Mexeu com vovô, mexeu comigo

Uma mistura de persistência, sorte e raiva. Assim o neto de Jimmy Carter encontrou o vídeo que complicou Mitt Romney

JOSH LEDERMAN É REPÓRTER , POLÍTICO, TRABALHA PARA , A ASSOCIATED PRESS EM WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h09

JOSH LEDERMAN

Enquanto fazia uma busca na internet, James Carter IV deparou-se com um vídeo que não lhe pareceu correto. Neto do ex-presidente Jimmy Carter e pesquisador autônomo democrata, o jovem Carter havia assistido a inúmeras horas de material do republicano Mitt Romney e tinha o hábito de buscar periodicamente no YouTube palavras chave como "Romney" e "republicanos".

Mas, naquele dia de agosto, um vídeo chamou particularmente sua atenção. Lá estava o candidato, num local não identificado, falando abertamente de uma visita a uma fábrica chinesa onde as condições de trabalho eram lastimáveis. "A câmera estava escondida e no início as imagens estavam turvas, com um ar de mistério", disse Carter. "Fiquei interessado."

Alguma coisa lhe dizia que poderia haver mais do que o breve clipe postado no canal do YouTube chamado Anne Onymous. Embora não seja filiado a nenhuma campanha ou ação política, Carter assumiu como missão pessoal ajudar a eleger os democratas em 2012 - e fazer sua parte para acabar com as incessantes zombarias da campanha de Romney contra seu avô.

Então Carter, de 35 anos, começou a rastrear a fonte do vídeo. Mandou mensagem para o usuário do YouTube pedindo detalhes. Sem sorte. Mas, depois de compartilhar links do vídeo no Twitter, percebeu que tinha um novo seguidor com o mesmo nome do dono da conta do YouTube. Carter rapidamente disparou uma mensagem direta.

O que se seguiu foi um complicado esforço coletivo para convencer a fonte, ainda desconhecida do público, de que poderia confiar nele, e de que o mundo precisava ver o resto do que fora gravado às escondidas do discurso de Romney em maio, para doadores que haviam pago US$ 50 mil por cabeça para participar do evento destinado a arrecadar fundos para a campanha.

Numa série de conversas pela internet, Carter mostrou à fonte as provas de que havia ajudado David Corn, jornalista da revista Mother Jones, a publicar um artigo sobre a Global-Tech Appliances, empresa chinesa na qual a Bain Capital de Romney investira por algum tempo. Carter e a fonte então suspeitaram de que era da fábrica da empresa que Romney falava no vídeo. "Isso me deu credibilidade", disse Carter.

Logo em seguida, Carter convenceu a fonte a confiar a Corn todo o vídeo - com a condição de que a identidade da fonte fosse mantida em segredo. Corn o exibiu, usando dicas contidas no vídeo para descobrir quando e onde tinha sido gravado.

Então, na segunda e na terça, postou os clipes no site da sua revista, provocando um terremoto na campanha de Romney por causa dos comentários do candidato de que quase metade dos americanos "se considera vítima" e acha que merece a ajuda do governo e de que os palestinos não têm nenhum interesse na paz com Israel.

"James, isso é extraordinário. Parabéns! Vovô", escreveu o ex-presidente ao neto na terça de manhã em um e-mail obtido pela AP. Para Carter, cujo perfil no Twitter diz que está procurando trabalho, o sucesso na descoberta do vídeo trouxe uma série de propostas de emprego do Partido Democrata e sites de notícias.

Mas o melhor para Carter é que, ironicamente, Romney tenha passado tantos meses atacando Jimmy Carter, criticando sua política externa e até a política para as pequenas empresas, na esperança de colar no atual presidente os traços menos populares do predecessor democrata.

"Recebi muitas mensagens no Twitter de pessoas que me apoiam e dizem que nada mais justo que um Carter tenha descoberto isso, considerando tudo que a campanha de Romney tem falado do meu avô", observou. "Concordo plenamente que se trata de justiça." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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