Daniel Karmann/AFP
Daniel Karmann/AFP

Mercado de pinturas atribuídas a Hitler cresceu nos últimos anos

Aumento no valor de pinturas, desenhos e aquarelas supostamente feitos pelo ditador também deu origem a falsificações

Christopher F. Schutze, The New York Times

16 de março de 2019 | 16h00

Após as últimas obras de arte, móveis e gravuras do lote regular serem vendidos num sábado recente, Kathrin Weidler leu uma curta declaração isentando a casa de leilões Weildler, em Nuremberg, de qualquer responsabilidade moral pelo que viria a seguir.  

Kathrin, que dirige o negócio de leilões da família, começou então a apregoar Vila em um Lago de Montanha, uma aquarela banal, por € 45 mil (US$ 51 mil). O quadro não se distinguiria dos milhares de aquarelas vendidas em mercados de pulga de toda a Europa se não fossepela assinatura no canto inferior direito: “A. Hitler”.

Nos últimos dez anos, o nicho do mercado para obras de Hitler cresceu, dizem os especialistas, o que levou a um aumento no valor de pinturas, desenhos e aquarelas supostamente feitos s pelo futuro ditador um século atrás. Entretanto, muitas dessas obras, se não a maioria, provavelmente não são de Hitler. Após sem checar leilões de tais obras, promotores alemães começaram a prestar mais atenção neles.  

Dias antes do leilão em Nuremberg, em fevereiro, a promotoria distrital revistou a casa Weidler e confiscou 63 quadros: 26 com venda marcada e 37 aparentemente destinados a futuros leilões. Antje Gabriels-Gorsolke, da equipe de promotores, disse que as obras foram apreendidas com parte de uma investigação envolvendo falsificação e fraude. 

Semanas antes, a polícia invadira um leilão da casa Kloss, em Berlim, no qual três quadros, também supostamente de Hitler, faziam parte do lote.  

No leilão de Vila em um Lago de Montanha, ninguém deu lance, talvez pela presença de repórteres no salão, ou pela valorização acentuada das pinturas ou pelas dúvidas sobre a autenticidade. O leiloeiro passou humildemente para o quadro seguinte: Paisagem de Montanha com Igreja e Montes de Feno, também assinado “A. Hitler”.

Hitler pintou a maioria de seus quadros antes da 1ª Guerra Mundial, após ser rejeitado por uma escola de arte e antes de entrar como voluntário no Exército alemão. Uma vez do poder, ele ordenou o recolhimento das obras e pode ter destruído as piores, que poderiam causar-lhe embaraços. 

Além da questão moral de se adquirir arte pobre apenas por ser de autoria de um ditador genocida, há o problema da confirmação de se Hitler realmente fez os quadros. Tantas falsificações foram feitas e certificadas como autênticas que ninguém sabe realmente como são as pinturas de Hitler. E, uma vez que elas não têm valor artístico para se comentar, poucos peritos se dispõem a estudá-las.   

“Elas todas se situam numa zona cinzenta e encardida”, disse numa entrevista Christian Fuhrmeister, historiador de arte do Instituto Central de Historia da Arte, um centro de pesquisas estatal. “Mas sua autoria e valor estão sendo mais questionados hoje do que foram no passado.”

Fuhrmeister disse que tudo que eles e seus colegas podem fazer é comparar obras em circulação com as poucas pinturas conhecidas de Hitler que  se encontram no arquivo estatal da Baviera, para descartar falsificações óbvias. 

O negócio de falsificação de obras de Hitler nasceu quase com a primeira vez que ele pegou um pincel, disse Bart Droog, jornalista holandês que se especializou no assunto. Quando  Hitler chegou ao poder, em 1933, já existiam muitas falsificações, e tanto a demanda quanto a oferta só fizeram crescer através dos anos. Em 2014, uma vista da prefeitura de Munique supostamente pintada por Hitler foi vendida por US$ 161 mil num leilão da Weidler.

Antje Gabriels-Gorsolke, do grupo de promotores que revistou a casa de leilões em fevereiro, disse que a equipe vai interrogar proprietários anteriores para apurar se houve fraude. Em caso positivo, as peças serão definivamente confiscadas, mas por enquanto elas estão trancadas no armário de provas da polícia.

