Gualter Naves/AE
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Meu nome não é Johnnie

Rapazes mineiros criadores da marca de cachaça que irritou o gigante Johnnie Walker planejam os próximos passos da João Andante

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h10

SÃO PAULO - Diz que o nome do município está bem explicadinho no "monumento". É assim que o povo chama a singela estátua de duas velhas a fiar em cima de um pedestal de mármore amarronzado na praça central. Quando outros bandeirantes percorreram os caminhos desbravados por Fernão Dias atropelando os índios cataguases que habitavam a região de Minas Gerais, por onde marcharam foram dando nome a diferentes localidades - Passa Vinte, Passa Trinta, Passa Quatro. Em Passa Tempo, vilarejo a 148 km de onde está hoje Belo Horizonte, os rudes caminhantes paravam para descansar diante das senhoras sempre a tricotar no alpendre de casa. Aos que tentavam puxar prosa perguntando o que faziam ali, davam de ombros: "Nada não, sô. Passano o tempo". Pois a "cidade aconchego", como seus pouco mais de 8 mil habitantes atuais gostam de chamar, anda fazendo barulho por causa de uma cachaça - produzida, quase que de brincadeira, ali.

João Andante é o nome da caninha que subiu à cabeça de uma das maiores distribuidores de uísque mundiais e provocou uma ressaca inesperada nos quatro rapazes de Belo Horizonte que a inventaram. A Diageo Brands, holding britânica detentora dos direitos da marca Johnnie Walker, acusou de plágio os marvados fabricantes da pinga mineira. E a reputação da danada, que até então perambulava exclusivamente por dois ou três botecos da Savassi, o bairro boêmio de Belo Horizonte, ganhou os quatro cantos do País, primeiro via redes sociais, depois nos cadernos de economia e negócios.

Para entender a história é preciso retroceder ao ano de 2003, quando os gêmeos Gabriel e Mateus Lana e o colega de classe Gabriel Silva preparavam o trabalho de conclusão de curso da escola técnica de formação gerencial do Sebrae, Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. Os três tinham de 16 para 17 anos e receberam a tarefa de criar uma marca e desenvolvê-la em todas as etapas do negócio.

"Enquanto nossos colegas bolavam redes de shopping center ou montadoras de automóvel, a gente decidiu que queria uma coisa mais simples", conta Gabriel Lana. Chegaram a pensar em um projeto de padaria, mas acabaram optando por uma marca de cachaça por causa de um primo que tinha contatos em alambiques de Presidente Bernardes. O município da Zona da Mata mineira, a 187 km da capital, organiza anualmente um Festival da Cana, já em sua 29ª edição. E o tal primo, Rafael Vidigal, então com 24 anos, era o único dos quatro com alguma experiência em levantamento de copinhos do destilado.

Para deixar claro aos professores seu empenho no exercício, o quarteto registrou a branquinha no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi). Como os estudantes eram menores de idade, a patente foi pedida em nome do pai dos gêmeos, seu Joel, que ainda pingou R$ 600 para custear a burocracia. Naquele momento, os empreendedores mirins - que após a formatura decidiram produzir a bebida de verdade para animar as festas e vendê-la aos amigos - nem suspeitavam que o registro salvaria a pele deles na Justiça. Temor que ainda existe e talvez explique a espécie de amnésia alcoólica que os acomete quando perguntados sobre as exatas circunstâncias em que o nome surgiu. "Cada um tem uma história, até o Rafa, que nem estava presente quando a gente escolheu", desconversa Gabriel.

Eles contam que o conceito foi destilado em parceria com a agência júnior de comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também composta por estudantes. O "andante" do nome seria um mix de sertanejo com caixeiro-viajante, que traz produtos da roça para a cidade grande. Em vez de paródia brasuca de John Walker, de cuja mercearia em Ayrishire saíram, ainda no século 19, as primeiras garrafas do cultuado uísque escocês, a inspiração estaria no prosaico Jeca Tatu, de Monteiro Lobato. E no andarilho mineiro Juquinha da Serra, que vagava pela região da Serra do Cipó e lá ganhou uma estátua - até agora imóvel, ao contrário do gigante de pedra que sai andando naquela propaganda que diz "keep walking".

