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Cena de 'A Cor que Caiu do Espaço', de Richard Stanley RLJE Films

Michel Houellebecq analisa H.P. Lovecraft em ensaio inédito no Brasil

Autor mais polêmico da literatura francesa contemporânea faz carta de amor a Lovecraft no ensaio 'Contra o Mundo, Contra a Vida'

Rodrigo Petronio*, Especial para o Estado

28 de março de 2020 | 16h24

A vida e a obra do escritor norte-americano Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) podem ser definidas como um asteroide que tivesse atingido o começo século 20 sem ser percebido. Apenas há umas poucas décadas as ressonâncias desse desastre cósmico podem ser aferidas. Isso ocorre porque Lovecraft talvez tenha sido um dos autores mais marginalizados de toda literatura. 

Cita-se a plêiade dos poetas malditos. Venera-se os decadentistas do fim do século 19. Fala-se em Rimbaud, Lautréamont, Artaud, Pessoa, Kafka como exemplos de escritores “suicidados pela sociedade”. Mas esses autores, por mais alijados do sistema, acabaram se tornando canônicos e endeusados pela mainstream acadêmico. 

Com Lovecraft ocorre justamente o oposto. Dilapidou uma pequena herança. E, depois de um casamento fracassado de poucos anos, queimou seus dias em puro miserabilismo e isolamento. Como revisor de textos e jornalista amador, ganhava alguns trocados que mal garantiam a subsistência. Admirado pelos seus pares, ocupou um lugar estranho na cultura das revistas de pulp fiction, entre o horror, a ficção científica e a literatura especulativa. 

Depois de morto, transformou-se em um culto. Inaugurou um fenômeno inaudito na literatura: a ritualização. E reativou uma antiga modalidade de leitura: a leitura-reciclagem. Como em uma religião, os leitores-recicladores passaram a recriar seus personagens, mundos e narrativas. Incorporavam-nos. Reviviam suas sagas. Criavam outros desfechos, inaugurando o fenômeno contemporâneo das fanfics e da transmídia. Por outro lado, coube-lhe depois da morte o desprezo solene e silencioso das universidades. Amado pelos leitores. Desprezado pelos intelectuais. 

O leitor brasileiro agora tem a oportunidade de conhecer um pouco melhor esse universo a partir de diversas publicações. Dentre elas se destaca H. P. Lovecraft: Contra o Mundo, Contra a Vida, estudo sobre o mestre do horror assinado por Michel Houellebecq e com prefácio de Stephen King. Leitor de Lovecraft desde os 16 anos, esta é a primeira obra de Houellebecq, publicada em 1991 e traduzida pela primeira vez no Brasil. O ensaio vem acrescido de duas novelas de Lovecraft: O chamado de Cthulhu e O sussurro nas trevas. 

Para Houellebecq, Lovecraft pôs fim à literatura realista. E o fez por meio da extrapolação de alguns recursos: uma arquitetura de pluriversos, um materialismo negativo, uma religiosidade ateísta, a transcendência do Mal e a noção gnóstica de um Demiurgo maligno, criador do universo. Nessa mitologia pessoal, os personagens não são nem tipos sociais nem arquétipos do inconsciente coletivo. São entidades e forças cósmicas transumanas. Em oposição à banalidade dos conflitos cotidianos pequeno-burgueses, representada pelos realistas, Lovecraft teria reativado o antigo sentido das sagas e dos mitos fundadores em uma “gigantesca máquina de sonhos”. 

As entidades-matriz que perpassam toda sua ficção têm um nome: inteligências alienígenas. Contudo, diferente da ficção científica, que projeta essas inteligências em um futuro infinito, esse Grande Outro e esses seres extraterrestres estariam vinculados a um passado infinito. Seriam rastros e ressureições do Grande Antigo. Antigas divindades, forjadas nos interstícios da origem do universo, retornam para interrogar a insignificância humana. A encarnação perfeita dessa alteridade imemorial é Cthulhu, personagem-emblema que sintetiza toda cosmologia lovecraftiana. 

A partir dessa abordagem, Houellebecq identifica e analisa o que considera o âmago da obra de Lovecraft. Nomeia-o como os Grandes Textos: O Chamado de Cthulhu (1926), A cor vinda do espaço (1927), O horror de Dunwich (1928), O sussurro nas trevas (1930), Nas montanhas da loucura (1931), Os sonhos da Casa da Bruxa (1932), A sombra de Innsmouth (1932) e A sombra além do tempo (1934). Este ciclo de obras representaria o cume da maturidade criativa e existencial do autor. Mais do que isso: traria em si todas as variantes de sua ficção especulativa. A partir de uma topologia multidimensional, nessas obras Lovecraft teria edificado uma arquitetura de pluriversos habitados por uma multiplicidade de seres infinitamente maiores ou infinitamente menores do que o humano. Ou seja: infinitamente aterradores. 

