Meu vizinho criminoso

É inútil aumentar a segurança quando o perigo vem de pessoas ‘normais’ que viram homicidas

José de Souza Martins

14 de agosto de 2010 | 16h00

Os repetidos casos de agressões e assassinatos por motivos banais apenas confirmam a deterioração dos valores sociais que, de algum modo, têm assegurado a ordem nesta nossa sociedade minada. Ordem superficial constantemente ameaçada, não só em relação à vida, mas também em relação a tudo que possa ser violado quando não há princípios sólidos regulando a conduta de cada um. Três assassinatos ocorridos nos últimos dias dão bem as indicações de quanto todos nós estamos ameaçados.

 

Um descuidado adolescente, Michael Jackson Ribeiro Martinez, correu para tomar um ônibus na Baixada Fluminense e esbarrou numa mulher que carregava uma criança no colo. Já dentro do ônibus, o homem que a acompanhava telefonou pelo celular para alguém que, num ponto seguinte, embarcou e disparou quatro tiros no garoto de 17 anos. Num shopping da zona norte de São Paulo, Juliana Cravo, de 29 anos, acompanhada da mãe, na escada rolante, recebeu uma cuspida no rosto, dada por uma criança que, acompanhada da tia, se divertia cuspindo para baixo.

 

A vítima foi reclamar com a responsável pela criança, sendo agredida por ela e outras três mulheres, a socos e pontapés, diante de uma loja de departamentos. Morreria quatro dias depois em consequência das agressões. Finalmente, no Dia dos Pais, à noite, em Suzano, na região metropolitana de São Paulo, o tecelão Airton Fernandes voltava para casa com a mulher e cinco filhos quando, ao se desviar de um buraco, o espelho retrovisor de seu carro bateu no espelho retrovisor de um carro que vinha na direção contrária. Foi perseguido a tiros pelo outro motorista, que acertou uma das crianças. Ao sair do carro, apesar dos apelos de sua família ao atirador, este disparou e o matou na hora.

 

Estamos acostumados a entender que homicídios são praticados por pessoas de algum modo já situadas do "lado de lá" da normalidade, habituadas ou propensas a praticar a violência extrema, gente, como se diz, do ramo da criminalidade. Os casos a que me refiro, no entanto, são de homicídios praticados por gente como nós. É isso que devemos temer. Os "do lado de lá" são naturalmente suspeitos, de certo modo conhecemos suas manhas, horas e lugares em que atacam, modo como atuam, o que pretendem. São os criminosos da escuridão. Sabemos, ou supomos saber, como nos defender deles, porque lhes conhecemos os códigos, as práticas, as limitações e até os medos. Sobretudo, eles sabem que estão agindo criminosamente. Justamente por isso atuam no território demarcado, conhecido e estigmatizado do crime.

 

Contra os do "lado de cá", no entanto, se dá o contrário. Eles praticam a violência no interior mesmo da nossa rotina, atingindo-nos de dentro dos nossos códigos de conduta e até em nome deles. São os criminosos da claridade. Provavelmente, em situação invertida, os que acabaram sendo finalmente vítimas teriam tido algum tipo de reação à ação que, na circunstância, foram eles que praticaram. O que chamou o comparsa para matar o afoito adolescente reagiu ao descabido de ver a acompanhante empurrada, apesar de ter uma criança no colo.

 

Nenhum de nós seria solidário com o autor do empurrão. A que reagiu à reclamação contra o sobrinho malcriado que cuspia nos outros entendeu que criança pode tudo, pois ela mesma ao se omitir autorizara a criança à incivilizada malcriadez. Dependendo do tom da reclamação, qualquer um de nós teria ponderado que a criança agira mal, mas era criança. O que teve o espelho retrovisor do carro involuntariamente atingido entendeu como ofensa a sua pessoa o que era mero dano de patrimônio. Nenhum de nós teria se conformado com o acidente, sobretudo se o que o causara não parasse para se explicar.

 

Mas nos três casos os agressores deram respostas desproporcionais às ações que motivaram as respectivas reações. São casos que dão indicações de uma falha generalizada da civilidade que torna a vida em sociedade possível. O que indica que as instituições e os mecanismos de socialização das pessoas para a vida em sociedade ou falharam de um modo geral ou em algum momento deixaram uma lacuna na transmissão dos valores de referência que tornam a sociedade viável.

 

É inútil pedir mais segurança em casos assim, quando o que se precisa é de mais educação. Muitas pessoas, no Brasil inteiro, transitaram de condições sociais mais simples para o que é propriamente o padrão de conduta da sociedade complexa. Em qualquer sociedade esse trânsito, característico do advento da sociedade moderna, é muito complicado. Muitas pessoas são incorporadas à modernidade seguindo padrões de conduta antimodernos, que acabam se tornando também autodefensivamente antissociais, como nesses casos. O que em sociedades de transição mais lenta, providas de mecanismos eficazes de ressocialização dos que mudam de situação social, se resolve com escola, aqui acaba sendo inevitável resolver com cadeia, o que é sempre uma solução tardia, que custa a vida de inocentes, de um lado, e a liberdade de retardatários, de outro.

 

* José de Souza Martins, professor emérito da FFLCH-USP. É autor, entre outros, 'De a Aparição do Demônio na Fábrica' (Editora 34)

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