Memória de camundongo

Deve ter a ver com a idade do leitor o despertar de uma certa curiosidade mórbida que o atrai inconscientemente para o obituário e as páginas de ciência do noticiário, não necessariamente nessa ordem. Tem gente que, inclusive, pula de uma seção para outra à procura de vítimas de um novo mal que se anuncia na mesma edição. Essa semana, por exemplo, pesquisadores apontaram a alta de casos de alergia a alimentos, o que não chega a ser tão preocupante quanto a suspeita de que um desses inibidores da vontade de fumar pode levar à cegueira ou até matar por insuficiência cardíaca decorrente da medicação.Os jornais de sexta-feira também alertavam a população para o efeito colateral do suicídio diagnosticado após a ingestão da recém-lançada "pílula antibarriga", recolhida dia desses às pressas das farmácias de todo o planeta. Como se não bastasse o medo da recessão, as pessoas temem que o fim do mundo possa acontecer em decorrência de uma descoberta científica do gênero "viver é prejudicial à saúde". Nenhuma notícia maluca nessa área está muito longe da verdade. Se eu disser que um estudo da John Hopkins University publicado na última edição da revista Science afirma que o "gás do pum" pode ajudar a tratar pressão alta, vocês acreditam? Parece que estão desenvolvendo "bombas de cheiro" para regular o fluxo sanguíneo no organismo humano. A ciência é uma caixinha de surpresas como outra qualquer. Tão inesperada quanto a revelação de que a polícia de São Paulo dispõe de tecnologia para ouvir conversas do vizinho com a ajuda de um copo, chega dos EUA uma notícia que pode mudar o destino que se anuncia trágico para a humanidade: cientistas americanos e chineses conseguiram apagar seletivamente a memória de camundongos. Pense no dia em que a gente tiver esse autocontrole sobre os arquivos da mente: sabe aquela grana que você perdeu na bolsa? Deleta. Esquece também aquele amor que te magoou, as bobagens que seu candidato falou e aquele jogo que seu time perdeu. Só vamos nos recordar do que não for apagado da lembrança na farmácia da esquina. Já pensou?! A droga ainda vai demorar um tempo para ser testada em seres humanos, mas o Brasil, até pela tradição de país sem memória, tem boas chances de liderar as pesquisas no setor. Deve ser mais fácil isolar lembranças em arquivos de baixa capacidade de armazenamento. A Europa, em especial, vai ter que esperar um bocado. Quem manda ter memória de elefante! Procura-seA polícia de São Paulo reinventou a bala perdida no tiro que mudou a história no cativeiro de Santo André. O projétil que teria deflagrado a tragédia continua desaparecido.BipolaridadeO presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, acaba de submeter o instituto de pesquisa que dirige a mais um severo teste de credibilidade. Às vésperas das eleições, Montenegro, que acumula o cargo de vice-presidente de futebol do Botafogo, foi chamado de mentiroso e desleal por jogadores do clube, a quem acusara de dividir o grupo em patotas. O cartola contra-atacou a certa altura do bate-boca que "jogadores ganham mais que eu". Pode? Até o fechamento desta edição, nada disso havia respingado na rotina pré-boca-de-urna do Ibope. Bordoada"Eu vou acabar com sua vida política e com sua vida particular." Há tempos não se ouvia nada tão ameaçador no noticiário quanto o recado virulento que Eurico Miranda mandou na lata de Roberto Dinamite, que o sucedeu na presidência do Vasco. Na categoria estupidez, talvez supere, pela subjetividade do ataque, o famoso "eu prendo e arrebento" do general Figueiredo.Direitos autoraisA propósito da estréia de Última parada 174, já deve ter cineasta - ô, raça! - se mexendo para filmar a tragédia de Lindemberg.

Tutty Vasquez, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2008 | 21h47

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