Por fim, Houellebecq trata também de alguns temas polêmicos da vida do autor. Dentre eles o sua xenofobia e seu racismo. Em certo sentido isso se explica pela obra. Se o humano é um carrapato do cosmos e existem outras inteligências, meta-humanas e transfinitas, o humano pode muito bem ser capturado e domesticado por essas inteligências. Nesse sentido, por meio de extrapolação, o conceito de raça é reativado em termos ficcionais. Os humanos escravizaram outras etnias da mesma maneira que outras espécies de vida, ou seja, outras raças cósmicas podem vir a escravizar o humano. Mais do que um projeto protofascista deliberado, a questão do racismo em Lovecraft se assemelha mais a um medo diante do estranho. Um terror ancestral que assombra o sapiens quando adquire a plena consciência de seu fracasso. 

O ensaio de Houellebecq é um pouco veloz em algumas conclusões. E enfatiza demais certo arrivismo entre o escritor e o mundo. Também romantiza e idealiza alguns aspectos da vida e da obra desse mestre do horror cósmico. Essas limitações do livro podem esclarecer algumas consonâncias entre os dois autores. Polêmico, Houellebecq é o atual enfant terrible da literatura francesa. Em Partículas elementares (1998), mescla debates sobre o futuro da humanidade e pornografia. Em Plataforma (2001), trata de prostituição, fundamentalismo, globalização e inclui, em sua cartografia, o Brasil. Em A possibilidade de uma ilha (2005), o assunto é clonagem e a fabricação de pós-humanos. E Submissão (2015) se passa em uma Europa de 2022, dominada politicamente pelo islã. Dentre suas declarações, Houellebecq diz que a clonagem é mais humanista do que o aborto. 

Vencedor de prêmios importantes, parte da crítica o vê como uma revelação da literatura contemporânea. Outros o definem como um manipulador de clichês desgastados de manuais para a escrita de best-sellers. Os temas polêmicos? Fórmulas para vender. Não se trata de comparar Lovecraft e Houellebecq. Mas de compreendermos os monstros e as ideologias sinistras deste tempo em que vivemos. Para tanto, ao invés de nos mantermos em nossas bolhas banais de progressismo e de ressentimento, talvez o melhor seja esmiuçarmos a inteligência e a sensibilidade desses profetas da estranheza radical. Parafraseando o filósofo Peter Sloterdijk, o cientista experimenta com o mundo e o artista experimenta consigo mesmo. Toda grande arte é, sem exceção, experimental. E um dos experimentos mais fascinantes de nossa humanidade é conseguirmos olhar nos olhos de uma estranha criatura que pode vir a nos aniquilar. 

H.P. LOVECRAFT: CONTRA O MUNDO, CONTRA A VIDA

Autor: Michel Houellebecq

Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges

Editora: Nova Fronteira

200 páginas

R$ 44,90

OS MITOS DE CTHULHU

Autor: Howard Phillips Lovecraft

Tradução: Regiane Winarski, Bruno Gambarotto e Alexandre Barbosa de Souza 

Editora: Nova Fronteira

696 páginas

R$ 179

TERRITÓRIO LOVECRAFT

Autor: Matt Ruff

Tradução: Thais Paiva

Editora: Intrínseca

352 páginas 

R$ 59,90

OS MITOS DE CTHULHU (HQ)

Autor: Esteban Maroto

Tradução: Denise Schittine

Editora: Pipoca & Nanquim

92 páginas

R$ 39,90

A BALADA DO BLACK TOM

Autor: Victor Lavalle

Tradução: Petê Rissatti

Editora: Morro Branco

160 páginas

R$ 39,90

A FLORESTA DAS ÁRVORES RETORCIDAS

Autor: Alexandre Callari

Editora: Pipoca & Nanquim

420 páginas

R$ 69,90

*Rodrigo Petronio é escritor e filósofo. Professor titular da FAAP e pesquisador do Centro de Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD|PUC-SP).

