The New York Times
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Memórias do assédio

O mais preocupante no bullying do jovem Mitt Romney contra um colega estudante é ele ‘não se lembrar’ dos detalhes. Já o autor se lembra bem do que sofreu nas mãos de bullies

ARIEL DORFMAN, O Estado de S. Paulo

19 de maio de 2012 | 17h06

Quando soube que Mitt Romney, aos 18 anos, cometeu atos de bullying contra um colega de escola, o que me veio de imediato à lembrança, como deve ter ocorrido certamente com outros que leram a notícia, foram minhas próprias experiências com esse tipo de assédio, no papel de vítima e também de praticante. Nenhuma delas chegou à brutalidade com que agiu o possível candidato republicano à presidência, mas abrem uma janela para esse tipo de incidente, a possibilidade de talvez compreender o seu alcance.

Foi em 1953, em Nova York, aos 11 anos de idade, que tive consciência do que significa bullying, palavra em moda hoje nos Estados Unidos para denunciar as perversas agressões sofridas pelos jovens por parte de colegas seus em lugares públicos. Na época, contudo, esses ataques eram considerados naturais e quem era agredido devia, simplesmente, suportar, jamais protestar e tampouco avisar as autoridades sobre a agressão.

Portanto, aguentei, o que fazer? Não contei a ninguém que em Dalton, colégio particular e exclusivo de Manhattan para o qual fui transferido quando nos mudamos, depois de cinco anos em Queens, era submetido a constantes ataques por parte de um bando de colegas de curso. Por sorte não eram ataques físicos (que viriam mais tarde, no Chile), mas as palavras (acompanhadas de empurrões e cotoveladas e assédio) podem ferir mais que um soco ou bofetada. Creio que o que mais me doía era sentir-me estrangeiro, que não me recebessem como um membro comum e normal do grupo. Porque eu era, de fato, estrangeiro.

Embora meu inglês fosse perfeito, aqueles meninos sabiam que eu havia nascido na Argentina e das simpatias de meu pai pelo comunismo, portanto, um inimigo do povo norte-americano. E certamente os valentões que me perseguiram não gostavam da minha personalidade, transbordante de energia e ideias estapafúrdias, meus espalhafatos, minha presunção, minhas oscilações entre o sorriso dócil e a introspecção artística.

O pior de todos era um garoto que chamarei de Johnny. Era o menor da camarilha: sardento, simpático, rechonchudo, dotado de uma língua de víbora que sempre sabia exatamente o que dizer para cutucar a ferida e jogar sal nela. Era o menor de todos, repito, e talvez por isso uma tarde, ao sair da escola, deparei com Johnny e ele começou a me insultar. Então caminhei pela Rua 89 até o Central Park, onde tinha de pegar o ônibus de volta para casa. Mas ele não desistiu, continuou atrás de mim, fazendo troça do meu nome – “Você não devia chamar Vlady (o primeiro nome de Dorfman é Vladimiro), mas Bloody, ou melhor Lady, você é uma lady, uma mulherzinha”. Pouco antes de chegar à esquina algo se rompeu dentro de mim. Fiz meia-volta e o atirei ao solo, lancei-me sobre ele e apertei seus dois braços contra o asfalto duro de Nova York, exigindo que engolisse suas palavras, que prometesse nunca mais me atormentar. Ele se recusou.

Ali o mantive por uns bons minutos, ofegando de ferocidade, ambos sem fôlego, ele de costas e eu em cima dele, incapazes de nos movermos. Lembro-me de que uma senhora passava pela rua e se deteve por alguns instante, olhando-nos, seus olhos preocupados por trás dos óculos minúsculos de avozinha, sua fisionomia de pássaro. Sem dizer uma palavra, finalmente prosseguiu seu caminho. Foi o suficiente para eu me ver como ela estava me vendo: um delinquente, alguém que estava molestando um outro ser humano, simplesmente porque era mais forte.

Tentei uma última investida desesperada: “Vai me deixar tranquilo?” “Não”.

Johnny sabia que eu não iria feri-lo de verdade. Sabia que, no fundo (e, por que não admitir, na aparência também), eu era um menino pacífico, daqueles que têm o cuidado de tirar da casa um bicho ou uma aranha para que percorram em liberdade sua curtíssima vida. Johnny sabia mais de mim do que eu próprio.

Levantei-me, tremendo de raiva e vergonha. Consegui lançar algumas ameaças inúteis e idiotas – “bem, agora sabe o que pode acontecer com você se continuar me molestando” – e fui para casa, arrastando meu fracasso e algo mais. Porque aprendi naquela peripécia uma lição de que jamais me esqueci: é terrível ser vítima, mas muito pior é converter o outro ser humano em vítima; muito pior é perpetrar contra um semelhante o que nos fizeram deslealmente. Não quero dizer que me converti num santo aos 11 anos; seriam necessárias muitas décadas de erros, desacertos e furor. Mas a revelação que tive nessa rua de Nova York nunca me abandonou: foi fundamental, creio eu, para me preparar para uma vida dedicada à não violência, uma vida dedicada a descobrir como evitar que os seres humanos se convertam em nosso inimigo.

O que isso tem a ver com o caso de Mitt Romney?

Sua agressão contra o jovem John Lorber, cortando-lhe o cabelo com uma tesoura selvagem enquanto um grupo de estudantes imobilizava a vítima que uivava de dor, é muito diferente do que sofri e diferente também do que infligi àquele outro Johnny há quase 60 anos. Assemelha-se mais ao tipo de “lição” que os militares chilenos, depois do golpe de 1973, impunham aos jovens que usavam cabelos compridos. Recordo-me de ter visto patrulhas cortando a baioneta os cabelos de qualquer jovem que tivesse a infelicidade de se parecer com uma mulher. Com minha própria esposa, Angélica, presenciei esses mesmos soldados cortando as calças de meninas – para adverti-las de que no Chile de Pinochet as mulheres tinham de usar saias e não se vestir como homens, da mesma maneira que os homens deviam ter o cabelo asseado, ordenado e cortado para ninguém achar que eram maricas. Sexos separados e distantes, nada de ambiguidade, nada de cruzamentos híbridos ou genéricos.

Portanto, não foi nada de estranho o fato de Mitt Romney impor o mesmo tipo de adestramento na arte de ser “homem” – afinal de contas, é o que ele promete fazer com o Irã ou qualquer outro povo rebelde; é também o que propõe fazer com os americanos pobres, cortar toda a ajuda a eles. Ontem foi o cabelo dos gays. Amanhã serão os cabelos do orçamento.

O que não é uma novidade, de modo que isso não me perturba especialmente.

O que me preocupa é outra coisa, mais crucial.

Não me esqueci do que ocorreu no asfalto daquela rua da distante cidade de Nova York. Uma vez ou outra volta-me à lembrança minha cólera, o corpo de Johnny indefeso, a senhora que me olhou e me devolveu a razão, a certeza de que não podemos combater os brutamontes transformando-nos num deles. Gostaria de encontrar Johnny um dia para lhe dizer isso.

Romney disse que não se lembra do incidente. É provável que realmente não se lembre. Isso é o mais grave. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

ARIEL DORFMAN É ESCRITOR E ATIVISTA DOS DIREITOS HUMANOS

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