Stephane Mahe/Reuters
Stephane Mahe/Reuters

Michael Haneke fala sobre o novo filme e a ascensão da extrema direita

Duas vezes laureado com a Palma de Ouro, diretor austríaco lança 'Happy End'

The Economist

09 Dezembro 2017 | 16h00

Happy End, o novo filme de Michael Haneke, que estreou em outubro, na França, e chega ao Brasil em 2018, tem assassinato, depressão suicida e inúmeras formas de tortura – nada que surpreenda quem já tenha visto trabalhos anteriores do roteirista e diretor austríaco. 

Haneke é aclamado como um dos mais inteligentes e inventivos autores do cinema europeu. Seus dois filmes anteriores, Amor e A Fita Branca, ganharam a Palma de Ouro, o maior prêmio do Festival de Cannes. 

Mas ninguém pode acusá-lo de fazer entretenimento “alto astral”. Nas últimas três décadas, os dramas provocadores do diretor de 75 anos têm sido impiedosos em sua retratação da violência sangrenta e inabaláveis em focalizar a desumanidade do homem contra o homem, especialmente em círculos burgueses supostamente respeitáveis. Da heroína que comete automutilação em A Professora de Piano à família que abre as portas a dois sádicos em Violência Gratuita, as vidas de seus personagens raramente têm algo que sugira um final feliz.

Haneke é um entrevistado descontraído e bem-humorado, sorridente e de olhos entusiasmados, que responde fluente e articuladamente em alemão. Ele não acredita que seus filmes inflijam uma cruel e planejada punição aos espectadores. “Não acho meus filmes mais sombrios que outros”, diz ele. “Se as pessoas têm essa sensação, ótimo. Para mim isso não é problema. São, sim, filmes mais realistas. O cinema comum não é realista.”

Se os crimes macabros e situações bizarras de Happy End são “realistas” é algo aberto ao debate, mas o roteiro é provavelmente menos estranho do que imaginaríamos. Ele se situa entre uma novela de TV de humor negro e um filme gótico de terror. Disseca a mentalidade primeiro-mundista elaborada pelo direito e pela tecnologia que é dessensibilizante.

Os anti-heróis do filme são uma dinastia de ricos industriais de Calais. O pouco amistoso chefe da família, um patriarca de 80 e alguns anos interpretado pelo ator Jean-Louis Trintignant, ainda se senta à cabeceira da mesa, mas seus negócios do ramo da construção são agora tocados pelos filhos (representados por Isabelle Huppert e Matthieu Kassovitz). Os dois estão convictos de serem os pilares da comunidade, mas Happy End mostra como eles enganam e maltratam um ao outro, bem como os empregados e a população migrante da área.

Embora a família seja abastada, Haneke insiste em que o filme não trata particularmente de riqueza. “Não é esse o ponto. O ponto é a insensibilidade, a frieza.” E, apesar de o ambiente de Calais ser “o cenário mais óbvio para uma história de como lidamos com estrangeiros e gente pobre e a falta de empatia na sociedade como um todo”, Haneke não acha que o problema da imigração seja mais grave em Calais que em outras cidades europeias. 

“O estranho”, divaga o cineasta, “é que em Calais se veem muito menos negros na rua do que em Paris. De vez em quando nos deparamos com grupos de três ou quatro, exatamente como no filme. Entretanto, quando se assiste ao noticiário fica-se com a impressão de que a cidade está tomada por negros, o que simplesmente não é verdade. A imprensa é responsável por disseminar uma falsa visão da realidade. E isso, claro, é explorado pela direita política.”

As perigosas distorções da mídia há muito são uma preocupação de Haneke, talvez porque ele tenha trabalhado na televisão por 18 anos antes de mudar para o cinema, em meados dos anos 1940. Outra de suas preocupações é a ascensão da extrema direita – A Fita Branca assume que o nazismo nasceu no início da 1.ª Guerra Mundial –, e ele vê no momento sinais preocupantes dessa escalada. “Há poucos anos, seria inacreditável que Donald Trump viesse a ser presidente dos Estados Unidos. E mesmo agora isso parece extraordinário”, avalia.

Haneke não especula sobre raízes sociais da atual “insensibilidade”. “Muita gente brilhante já escreveu calhamaços a respeito”, diz. “Minha função não é analisar uma questão extremamente complexa, mas mostrar o que vejo, provocar associações e fazer raciocinar pelo menos parte da plateia.” E, se essas associações e pensamentos deixarem algumas pessoas angustiadas, bem, é assim que funciona. “A arte não visa a deixar conforto às pessoas, mas a levá-las e questionarem suas vidas. Que seria da vida se não a questionássemos?” / Tradução de Roberto Muniz 

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