 

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Como o horror cósmico de H.P. Lovecraft dominou a cultura pop

Obras do escritor inspiram cada vez mais livros, filmes, quadrinhos e videogames

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2020 | 16h23

Depois de morrer, H. P. Lovecraft se tornou uma de suas criações: aterrorizante, onipresente, imortal. O escritor americano espreita as mais variadas mídias, da literatura aos quadrinhos, do cinema aos videogames. Morto precocemente aos 46 anos, o criador do horror cósmico parece ter se erguido do túmulo como Cthulhu, uma das entidades presentes em seus contos, para reclamar o que lhe é de direito.

“A fortuna crítica sobre ele cresce a olhos vistos no Brasil”, afirma ao Estado o professor Caio Alexandre Bezarias, pesquisador de Lovecraft. Para ele, o crescente interesse advém do fato de sua obra “expressar como nenhum autor o sentimento de horror perante à pequenez de nossa existência e de como o universo é, não caótico ou hostil, mas indiferente a nós”. 

Essa noção, ele diz, é a pedra fundamental do subgênero que Lovecraft pavimentou. “O leitor neófito deve, ao ler pela primeira vez seus textos, compreender o que é o horror cósmico: a mera revelação do estatuto da nossa espécie no cosmos e que as forças que o governam são totalmente indiferentes a nós causa um horror paralisante.”

Nos últimos tempos, seu universo ficcional inspira todo tipo de adaptação ou releitura. O canal pago HBO anunciou a produção de uma série dirigida por Jordan Peele (Corra! e Us) baseada em Território Lovecraft (Intrínseca), de Matt Ruff, que reformula suas lendas e está sendo publicado no Brasil este mês. Releitura semelhante é feita por Victor Lavalle em A Balada do Black Tom (Morro Branco), que filtra o racismo inerente à obra lovecraftiana. Já o escritor brasileiro Alexandre Callari, em A Floresta das Árvores Retorcidas (Pipoca & Nanquim), transpõe os mitos de Lovecraft para a realidade brasileira numa cidade pitoresca no interior de São Paulo. 

A HQ Os Mitos de Cthulhu (Pipoca & Nanquim), do espanhol Esteban Maroto, adaptação de três contos de Lovecraft, foi publicada recentemente no Brasil. No cinema, o diretor Richard Stanley dirige, com Nicholas Cage, uma versão de A Cor Vinda do Espaço, em que um meteoro misterioso cai em uma fazenda e provoca o aparecimento de aberrações e muito além da compreensão humana. Já nos games, a quantidade de jogos inspirados nesses mitos é tamanha que a loja online Steam tem a categoria “Lovecraftian Games”, que lista centenas de títulos, como The Sinking City (2019) e The Call of Cthulhu (2018). 

Para o poeta Dirceu Villa, que está preparando uma nova tradução de sua obra, se Lovecraft escrevesse ensaios, seria acusado de ser um teórico da conspiração, mas sua prosa de ficção fez com que ele transformasse seus preconceitos em metáforas. “Lovecraft era de extrema direita, carregado de preconceitos e ódios profundos, que produziam uma galeria infinita de fantasmas. Era um homem com medo de tudo, das mulheres, de outras etnias, da vida em sociedade”, analisa. “Outras culturas lhe pareciam inferiores e submetidas a coisas sombrias e arcanas, e a sociedade lhe parecia uma farsa grotesca de pessoas inconscientes, e isso tudo lhe deu imagens muito concretas.” O tradutor Alexandre Barbosa de Souza, que verteu alguns dos contos do box Os Mitos de Cthulhu (Nova Fronteira), crê que seu horror “vem desse universo mais antigo e alienígena que a história humana, cujo horizonte final é a aniquilação cósmica”.

Nas tramas de Lovecraft, é comum que autoridades (cientistas, linguistas, jornalistas, detetives) tentem decifrar os acontecimentos de maneira cética, mas a razão sempre acaba cedendo ao pavor. Afinal, como ele escreve em O Chamado de Cthulhu, “vivemos em uma plácida ilha de ignorância em meio aos mares negros do infinito, e não fomos feitos para viajar muito longe.”

Confira abaixo a íntegra das entrevistas com o professor Caio Alexandre Bezarias, o poeta Dirceu Villa e o tradutor Alexandre Barbosa de Souza sobre a obra de H.P. Lovecraft e seu impacto na literatura.

Entrevista: Caio Alexandre Bezarias

Apesar da popularidade de Lovecraft, a fortuna crítica sobre sua obra ainda parece escassa no Brasil. Como é o panorama da crítica lovecraftiana hoje?

