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Menos um, mas e daí? O que será dos Titãs sem Paulo Miklos?

Aparentemente, só um acidente de avião sem sobreviventes justifica encerrar a carreira de uma banda de rock no Brasil

Ricardo Alexandre, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2016 | 16h00

“Chegou a hora de alçar voo sozinho”, dizia o texto escrito por Paulo Miklos e divulgado na manhã da terça-feira, 12, um dia depois da nota oficial dos Titãs que anunciou sua saída da banda “por decisão pessoal, para se dedicar a projetos individuais”. Miklos escolheu a primeira pessoa do plural e soou como um primo se despedindo: “crescemos juntos”, “escolhemos trabalhar, conviver, apoiar e amar uns aos outros”, “tenho muita música e emoção para compartilhar com vocês”. Os Titãs escolheram a terceira pessoa e soaram como o RH de alguma empresa: “Branco Mello, Sergio Britto e Tony Bellotto prosseguem como Titãs, com o apoio da gravadora (...) honrando compromissos assumidos e outros que venham a surgir”, “os Titãs, ao longo de 34 anos de uma carreira exitosa, experimentam várias formações sempre preservando a essência e o vigor de suas canções” etc.

Não chega a ser uma surpresa a saída de Miklos, apesar das piadas nas redes sociais. (Minha favorita é a do site Fora do Beiço, que garantia que o Ministério do Trabalho reconheceria “ex-Titã” como profissão, assim como “ex-BBB”.) Como também não surpreende que a marca Titãs continue sendo usada mesmo sem Miklos, Arnaldo Antunes (que saiu em 1992), Nando Reis (2002), Charles Gavin (2010) e Marcelo Fromer (morto em 2001). No Brasil, aparentemente, só um acidente de avião sem sobreviventes justifica encerrar a carreira de uma banda de rock.

E é fácil explicar o por quê: os Titãs são filhos de um período muito especial para a música pop/popular brasileira, quando os modelos importados eram uma referência necessária para um país recém-saído da ditadura e do isolamento global. Essa geração eclodiu numa brecha de dez anos, entre 1985 e 1995, nos quais a cultura jovem ganhou força de indústria e os canais de comunicação tinham poder concentrado antes da ultra-segmentação da internet. Em outras palavras, dificilmente haverá uma renovação do conceito de “rock brasileiro” que ombreie com o que Legião Urbana, Paralamas, Titãs, Raimundos e Ira! solidificaram antes que a brecha se fechasse lá pelo fim dos anos 1990.

(Aliás, se você quiser curtir um bom “rock nacional” nos próximos dias, saiba que o Camisa de Vênus está na estrada com 2/5 de sua formação clássica, assim como o Ira! com 2/4, os Raimundos com 2/4, a Legião com 2/3, todos “sempre preservando a essência e o vigor de suas canções” – o que é um eufemismo para “tocando o repertório que você ouvia no rádio com a maior legitimidade possível nessas circunstâncias”.)

O circuito de shows para bandas desse extrato é cansativo e, se você está caminhando para os 60 anos, muito cansativo, com horas e horas de estradas esburacadas, cachês minguantes, feiras da fruta e pouco do glamour associado ao showbiz. Mas a alternativa a ele é apavorante: uma realidade pós-moderna na qual nada é garantido e o streaming substituiu o álbum, não há mais rádios tocando suas músicas nem Cassino do Chacrinha que preserve sua história, na qual diariamente é preciso construir do zero. É essa a realidade dos ex-Titãs, se inscrevendo em editais para financiar novos discos, negociando novas temporadas de programas de televisão, tomando cafés em agências de publicidade ou, como você pode ver no site de Paulo Miklos, lembrando que estamos aí para o que vier na área da “música”, “teatro”, “televisão”, “publicidade” ou “cinema”. Na verdade verdadeira, é essa a realidade de todo mundo que mexe com arte no Brasil de hoje.

Os Titãs remanescentes passaram os últimos dias divulgando imagens da nova formação da banda, em fotos produzidas ou em vídeos de ensaios. Disfarçaram bem o fato de que são apenas 3/8 do grupo que lançou Cabeça Dinossauro, ao destacar sempre a presença dos músicos acompanhantes Beto Lee (guitarra) e Mario Fabre (bateria). É cedo para dizer se os dois participarão do processo artístico futuro, mas não custa lembrar que Flores pra Ela, do mais recente álbum da banda, Nheengatu, já era uma parceria entre Sergio Britto e Mario Fabre. Por enquanto, o que está sendo reforçado é a reformulação de alguns clássicos, como Pra dizer Adeus, originalmente cantada por Miklos, que agora tem vocal principal do guitarrista Tony Bellotto.

O fato é que o ser “um bando, mais do que uma banda”, como diziam nos anos 1980, era parte fundamental do ethos dos Titãs desde sempre. Por causa disso é que o grupo sempre se movia na base da deliberação, da democracia, do conceito. Na organização interna, Marcelo Fromer era uma espécie de “diretor estratégico” da banda. Não é coincidência que, desde sua morte, num estúpido acidente de trânsito em 2001, os Titãs pareçam andar em círculos, a ponto de que seus dois movimentos recentes mais celebrados sejam autorreferentes: o show Cabeça Dinossauro e o álbum Nheengatu, justamente por se anunciar como “uma mistura de Cabeça com Õ Blesq Blom”.

Seria injusto esperar mais de uma banda (ou de uma marca, como queira) que já nos surpreendeu positivamente tantas vezes nesses 34 anos. Mas o negócio é que o rock não é muito mais do que provar que é possível ir na contramão do “natural”. Se a realidade venceu, então que nos conformemos com o fato de que sempre teremos os Titãs comemorando 30 ou 40 ou 50 anos de alguma coisa, como teremos um contingente cada vez maior de rostos de ex-Titãs nos ajudando a lembrar de alguma coisa que parecia tão importante pra gente e que, no mundo real, talvez não faça mesmo a menor diferença.

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