Mente quem diz que a Lua é velha

Você andou reparando na Lua por estes dias? Sabia que ela está mais nova do que nunca? Não, não se trata da fase da Lua que corresponde ao início do mês lunar, a Lua Nova. Trata-se da idade da Lua que mudou. Para entender o que aconteceu, precisamos voltar no tempo. Para saber sobre a idade da Lua, é preciso saber como ela nasceu.

CÁSSIO LEANDRO D. R. BARBOSA

29 de setembro de 2013 | 02h21

Imagina-se que a Lua tenha sido formada a partir do choque de um corpo celeste do tamanho de Marte com a Terra, bem no início da formação do sistema solar. Esse objeto até teria um nome: Thea. Com a violência da colisão, a superfície terrestre teria literalmente derretido, formando um oceano de magma, e um bom pedaço da Terra e de Thea teria se desprendido no espaço. Essa é a teoria mais aceita para a formação da Lua, apesar de alguns detalhes não serem perfeitamente explicados por ela. O problema não seria nem a colisão em si, pois na formação do sistema solar elas eram bem comuns, como mostram as cicatrizes deixadas no asteroide Vesta. A questão maior é que simulações computacionais mostraram que a Lua seria feita em sua maior parte a partir do material de Thea, e não da Terra. Entretanto, amostras do solo da Lua trazidas pelas missões Apolo entre os anos 1969-1972 mostram que a composição química das rochas lunares é muito parecida com a das rochas terrestres, como se realmente um pedaço da Terra tivesse ido parar no espaço. A teoria do impacto gigante ganhou força neste mês com o anúncio da descoberta de água na composição de rochas profundas que afloraram com o impacto de um asteroide na Lua. Rochas similares na Terra também possuem essa característica.

Apesar dessa fraqueza, a hipótese da colisão derrubou todas as outras: que a Lua teria se formado em outra região do sistema solar e teria sido capturada pela Terra; que ela seria o desprendimento de um pedaço da Terra, como se tivesse sido arremessada por girar muito rápido; que teria se formado simultaneamente à Terra do mesmo material da nuvem que formou todo o sistema solar, tal qual irmãs gêmeas. Entretanto, todas as teorias partem de um mesmo instante de tempo, uns 500 milhões de anos após o Sol ter se formado, o que dá, a grosso modo, uma idade de 4,5 bilhões de anos para a Lua e a Terra.

Mas como sabemos qual a idade da Terra ou da Lua? Existe alguma certidão de nascimento para corpos celestes? Sim e não. É possível calcular a idade da Lua, por exemplo, por meio de uma amostra de rocha trazida por uma das missões Apolo usando-se o método da datação radioativa. Esse método é baseado no decaimento de isótopos radioativos presentes na amostra. Por exemplo, sabemos que o urânio se transforma em chumbo após milhões de anos de constante decaimento radioativo. Como a lei que rege esse decaimento é muito bem conhecida, medindo-se a quantidade de chumbo produzido e a quantidade de urânio residual é possível saber durante quanto tempo esse processo de decaimento ocorreu no material. Consequentemente, sabemos sua idade. É como contar as rugas de uma pessoa sabendo que a cada ano ela ganha duas ou três. Variações de idade de uma mesma amostra podem ocorrer devido à escolha dos isótopos estudados, ou de rugas, por exemplo.

Pedaços de rochas vindos da Lua têm sido estudados dessa maneira, e os resultados todos apontavam para uma idade da ordem de 4,5 bilhões de anos. Mas recentes resultados mostraram que a Lua deve ser algo em torno de 150 milhões de anos mais jovem. Nesse caso, a revisão não se deveu a uma escolha de isótopos mais apropriada, mas sim da escolha de uma amostra mais apropriada.

Em uma visita ao Centro Espacial Johnson, da Nasa, o geólogo Lars Borg identificou uma amostra da Apolo 17 como sendo do tipo de rocha das primeiras gerações a se formar, quando o oceano de magma que cobria a Lua começou a esfriar e se solidificar. Essa era a amostra perfeita para esse estudo.

Medindo as quantidades dos elementos químicos chumbo, samário e neodímio presentes na rocha, ou seja, contando rugas de diversas formas, Borg e seus colegas chegaram à nova estimativa de idade para a Lua: 4,35 bilhões de anos ou 150 milhões de anos menos que a idade admitida até então. Essa nova idade não está em desacordo com a teoria do impacto gigante para explicar a formação da Lua. Simplesmente o que deve ter havido é que essa colisão cósmica aconteceu há menos tempo do que se supunha.

Como cantava Frank Sinatra, leve-me à Lua e deixe-me brincar entre as estrelas. Mais nova que nunca, inspiração para mais 5 bilhões de anos!

CÁSSIO LEANDRO D. R. BARBOSA É DOUTOR EM ASTRONOMIA, COORDENADOR DO CURSO DE FÍSICA DA UNIVERSIDADE DO VALE DO PARAÍBA

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