 A fortuna crítica sobre ele cresce a olhos vistos no Brasil, mas principalmente a acadêmica. Estudos acadêmicos sobre sua obra são feitos por aqui há bem mais de dez anos, mas até 2004/2005 eram poucos e um tanto, digamos, subterrâneos, quase não circulavam fora do ambiente universitário e mesmo dentro deste, eram um tanto restritos. A partir desta data, mais ou menos, houve um crescimento rápido e hoje, conhecer tudo que se escreve sobre ele em língua portuguesa se tornou tarefa bem ampla e demorada (felizmente). Livros não-acadêmicos, infelizmente, ainda são poucos, mas o corpus disponível desse tipo de publicação é bem maior do que quando eu fiz minha pesquisa de mestrado sobre ele. Então, fecho a resposta com a seguinte afirmação: o panorama é promissor, até mesmo empolgante, pesquisas diversas, de várias linhas, o interesse pela obra só cresce, mas o interessado deve se munir de critérios e senso crítico, pois obviamente muita bobagem também é escrita sobre a obra e ele.

De que forma os mitos se inserem na obra de Lovecraft e como eles se manifestam?

Como eu afirmo em minha pesquisa e no livro no qual ela se transformou, os mitos da sua obra são da categoria dos mitos cosmogônicos, ou seja, mitos que fundamentam o universo em questão, estabelecem a ordem cósmica primordial, quais as forças que erigiram o cosmos do caos primordial e assim o mantêm, incluindo a condição humana nesse cosmos, uma condição que os homens não podem e não conseguem superar. Esses mitos cosmogônicos se manifestam em sua obra na forma dos relatos sobre as entidades cósmicas que definiram o universo, sobre os deuses(na verdade, outras entidades cósmicas, incompreensíveis para a limitada mente humana) que  governaram a Terra no passado e pretendem retomá-la um dia. Descobrir esses relatos e a verdade sobre a pequenez e banalidade da espécie humana é manifestação desses mitos, no corpo das narrativas, que cria o dito horror cósmico e enlouquece e/ou destrói os protagonistas destas.

Que chave de leitura da obra de Lovecraft você daria para leitores que pretendem começar a conhecer seu universo?

O leitor neófito em H. P. Lovecraft deve, ao ler pela primeira vez seus textos, compreender o que é o 'horror cósmico': a mera revelação do estatuto da nossa espécie no cosmos e que as forças que o governam são totalmente indiferentes a nós causa um horror paralisante. Éuma chave de leitura fundamental, para a devida fruição da obra; Também recomendo vivamente que a leia como todo texto literário deve ser lido: com vagar, atenção, sem pressa, dado que o estilo de Lovecraft é algo pesado, dado a muitos adjetivos e descrições. E que não espere heroísmos dos protagonistas: não há heróis no sentido exato do termo.

Como Lovecraft influencia a literatura contemporânea?

Dadas a circulação cada vez maior da obra, as leituras e apropriações que escapam de generalizações, essa pergunta recebe uma resposta ampla, multifacetada: de várias formas. Influencia a cosmovisão de vários autores, os fundamentos do universo fictício de suas obras, sem influenciar necessariamente seus estilos de escrita; influencia a temática e cenário: muitos e muitos autores se inspiram em ou copiam seus cenários, entidades, muitas vezes os colocando no mundo contemporâneo. E é nesse caso que ocorrem alguns dos mais crassos erros de jornalismo e leitores apressados ou preguiçosos: está à solta uma mania de chama afirmar que qualquer narrativa de horror é influenciada por ele e e exemplo do horror cósmico. Menos pressa, mais referências sólidas e leitura atenta, por favor! Um resumo simplório: ele influencia a literatura fantástica/ de horror contemporânea como um balizador do sentimento de horror perante à pequena de nossa existência e de como o universo é, não caótico ou hostil, mas indiferente a nós. Essa percepção, que ele expressa como nenhum outro autor, pode explicar porque sua obra é cada vez mais popular, tem tanta penetração no imaginário atual e causa tanto fascínio e interesse.

Entrevista: Dirceu Villa

Como você diria que Lovecraft trabalha o horror de um ponto de vista formal?

Lovecraft tinha uma percepção notável, e muito incomum. Era um homem com medo de tudo, das mulheres, de outras etnias, da vida em sociedade, e isso tudo de maneiras muito específicas: a fisiologia do sexo lhe causava desgosto com suas mucosas e umidade, as outras culturas lhe pareciam ao mesmo tempo inferiores e submetidas a coisas sombrias e arcanas, e a sociedade lhe parecia uma farsa grotesca de pessoas inconscientes, e isso tudo lhe deu imagens muito concretas.

