumento de 19% no número de milionários brasileiros tenha algo a ver com o aumento de 32% da cesta básica nos últimos 12 meses. De que o preço do barril de petróleo ultrapasse os US$ 200 e só os especuladores continuem levando a culpa pela crise energética. De que a ministra Dilma Rousseff tenha recebido mais de um amigo do Lula para tratar da Varig. De que o já dobrado custo do aquecimento global triplique. De que Israel bombardeie o Irã. De que em cinco anos o trânsito no Rio fique mesmo igual ao de São Paulo. De que a Suprema Corte dos EUA libere a posse de armas de fogo para serial killers com curso superior completo. De que o despreparo dos controladores de vôo brasileiros no domínio do inglês provoque ainda mais incidentes aéreos do que os dez registrados entre 2003 e 2007. De que alguma pesquisa revele que assistir a Sex and the City provoque câncer no cérebro - e depois seja desmentida.Foi o medo que melou as "eleições" no Zimbábue. Medo da violência desenfreada, com os eleitores da oposição ao tirano Robert Mugabe tendo as mãos decepadas e os dedos quebrados para não irem às urnas votar em Morgan Tsvangirai, que, temeroso do que mais pudesse acontecer, retirou sua candidatura no domingo passado. Calígula adorava dizer que não queria ser respeitado, apenas temido. Mugabe, se nunca disse isso, na prática sempre plagiou o imperador romano. Nada é mais desprezível que o respeito baseado no medo. (Acabo de cometer meu plagiozinho, só que de Albert Camus, outro nível.) Camus, que sobre Calígula escreveu uma peça, mas com Mugabe não desperdiçaria seus neurônios, ensinou a ouvidos moucos. Olhem em volta e constatem: ninguém mais parece ter medo de se valer do medo para impor respeito e conquistar ou manter-se no poder. Sem ter no que se apoiar com um mínimo de firmeza e dividendos eleitorais, o candidato republicano à sucessão de Bush II, John McCain, vulgo Bush III, entregou-se aos búzios da fobolatria. Faz sentido. O culto ao medo e, mais especificamente, ao medo racista já elegeu um bocado de pilantras nos grotões da América. Recente pesquisa Washington Post-ABC News revelou que três em cada dez americanos nutrem algum tipo de preconceito racial. Estrategicamente à margem do jogo sujo que seu partido e seus acólitos não se pejam de praticar, McCain não desgruda o olho gordo do eleitorado impressionável, sensível à campanha de mentiras deflagrada contra Barack Obama, difamado como um bicho-papão: de nome esquisito (a bruaca-mor do colunismo político, Ann Coulter, só se refere ao senador democrata como B. Hussein Obama, buscando aproximá-lo subliminarmente de Saddam Hussein), cor indefinida e preferências culturais e culinárias fora dos padrões do americano médio. Inclusive de ter parentes e amigos terroristas na África Obama já foi acusado, por incrível que pareça por um membro da executiva do Partido Democrata no Tennessee, Fred Hobbs, até prova em contrário, um espião republicano.A propaganda eleitoral do Partido Republicano, useiro e vezeiro em alimentar temores racistas inconscientes na população, tem apresentado McCain como "o presidente americano que os americanos esperavam". Um publicitário iniciante aconselharia a retirada, por redundante, do primeiro "americano", obviamente mantido para insinuar que Obama, apesar de nascido em Honolulu, não é um americano genuíno, como McCain, que, por sinal, nasceu no Canal do Panamá. Exibindo uma descomunal falta de escrúpulo e uma incomensurável dose de irresponsabilidade, o principal assessor da campanha de McCain, Charlie Black, publicou há dias um artigo na revista Fortune em que defende a tese de que um ataque terrorista ao território americano no período que antecede as eleições seria uma mão na roda para seu candidato. Aterrorizados, os americanos votariam maciçamente em McCain. Assim, ao menos, crê o assessor, sem se dar conta de que sua fantasia só teria chance de se concretizar se: 1) Obama (Barack, não o Bin Laden) estivesse por trás do atentado; 2) McCain gritasse Shazam! e, transformado em Capitão Marvel, salvasse com seus superpoderes a América.Instilar o pavor tem sido, desde 2001, o modus operandi de Bush, republicano da gema, que, sendo quem é, nunca sacou quão terrorista é toda ação política apoiada no medo. Os fascistas e os comunistas eram mestres nessa forma de terrorismo. Os neofascistas italianos ainda não perderam o hábito. Em meio à razzia xenófoba contra ciganos e imigrantes pobres das últimas semanas, o partido de direita Liga Norte divulgou um cartaz assustador, comparando o futuro dos italianos ao que sucedeu aos índios americanos depois da conquista do Oeste pelos "imigrantes" europeus. Isso é o que se chama de berlusconizar a História.

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