Com 63 trabalhos apreendidos e uma estimativa de 100 vendidos, a Weidler já manuseou um número procupante de supostas obras de Hitler, especialmente considerando-se que são poucas as comprovadamente verdadeiras existentes, disse Sven Felix Kellrhoff, historiador e jornalista do diário Die Welt. 

Uma das obras confiscadas é um nu da sobrinha de Hitler Geli Raubal, aquarela datada de 1929, umas duas versões do mesmo quadro atribuídas  a Hitler. As duas versões, porém, são quase certamente falsificações.  

A segunda versão ilustra como décadas de imprecisões e embustes tornaram muito difícil separar pinturas autênticas de Hitler de imitações baratas. 

Marc-Oliver Boger, especialista em falsificação de arte e colecionador de falsificações famosas, disse que essa versão foi feita por Konrad Kujau, falsário alemão condenado que ficou famoso nos anos 1980 ao admitir ter falsificado diários de Hitler publicados pela revista Stern. 

A aquarela de Kujau enganou pessoas por tempo suficiente para entrar num catálogo de obras de Hitler de 1983 criado pelo americano Billy F.Price. Além dos diários e do nu de Geli Raubal, Kujau, que morreu em 2000, falsificou várias outras pinturas de Hitler, muitas das quais chegaram ao catálogo de Price, segundo Boger.

Para autenticar obras de seu catálogo, Price recorreu ao julgamento de August Priesack, perito em arte posteriormente desacreditado. Priesack também autenticou os diários (e Vila em um Lago de Montanha, o quadro que não foi vendido no leilão da Weidler ão, embora não tenha sido confiscado pelas autoridades). 

Apesar de pouco confiável, o livro de Price ainda é adotado por muitos como catálogo definitivo da arte de Hitler.

A casa de leilões Weidler não atendeu a um pedido para que comentasse este artigo. Em 2016, Kathrin Weidler disse a uma rádio alemã que os compradores das obras de Hiler não são necessariamene simpáticos ao nazismo. “Há muita gente que quer investir ou simplesmente possuir um fragmento da história realmen te diferente”, disse ela. 

A maioria dos compradores mantém um perfil discreto e muitos  não são da Alemanha”, acrescentou.

Tom Schimmeck, produtor da rádio que divulgou a entrevista de Kathrin, disse que o interesse na arte de Hitler não tem nada a ver com uma mudança da sociedade para a direita, ou com uma reavaliação dos crimes de Hitler. “Minha impressão é de que se trata de gente com dinheiro que quer ter alguma coisa extragante da Europa”,  avaliou ele. 

Ao contrário dos compradores, que prezam a privacidade, a Weidler e outras casas de leilões precisam anunciar com antecedência sua mercadoria para atrair interessados. Isso pode levar a uma relação bizarra com a imprensa, que de certa forma ajuda na divulgação, mas também levanta perguntas incômodas. 

Tanto a polícia deNuremberg quanto a de Berlim toram alertadas por Droog e seu parceiro Jaap van den Born, ambos jornalistas investigativos que se dedicam à missão de impedir leilões de falsificações de obras de Hitler investigando catálogos e alertando as autoridades antes das vendas. Eles fornecem à polícia relatórios detalhados sobre os quadros, às vezes dando às autoridades informações cruciais para que possam conduzir as próprias investigações. 

Num comentário sobre Vila em um Lago de Montanha, Droog e Van den Born disseram: “Mais uma falsificação estúpida: Hitler não pintou lagos ou paisagens de montanhas”.  

Quanto a aquarela foi anunciada no leilão da Weidler, a maioria da plateia de cerca de 25 pessoas parecia estar lá para assistir ao espetáculo, não para dar lances. Muitas delas recusaram-se a dizer por que estavam ali. 

Nenhuma das cinco peças em oferta naquele dia foi vendida, mas após o pregão um homem de meia-idade, de terno sob medida e chapéu, entrou no salão e perguntou discretamente se os lances para os quadros de Hiler ainda estavam em aberto. Foi informado de que o leilão estava encerrado, mas ele poderia ver as obras numa visita privada, na segunda-feira.

Uma semana depois, a casa de leilões confirmou que havia vendido Vila em um Lago de Montanha por € 30 mil, numa transação privada. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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