Formalmente é um escritor muito rico, do ponto de vista da materialidade das imagens, mas também é um tipo indicial: prefere oferecer aos poucos, ou nunca fazer realmente ver, o horror. São restos de gosma, comportamentos crescentemente bizarros, alterações das leis da física distorcendo o mundo, tudo descrito em detalhe.

Sua triste e escura biografia o pôs em posição de perceber aquilo que Freud chamou unheimlich, ou o “inquietante”; em outras palavras, que o verdadeiro horror é o momento no qual aquilo que uma vez foi familiar se torna estranho, além de qualquer reconhecimento. Lovecraft tinha experiência disso em primeira-mão, conhecia o medo minuciosamente, sabia qual porão escuro abrir na mente das pessoas.

Por fim, adotou parte de uma estilística do gótico americano, hiperbólica, onde está tanto o forte quanto o fraco de sua escrita.

 

Qual é a relevância da obra de Lovecraft hoje?

Sendo produto de uma mentalidade formada no horror de não achar um lugar no mundo, e temendo tudo o que era diferente, a obra de Lovecraft me parece mais relevante do que nunca: ela ensina a olhar dentro de um medo regressivo que voltou a ser generalizado. 

Lovecraft era de extrema direita, carregado de preconceitos e ódios profundos, que produziam uma galeria infinita de fantasmas. Esses fantasmas nos falam de perto, hoje. Se tivesse escrito ensaios ao invés de matéria ficcional as pessoas o acusariam de teoria da conspiração. Mas sua prosa ficcional demonstra que seus horrores superficialmente cósmicos são, na verdade, metáforas para coisas muito próximas; tão próximas, por vezes, que estão dentro das paredes, dentro das tripas. 

E é preciso lembrar que foi um dos mais influentes autores desse horror biológico-científico de que gente como David Cronenberg e John Carpenter descende. A lista de autores e autoras de cinema, literatura fantástica e HQs que lhe deve — e não pouco — é gigantesca. 

 

De que maneira a influência de Lovecraft cresceu após sua morte?

Diria de maneira exponencial. Sua época e seu lugar (os EUA do começo do século XX) viam sua literatura como algo desqualificado, porque era escritor de literatura fantástica e publicava em revistas baratas de pulp fiction, coisa muito ordinária, papel vagabundo. 

E veja a ironia: também isso era um preconceito. Ainda que fosse um escritor que tinha lá os seus tiques (e eram de fato uns tantos), me parece impossível não notar sua percepção absolutamente diferencial, seu notável talento para figurar medos que por si sós não passariam de eventuais abstrações psicanalíticas. 

Descobriu-se, faz alguns anos, que aquilo que então constituía uma cultura de nicho tem na verdade potencial infinito de sucesso. É o mesmo fenômeno que levou as HQs ao centro da cultura de massas. Sexo, horror e pessoas com dimensões super-humanas são sempre o centro das atenções em períodos extremos: são como um álcool forte, ao mesmo tempo em que fornecem metáforas de desenho nítido para as nossas angústias civilizacionais. 

Entrevista: Alexandre Barbosa de Souza

Quais são as maiores dificuldades de se traduzir a prosa de Lovecraft?

A primeira dificuldade foi encontrar o tom dos narradores, depois evitar as repetições – especialmente de advérbios de modo – sem perder o efeito de criar essa aura de horror, no espaço relativamente curto daquelas revistas para as quais ele escrevia. Depois repassei todas as alusões recorrentes da mitologia de Cthulhu em cada história, para testar a coerência.

Como você diria que ele constrói a aura de horror que envolve os contos?

Alguns surrealistas viram no Lovecraft uma espécie híbrida de autor gnóstico do século XX, acho que era isso que o Borges gostava nele também, a ponto de imitá-lo em um conto. (Aliás: há um alusão a um raro exemplar do Necronomicon na biblioteca de Buenos Aires.) O horror vem desse universo mais antigo e alienígena que a história humana, cujo horizonte final é a aniquilação cósmica – do qual os leitores só conhecem fragmentos de escrituras pseudo-epigráficas – das quais Lovecraft seria um talmudista atormentado e fanático.

O que Lovecraft tem de diferente de outros autores do gênero?

Não sou especialista no gênero, mas o que achei marcante no Lovecraft, além da mitologia fantástica é a absoluta falta de humor e de ternura. O mais perto que já cheguei do gótico foi no século XIX – traduzi Bram Stoker (Drácula e Contos bizarros), que tinha muito humor, e Mary Shelley (Frankenstein), cheia de ternura.

 

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