Além disso, reforçam os meninos, a figura impressa na garrafa teria sido copiada do quadro Don Quixote, pintado por Pablo Picasso em 1955. "Uma imagem de domínio público", ressalta outro Gabriel, o Silva: "A cabeça é igualzinha, a espada virou um pedaço de pau e o escudo, uma trouxinha". Uma argumentação, portanto, na linha no copyleft, o movimento mundial que questiona as leis de direito autoral em nome da criatividade e do sample de ideias. Uma coisa, assim, mais para Gilberto Gil e Juca Ferreira que para Ana de Hollanda.

Obviamente que os advogados da marca centenária, avaliada em US$ 3,5 bi pela consultoria britânica Interbrand, não acharam graça na brincadeira. O que fica evidente nos termos da notificação extrajudicial entregue aos jovens cavalheiros andantes: "A marca padece do requisito da distintividade, sendo certo que, na mente do consumidor, a lembrança do signo da suplicante confunde-se com o sinal da suplicada. Resta evidente o intuito da suplicada de ficar à sombra da marca suplicante, tentando usurpar para si a clientela, como fazem todos os mal-intencionados", diz a petição, em supliciante vocabulário jurídico. Por perrengue semelhante passou a tradicional cachaça Havana, de Salinas (MG), que mudou de nome para Anísio Santiago até vencer uma disputa judicial com a norte-americana Havana Club.

"No início fiquei bem assustado", lembra Mateus. "Foi um documento um pouco intimidador, do maior escritório de direito do Brasil nessa área. Mas após a primeira conversa com nosso advogado fiquei mais tranquilo. Ele explicou que era uma estratégia para tentar nos fazer desistir da marca, mas que estávamos protegidos pela autorização do Inpi." A dor de cabeça foi se transformando em bom humor à medida que o caso se tornou público e as vendas da João Andante cresceram em ritmo galopante. Das cerca de 50 unidades mensais que engarrafavam e etiquetavam uma a uma no apartamento de um deles (a cachaça vinha de um alambique terceirizado), a produção saltou para 200 e eles tiveram que escolher outro fornecedor, que também engarrafasse a bebida. Além disso, contrataram outro amigo, Samuel Neves, como gerente comercial.

Hoje, com um caprichado site na internet e perfis no Twitter e no Facebook, uma média de 900 garrafas/mês de João Andante percorre as rodovias MG 270 e BR 381, de Passa Tempo a Belo Horizonte e, de lá, é despachada para cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Cada uma é vendida a R$ 40, mas o preço em algumas praças pode chegar a R$ 80 - o mesmo de uma garrafa de Johnnie Walker Red Label.

Com o faturamento em alta, os rapazes já pensam em diversificar seu branding. "Adoraria revender produtos típicos como o rocambole de Lagoa Dourada ou o queijo da Serra da Canastra com a etiqueta João Andante", sonha Gabriel Lana.

Na Diageo, que dá seu grande salto no mercado brasileiro ao adquirir a Ypióca por R$ 900 milhões, ninguém mais quer falar no primo pobre do Johnnie Walker. A assessoria da holding admite que a confusão gerou "degaste interno" e sugere que a queixa encaminhada ao Inpi, se rejeitada, não deverá virar ação judicial. Com a cachaça passando a ser declarada "produto genuinamente brasileiro", em troca do reconhecimento do uísque de milho como americano, no acordo bilateral assinado pela presidente Dilma Rousseff na última visita aos EUA, o céu passa a ser o limite para grandes produtores da bebida. "Foi assim que o rum cubano e a tequila mexicana deram um salto no mercado internacional", diz o paulista Leandro Batista, de 32 anos, somellier de cachaça do restaurante Mocotó.

Para Leandro, que degustou a João Andante a pedido do Aliás, a pinga envelhecida em barris de carvalho e umburana pelos jovens mineiros é "de mediana para boa", mas não chega aos pés de suas favoritas: a mineira Bodocó, de Betim, a gaúcha Weberhaus, de Ivoti, e a paraibana Serra Limpa, de Duas Estradas. No problem para Mateus, Rafael e os Gabriéis, que garantem não se embriagar com o sucesso.

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