Michael Moore de direita

Dinesh D’Souza também é documentarista, controvertido e gosta de se promover, só que joga do lado republicano

Kenneth Serbin, O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2014 | 16h00

Tradicionalmente, Hollywood apoia os democratas e liberais. E, com a ascensão de Barack Obama à presidência, em 2008, os democratas demonstraram seu excepcional talento no uso da mídia social. Mas agora os conservadores estão revidando. O verão americano de 2014 poderá ser visto como um momento decisivo para os republicanos e seguidores em seus esforços de dominar a mídia em apoio aos candidatos e ideias do partido.

E eis que surge um Michael Moore conservador na pessoa de Dinesh D’Souza. Como Moore, ele é audacioso, controvertido, gosta de se promover e é capaz de produzir documentários que apelam para a emoção – mas a serviço dos objetivos republicanos. Após admitir no início do ano ter infringido leis que regem financiamentos de campanha, D’Souza poderá passar algum tempo na prisão quando sair sua sentença, em setembro.

Seu último trabalho, America: Imagine the World without her, teve estreia nacional em 3 de julho, véspera do Dia da Independência. E já é um dos documentários mais vistos no cinema nas últimas décadas, estando em 17º na lista do website Box Office Mojo. Seu filme anterior, 2016: Obama’s America, lançado em 2012, continua em quarto lugar.

Em America: Imagine..., D’Souza pergunta o que o mundo faria sem a engenhosidade, o empreendedorismo e a defesa da liberdade dos EUA. Nesse cenário hipotético, tenta responder a cinco “acusações” feitas aos Estados Unidos por ativistas liberais, cujas posições ele apresenta respeitosamente, mas critica como parte de um sentimento mais amplo de autodepreciação – mesmo “tendências suicidas” – na América contemporânea.

É difícil refutar essas acusações, pelo menos na interpretação liberal da história americana que D’Souza ataca: o genocídio dos nativos americanos, a captura de metade do território do México, a escravidão dos africanos, uma política externa intervencionista e a adoção da economia de livre mercado como meio de exploração e roubo. Acusações parecidas poderiam ser feitas contra o Brasil, onde observamos a luta entre povos indígenas e outros segmentos da população e afro-brasileiros ainda são discriminados.

“Essa é a nova história da vergonha americana”, afirma D’Souza referindo-se à interpretação liberal. “São nossas vidas aparentemente inocentes parte de um mecanismo impiedoso de saque, exploração e assassinato? É uma crítica muito forte. Não podemos simplesmente rechaçá-la com hinos de liberdade, emancipação, rá-rá-rá. Os críticos estão levantando a questão fundamental da justiça.”

D’Souza legitima a expansão dos Estados Unidos como parte de uma “ética de conquista universal” que remonta a tempos remotos.

Segundo ele, os EUA realizaram conquistas, mas acabaram por dar mais ênfase à criação da riqueza pela “inovação, empreendedorismo e comércio”. E cita Manhattan, comprada dos nativos americanos pelos holandeses em 1626 pelo equivalente a US$ 700 dólares atuais.

“Mas quando os holandeses adquiriram Manhattan não existia nenhuma Manhattan”, afirma ele. “Hoje os preços são astronômicos em razão do que foi construído nos últimos 300 anos. Manhattan é criação dos que a construíram e não dos habitantes originais que a venderam.”

A devolução de terras capturadas dos mexicanos é impossível, diz ele. Na fronteira EUA-México D’Souza entrevista um patrulheiro que confirma a entrada ilegal de milhões de pessoas nos Estados Unidos em busca de oportunidades, sem que exista um fluxo na direção oposta. 

Ele relata outros casos para ilustrar suas opiniões sobre escravidão, intervencionismo e capitalismo. Como ocorre na maioria dos documentários políticos, D’Souza escolhe a dedo as evidências que vão apoiar uma posição particular.

Entretanto, o filme tenta tratar de um problema que Estados Unidos e muitas outras nações enfrentam: como seguir em frente depois de uma era de opressão e como entender o passado. É um filme sobre como lidar com a culpa nacional.

Muitos americanos ou têm uma noção confusa a respeito ou simplesmente nem pensam nessas questões na vida quotidiana, porque esta é uma cultura frenética, não histórica, voltada apenas para o futuro. D’Souza na verdade dá voz àqueles que expressam raiva do passado porque tem como objetivo refutar suas ideias. Mas eles são uma pequena minoria. Comissões da verdade não são criadas nos Estados Unidos.

O filme atinge a apoteose quando D’Souza conclui sua revisão da história americana com um discurso proferido recentemente nos Estados Unidos por Bono, cantor e compositor irlandês do grupo U2: “Não é uma questão de direita ou esquerda”, diz Bono. “É uma questão de certo ou errado. E os EUA estão constantemente do lado do que é certo. Porque na realidade tudo tem a ver com manter a fé na ideia da America. Por que a América é uma ideia, não é? Quero dizer, a Irlanda é um grande país, mas não é uma ideia. A Grã-Bretanha é um grande país. Não é uma ideia. E assim que pensamos a respeito de vocês em todo o mundo”.

O filme deveria terminar aí. Mas D’Souza adicionou um longo segmento flagrantemente político que atende a seus interesses, atacando Obama e Hillary Clinton e sugerindo que sua condenação foi resultado de uma vendetta política. Nesse ponto, pensadores independentes e críticos vão querer sair do cinema.

D’Souza definiu sua posição ao lado dos conservadores e republicanos. Ele poderia ter prestado ao país um serviço mais importante terminando seu filme com uma reflexão e não uma diatribe que só aprofunda a polarização política nos Estados Unidos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

Kenneth Serbin é professor de História na Universidade de San Diego. Foi presidente da BRASA - Associação de Estudos Brasileiros - de 2006 a 2008

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