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Meu nome é Bond...Jane Bond.

E se uma mulher assumisse o papel do macho mais alfa do cinema? Por enquanto, a disputa conta com duas concorrentes – Gillian Anderson e a modelo, cantora e ex-Miss Mundo indiana Priyanka Chopra

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2016 | 06h00

Sérgio Augusto

E, no vigésimo-quinto filme, ele descansou.

Será que algum dia escreverão isso a propósito de James Bond? Não da série, mas do personagem tal como o conhecemos há 63 anos (com lombada) e há 54 anos (projetado na tela)? A série continua, mas no próximo filme, o vigésimo quinto, por ora sem título, teremos, especula-se, um 007 ainda mais improvável do que Daniel Craig ao ser convidado para a primeira das quatro últimas aventuras do espião.

No auge da série, Craig, com sua cara de boxeador aposentado, encarnaria, no máximo, um capanga do vilão da fita ou um agente russo. Bond não exige um grande ator, mas uma boa estampa, cuja referência básica será sempre Sean Connery. Digerido na base do faute de mieux, Craig afinal ajustou-se ao papel, mas, alegando fastio, recusou proposta de cerca de US$ 100 milhões para mais dois filmes. Se não mudar de ideia, seu sucessor, o sétimo da série oficial, poderá sair de uma lista de apostas em que se misturam galãs conhecidos (como Damian Lewis, da telessérie Homeland, Jamie Bell, Tom Hardy), entre os quais apenas o ator negro Idris Elba, da telessérie The Wire, bem cotado meses atrás, configuraria uma autêntica surpresa.

Mas há quem torça por surpresa de maior impacto: uma atriz assumindo o papel do macho mais alfa do cinema. Com tantas mulheres em destaque no noticiário, ocupando as mais variadas posições de poder, dando até provas de superioridade cognitiva e peitando machistas de verdade e mentira (na recente telessérie Jessica Jones, a mocinha nem precisava de uma Walther PPK para subjugá-los), a especulação não é descabida.

Por enquanto a disputa conta com apenas duas concorrentes – Gillian Anderson e a modelo, cantora e ex-Miss Mundo indiana Priyanka Chopra –, mas, ao contrário da concorrida contenda masculina, a feminina tem, desde o início, uma pule de dez: a atriz que se consagrou como detetive em Arquivo X e, mais recentemente, na telessérie anglo-irlandesa The Fall. Seus fãs já postaram na rede um falso cartaz do próximo 007, com Anderson exibindo sua “licença para matar” em nome da rainha e do serviço secreto britânico. Só faltou apresentá-la ao estilo consagrado por Connery em O Satânico Dr. No: “Meu nome é Bond... Jane Bond”.

Bissexual assumida, Anderson preencheria quesito extra, assegurando a permanência das Bond Girls com as mesmas funções que até hoje tiveram na saga bondiana. Se não for uma fêmea alfa, uma charmeuse de homens e mulheres, Jane não será uma Bond autêntica, apenas uma Dana Scully ou uma Stella Gibson a mais. De lambujem, poderá virar pelo avesso o entranhado sexismo do universo Bond, em que mesmo as mulheres mais espertas pareciam e às vezes se comportavam como bimbos. Algumas já traziam o sexo explicitado no apelido (Pussy Galore, Octopussy) e não resistiam ao charme avassalador de 007 – mesmo sendo lésbica, como Pussy Galore.

M e Moneypenny não contam. Figuras maternais, M é uma espécie de mãe e Moneypenny, a babá de 007. No início entregue a um fleumático varão, a chefia do MI6, serviço de inteligência britânico fantasiado por Ian Fleming, só foi assumida por alguém do sexo feminino (e uma grande atriz, Judi Dench) depois que Dame Stella Rimington tornou-se a primeira mulher a dirigir o MI5, o serviço secreto de verdade, em 1992. Por falar em mulheres, quem há 20 anos comanda a franquia e escolhe os atores é a filha (Barbara) do criador da série, Albert Broccoli.

Em vez de procurar novo intérprete para seu herói, Ms. Broccoli deveria promover a invenção de um novo herói afinado com a realidade e as questões geopolíticas, sociais e existenciais do atual milênio. Perdeu a chance de fazer coincidir o cinquentenário da série, em 2012, com o seu fim, e até prova em contrário pretende continuar recozinhando fórmulas desgastadas e recauchutando vilões que antes eram sobretudo russos comunistas, chineses e messiânicos dissidentes igualmente empenhados na destruição da democracia ocidental e da economia de mercado.

Surgido no lusco-fusco pós-imperial, com a Inglaterra em baixa e necessitando preencher suas fantasias de poder e dominação e de fazer bonito na Guerra Fria, já começava, no romance Cassino Royale (publicado em 1953), humilhando um espião da dissidente Smersh numa mesa de bacará, com ajuda financeira de um agente da CIA. Estava selada a parceria. Sua missão primordial foi recuperar a confiança do superaliado transatlântico, justificadamente grilado com as recentes defecções da espionagem britânica para o lado soviético.

Ainda mais sedutor ao sair da ficção de Fleming para o cinema, Bond encantou até os alvos mais frequentes de suas missões. Oleg Gordievsky, espião número um da embaixada russa em Londres, contrabandeou os primeiros filmes da série para exibi-los em Moscou para o Comitê Central do PC soviético. Abilolado com os avanços tecnológicos da espionagem ocidental, acabou oferecendo seus serviços ao MI5.

Elegantíssimo, glamouroso, debonair, cosmopolita, exímio em vários esportes, Bond é um emblema de outra era, um anacronismo tão datado quanto aqueles “homens que liam Playboy”. As feministas o consideram “um dinossauro misógino” e muitos marmanjos já se bandearam para as estripulias Globetrotters de Jason Bourne, o subproduto que satisfaz. Os Beatles, seus contemporâneos no rearmamento moral do reino britânico, um dia se desfizeram; Bond, porém, persiste, imutável como um filho bastardo de Dorian Gray e um Fantasma sem prole. Estranho imaginá-lo numa Europa mergulhada em crise econômica, atormentada por conflitos étnicos, ameaçada pelo terrorismo e a saída do Reino Unido da UE, com um novo padrão de espionagem (cortesia de Edward Snowden), e, de quebra, um possível premiê britânico socialista (Jeremy Corbyn) e um já empossado prefeito londrino de origem muçulmana. Trocar seu sexo seria apenas um artifício ou uma jogada de marketing oportunista.

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