Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

'Metamorfoses' é um romance de formação em diálogos com lirismo e densidade existencial

Obra de Flávio Ricardo Vassoler retrata criança com sede de conhecimento quase ilimitada

Ieda Lebensztayn*, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2021 | 15h00

Cadê a verossimilhança? Sinal de incompreensão crítica, fazer tal cobrança de uma obra literária pode ser a melhor prova da exigência ética e estética que move um escritor a compor a sua e nossa brincadeira séria. O crítico Álvaro Lins não acreditava no selvagem feito fazendeiro e narrador da morte da amada, mas não duvidamos da força artística de São Bernardo, de Graciliano Ramos. Igualmente viria a pergunta: pode haver uma criança que, além de tão terna, concentra, em conversas com o pai, não só a sede de saber mais da vida e aprender sempre, mas também bagagem filosófica e cultural e imensa capacidade de compreensão? 

Pois bem, essa demanda amorosa e ética ora se materializa para os leitores, por meio do quinto livro do escritor, professor e youtuber Flávio Ricardo Vassoler: Metamorfoses, os Anos de Aprendizagem de Ricardo V. e seu Pai. Romance de formação em diálogos, combina lirismo e densidade existencial a partir das muitas indagações de Ricardinho, que quer engolfar o mundo com bolhas de sabão, conforme a belíssima foto da capa, de autoria de Larissa Vassoler Wosniak, fundadora, com o irmão, da editora Nômade, Fiel como os Pássaros Migratórios. 

O desejo de entrar no diálogo entre pai e filho, bem como a curiosidade de conhecer os renovados questionamentos de Ricardinho e as histórias, experiências e reflexões partilhadas pelo adulto de forma carinhosa, sem concessões a mentiras e rica em referências literárias, prendem-nos ao livro. Se a obra convida para uma plenitude de formação afetiva familiar e intelectual como a do autor, sua intensidade advém inclusive da consciência dos percalços, perdas, sofrimentos. Não só de pão vive a aprendizagem de pai e filho, há também contraposições: calejado pela vida, o pai tem certa propensão ao ceticismo; já o filho, idealista, recusa a resignação ao horror da realidade. Nesse sentido, destaca-se o interlocutor primeiro e último de Vassoler em Metamorfoses: Machado de Assis. 

Inspirado na “Teoria do medalhão” – lição aberta à “inópia mental” de Janjão, promissora num mundo de sordidez e mesquinharia –, o livro se encerra com a famosa referência do capítulo Das Negativas, de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Porém, já se adivinha que o caminho de Ricardo se faz de um entusiasmo embasado existencial, afetiva e literariamente, de quem conhece as negativas para subvertê-las. O pai responde ao filho com amor e dúvida, apostando num horizonte ético: “Por duvidar da dúvida, Ricardo, eu me tornei pai – teu pai. Por duvidar da dúvida, Ricardo, eu tentei e tento contribuir, cheio de dúvidas e como quem entra num quarto escuro e só faz tatear, para você se tornar uma boa pessoa. Por duvidar da dúvida, meu filho, eu tive um filho, porque quis transmitir a você o legado impetuoso, ainda que trêmulo, incerto e duvidoso, da nossa esperança”. 

Então, não se pense em ingenuidade: na trilha machadiana, o aprendizado recíproco de Ricardinho e seu pai inclui não ser empulhado. Um passo a mais, com o sopesar de experiências dolorosas, sobressai a lição de largo alcance sobre a necessidade da mentira: pode ser a omissão culposa de um desejo incestuoso, ou até a compaixão ante um ser amado à morte. Aqui se reencontra Machado: Capitu comparece às conversas de pai e filho, atraídos pela verdade ou mentira de seus olhos de cigana oblíqua e dissimulada. E o leitor surpreende o lirismo de Ricardo, saudoso de ser Bentinho a pentear os cabelos dela, à beira-mar.

Ao acompanharmos o primeiro amor de Ricardo, vemos que o pai, cuja memória conhece as ambiguidades da vida, afaga o filho, contudo o adverte de que paixão significa sofrimento. E, quando o adolescente pede uma sugestão de presente para Marcela (“eu pensei no Pessoa e no Neruda, pai, autores que a fazem rodopiar. Só que nós já recitamos um sem-número de poemas deles um para o outro”), o pai recomenda que o filho exproprie uma dedicatória que ele próprio fizera no livro Rua de Mão Única, de Walter Benjamin, para a moscovita Margarita, seu amor de juventude: “Como rua de mão única, o amor entrelaça e emaranha joio e trigo, meu e dela. É quando, ao acordar, eu fico resvalando o rosto no travesseiro ainda úmido com o cheiro dos teus cabelos, Margarita, e me deito sobre a ausência côncava (mas ainda cálida) que o teu corpo imprimiu no colchão”. 

Assim, nos diálogos intelectuais e afetivos toma forma a verdade da arte, que fala do amor e das perdas. Impossível não destacar a dicção poética de Vassoler: o menino sabe que “o zoológico das nuvens desenha todos os animais”; e, desconfiado da escola, aprende a geometria do triângulo e do círculo no voo em V das aves no céu e no sorriso redondinho que se delineia no seu rosto. Entre lúdico e trágico, fica na gente o eco das perguntas: “– E pra onde vão os fantasmas, papai, quando você acende a luz?/ – E pra onde vai a luz, quando você acende os fantasmas?”.

AUTORA DE ‘GRACILIANO RAMOS E A NOVIDADE: O ASTRÔNOMO DO INFERNO E OS MENINOS IMPOSSÍVEIS. 

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