Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE

Metonímia empreiteira

Alarmismo exagerado em relação à infraestrutura aeroportuária para a Copa tende a inflar o custo das obras

MARCOS EMÍLIO GOMES,

15 de janeiro de 2012 | 03h10

O livro Freakonomics, obra-prima do economista Steven Levitt com o jornalista Stephen J. Dubner, inspira olhar com cautela para números alarmistas e desmontar esses discursos com base na análise concreta de alguns fenômenos. O tão comentado e até esperado caos aeroportuário da Copa de 2014 pode ser um desses casos.

Os dados da Embratur indicam que o Brasil recebeu 5,4 milhões de turistas estrangeiros no ano passado, igualando o recorde de 2005. Tradicionalmente, não mais do que 75% deles chegam de avião - no caso, um pouquinho mais de 4 milhões de visitantes. Os aeroportos domésticos, por seu lado, deram conta, bem ou mal, de um trânsito total de 6,5 milhões de passageiros a cada mês. É um exercício esclarecedor fazer uma comparação entre esses números, as previsões sobre deslocamentos no país durante a Copa de 2014 e outros registros estatísticos para tentar entender a gritaria em torno das tão reclamadas obras de ampliação de terminais e o alarmismo que prevê um grande fiasco aeroportuário para o país num momento em que os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil.

Para ficar apenas com as estimativas mais otimistas - ou o inverso, dependendo do ponto de vista -, os maiores números sobre turismo relacionado à Copa apontam para um total de 600 mil turistas estrangeiros desembarcando no país especificamente para o evento, acompanhados de 15 mil jornalistas. Por outro lado, estima-se que 4 milhões de brasileiros vão se deslocar internamente para acompanhar jogos e outras atividades relacionadas ao mundial de futebol.

Isso tudo num período de aproximadamente 45 dias, já que boa parte dos visitantes chega um pouco antes e outro tanto retorna a sua origem alguns dias depois da partida final. Outro dado importante: o mês de julho, quando deve ocorrer o grosso do movimento, já é tradicionalmente o período de maior movimentação nos aeroportos brasileiros, tanto de entrada de estrangeiros quanto de saída e chegada de brasileiros, além dos recordes de trânsito também nos aeroportos domésticos.

Se alguém ainda não realizou mentalmente o resultado dessa matemática, vale dizer que, mesmo que todos os estrangeiros esperados para a Copa sejam números adicionais em relação ao movimento tradicional e admitindo-se que dois terços da movimentação interna decorrente do evento aconteça por via aérea - o que só vai acontecer mesmo em Manaus -, há risco baixíssimo de que venhamos a assistir cenas de um apocalipse aeroportuário durante o mundial. Afinal, também é preciso considerar que os turistas brasileiros entre as cidades-sede serão exatamente os mesmos que já viajam entre elas, só que, no período, em razão da Copa. O mais provável, na verdade, é que o fluxo regular até se reduza, principalmente porque empresas terão razões de sobra para evitar ao máximo as viagens executivas para esses destinos.

Em lugar de ampliar terminais, o necessário é apenas ajustar o fluxo logístico para distribuir o impacto dos voos extras nos aeroportos de menores dimensões. Para a FIFA e para as empresas de turismo que cuidam do trânsito de torcedores, isso é de uma simplicidade banal. Na África do Sul, em 2010, a enorme maioria dos voos fretados para o deslocamento de torcedores acontecia nas frias madrugadas do país. Assim, por exemplo, os brasileiros que estavam alocados em sua maioria na Cidade do Cabo, no Oeste africano, chegavam a fazer tours de 24 horas para ver um jogo da seleção na outra costa. Acordavam às 3 da madrugada, embarcavam nos ônibus diante dos hotéis às 4, pegavam o avião às 5, desciam no outro aeroporto às 8, seguiam de ônibus para um grande shopping, onde almoçavam.

A apresentação nos ônibus, para seguir para os jogos, acontecia às 5 da tarde, o jogo às 8 e a saída do estádio por volta de meia noite, rumo ao aeroporto local. Chegavam de volta à Cidade do Cabo lá pelas 3 ou 4 da manhã. Esgotados, claro, mas felizes. A mesma distribuição de torcedores em cidades-base distantes dos estádios em que jogarão suas seleções será adotada aqui - até porque é do interesse nacional fazer os visitantes andarem de um lado para o outro. Se uma organização semelhante para os deslocamentos for implantada no Brasil, não haverá congestionamento aerofutebolístico nem mesmo no aeroporto de Cuiabá, a menor das capitais escolhidas como cidades-sede.

O aeroporto Marechal Rondon tem até 120 pousos e decolagens por dia, o que dá a média de uma operação a cada 12 minutos, mas há janelas de mais de meia hora durante a madrugada. Com algum planejamento, totalmente possível para eventos cujas datas são conhecidas com mais de dois anos de antecedência, mesmo o tímido Marechal Rondon daria conta do recado. Afinal, o estádio local, o José Fragelli, receberá apenas quatro jogos do mundial.

Sobram evidências de que o aeroporto internacional de Guarulhos, em São Paulo, está caduco e precisa ser ampliado. Mas estender o argumento ao conjunto de terminais brasileiros é uma metonímia empreiteira que acaba por inflar custos e criar pânico. Merecemos e precisamos de melhores instalações aeroportuárias, mas não vale usar a Copa como argumento. Do mesmo modo, para ela não faz a menor diferença a existência de um trem bala entre Rio e São Paulo ou de um monotrilho na capital do Amazonas.

Na realidade, olhando-se para outro exemplo sul-africano, há outras medidas, bem mais baratas, que poderiam fazer muito para que o país cause nos estrangeiros a boa impressão de que se necessita para fazer do evento um marco na história do turismo brasileiro. Nos banheiros dos aeroportos da África do Sul, em 2010, os visitantes eram recebidos por um sorridente faxineiro postado à porta, armado de escovão e orgulhoso de seu serviço. "Welcome to my office" (Bem-vindo ao meu escritório), repetia o trabalhador de vez em quando, saudando os surpresos usuários.

Aí está uma excelente oportunidade: que tal caprichar no nível de higiene e fazer pequenas reformas nos sanitários dos aeroportos, principalmente nos que servem aos passageiros que desembarcam, quase sempre superlotados, asfixiantes e carentes de manutenção? Dizer aos estrangeiros "bem-vindos aos nossos banheiros" já é um bom começo para quem precisa fazer uma Copa memorável.

*  MARCOS EMÍLIO GOMES É JORNALISTA E PREPARA O LANÇAMENTO DO SITE TURISMO, COPA & COZINHA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.